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xoves, 17 de setembro de 2026

Vacas e corujas por Eli Ríos


    Un día calquera, nunha libraría, abrín, por acaso, as vacas não me olham mais na cara e dei con este fragmento:

– chispa, chispa!

o que complica o Natal é essa coisa de Papai Noel. acho meio assustador que um velho, para quem eu nunca fui apresentada, fique me vigiando o ano inteiro para decretar se sou ou se não sou boa menina. sendo que até pouco tempo nem menina eu era, então como é que de repente ainda preciso ser boa ou ruim? e não para por aí. no fim do ano, esse velho invade a casa da Dona Lurdes atrás de mim, mas não vem falar comigo. por que alguém atravessa o mundo para chegar nesse vilarejo fantasma, mas não se dá o trabalho de me dar um oi? a história não tem pé nem cabeça. vai ver ele gosta mais da Dona Lurdes do que de mim e ela tem vergonha de me dizer que ele vem é atrás dela. ou então ele não decidiu se sou boa ou ruim e só vai falar comigo quando bater o martelo. mesmo que o Papai Noel me atrapalhe de dormir e de entender certas coisas, a primeira garfada daquele peru faz valer o medo e a espera. se o Papai Noel viesse falar comigo, quem sabe eu até oferecia a ele um pedaço.1


    Daquela, o primeiro pensamento que me atravesou os miolos foi: Epa aí! Poderían ser as corujas2 de Arins! 



    Non desvendo nada ao afirmar que son unha filo-escrita-arins e que gosto inmenso ata do que aínda está a escribir. E así, con esta familiaridade afectiva, entraron "as vacas" no outeiro dos libros para ler. Chegoulle o tempo onte. Si, onte. E hoxe escribo estas liñas porque dora freind narra dese "jeitinho Arins" co que a través dunha tenrura inmensa e cun sorriso amplo na boca acaba por poñerte do revés como se foses un calcetín. Desta forma, na lectura- das corujas e das vacas- identificámonos coas protagonistas, damos unhas risadas e, a seguir, estamos a reflexionar sobre cuestións ben serias que van alén do que a escrita "aparentemente" sinxela e divertida deixa transparentar nun primeiro momento. Son daqueles libros cheos de reflexións que prenden como anzol na gorxa e cando nos decatamos lévanos a repensar moreas de cousas. De aí abrolla unha maneira diferente na nosa ollada e as situacións da vida, por tanto, adquiren unha nova dimensión. A abaladura está aí e vaiche chegar. Diso non hai dúbida.

 Ia para a beira de Fina Batám quando estava a mungir. Observava como apanhava as cacharretas da mungideira e as colocava nos tetos das vacas. Dói-lhes?, perguntava. E anotava que não, que até agradeciam porque não podiam como tanto leite a pesar-lhes no corpo. Observava e tomava notas3


    Nas dúas obras hai unha nena que vai descubrindo o seu arredor a través da observación. Estas prosas poéticas están narradas en primeira persoa por unha cativa, desde que é crianza, e os diferentes capítulos corresponden a momentos vitais determinados ou a persoas que entran nas súas vidas.

    Por unha parte, nas cinco corujas a aprendizaxe ten moito de silencios, mutismos selectivos ou aprender a escribir a máquina. Este é tamén un aspecto que comparte con as vacas não me olham... xa que a protagonista non ten nome porque, durante o parto, súa nai perde a voz e non pode bautizala. Neste estraño episodio, o ruxe-ruxe da aldea acaba por facer que a xente emigre por medo a supersticións ( "a bruxa da boca seca"4). Desta forma, a pequena queda soa coas vacas. Elas son as súas compañeiras: " a língua que eu aprendi a falar era a língua das vacas5" Esta situación cambia cando diversas persoas alugan a casa veciña e ela ten que aprender a vivir en sociedade:


“devia ter um manual que ensinasse a como existir direito, do mesmo jeito que se ensina a montar cadeiras dobráveis, dividido em tópicos e com ilustrações para não deixar dúvidas."6


    Nomear e revelar aquilo que permanece oculto nos silencios é o centro destas dúas novelas xa que define o lugar no mundo que ocupamos no mundo e a maneira de entendelo. A procura da identidade propia e social, a comunicación, a lingua ou o desenvolvemento das cuestións de xénero transforman nelas a infancia en territorio de consciencia.

    Deteñámonos un momentiño na narrativa de Freind... Como persoas lectoras facemos un acompañamento da protagonista desde o mesmo proceso de adquisición da linguaxe. Este desenvólvese cando chega Dona Lurdes á casa veciña e lle aprende a ler e a escribir. Incluso lle explica as normas gramaticais, signos de puntuación (" não encontrei nada que merecesse parênteses", Freind, 19) e ata que "o espaço em branco também é letra"7. A partir deste momento todo o proceso de aprendizaxe vai estar marcado pola linguaxe, pola comunicación e polo silencio ( "mil quilos de silêncio caindo em cima de mim", páx. 58). É, tamén, neste proceso que aprende cousas marabillosas: 


ele tinha me dito que a gente assistiria um filme dos Estados Unidos. mas quando começou, eu estava entendendo tudo. comentei:

–nossa, como os americanos falam bem português...

ele riu e me explicou que aquilo chamava dublagem.

que os atores falam numa língua e a gente escuta em outra. até hoje não entendi como isso é possível. se é o nosso ouvido que é bem treinado, se é coisa daquele cinema ou se tem a ver com os atores escolhidos. ele me contou que não é só filme dos Estados Unidos que tem isso, mas filme do mundo todo. como pode o mundo ser tão inteligente?

fico me perguntando se também é possível dublar o silêncio.8


Pero tamén diferencia aquelas outras que lle fan dano ou non lle gustan:


nos filmes, as pessoas que inventam outras na barriga são sempre mulheres. vai ver é porque ninguém ia gostar de morar dentro de um homem.

eu não ia.9


    Nesta novela, a protagonista sen nome acumula palabras en vez de bruídos e vai esquecendo ser bicho ("desaprendi a língua das vacas", páx. 107) para reconhecer a súa propia humanidade. Pola contra, nascinco corujas este proceso é coletivo, pero tamén no mesmo sentido de nomear a vida e camiñar cara un mundo adulto ("nas faíscas daquela noite/esvoaçaram o berço e a infância, páx. 90).

Tenrura, poesía, metalinguaxe, violencia e delicadeza, humor inesperado e unha narrativa precisa, de gume afiado e directa ao corazón fan destas dúas novelas pequenas xoias que non seremos quen de soltar ata a última páxina e, quizais(quen sabe!), recollamos aquilo que dicía a nosa protagonista sen nome: "Chegou minha vez de acender as palabras"10


                                        Freind, D., as vacas não me olham mais na cara, editora Nós, 2026

                                        Sanches Arins, S., cinco corujas, através editora, 2023


1Freind, páx. 28-29

2https://www.asega-critica.gal/2024/02/todas-nos-somos-curuxas.html

3Arins, páx. 15

4Freind, páx. 8

5ibidem, páx. 11

6ibidem, páx. 98

7ibidem, páx. 50

8ibidem, páx. 66

9ibidem, páx. 102

10ibidem, páx. 113   


















 

domingo, 19 de xullo de 2026

A herança do incomodo por Susana S. Arins



Que fazermos com aquilo que chega a nós como oferenda sabendo-o sacrifício doutrem? Que fazermos com o privilégio que gozamos através da família, da comunidade, sabedóries da sua essência privilegiada? Que fazemos com a nódoa na árvore genealógica, com essa tia, esse trasavô, que gostávamos de desaparecer do álbum familiar, do recordo?


Entre outras cousas, escrever. 


À Gabriela Wiener pesa-lhe o apelido. O Wiener teutão que nada a ver tem com a sua pele racializada, como o seu sotaque peruano. E confronta esse peso pesquisando na história familiar. Como certa autora na obra seique1, mergulha em arquivos, consultas a expérties, bibliotecas, museus, testemunhos pessoais, hemerotecas, balcões de cartórios notariais, para saber mais da figura de Charles Wiener, caçador de tesouros pagado pola França que quase descobre o Machu Picchu mas não e que levou para Paris uma enorme coleção de esculturas indígenas. Não duvida Gabriela Wiener em colocar na porta de entrada à sua narrativa aquilo mais incomodante do seu antecessor: “La imbecilidad artificial del cuerpo estaba unida en los peruanos a la imbecilidad fáctica del alma”, CHARLES WIENER2. Eu, que entrei no livro sem lhe saber interiores, voltei atrás, por comprovar se o apelido era o mesmo. Era! 

Que fazer com o totem quando dás com o racismo no livro de seu que é bíblia familiar, tesouro que entrega o pai às filhas?

Gabriela Wiener constrói em Huaco retrato3 uma reflexão sobre a identidade, sobre o colonialismo e as suas consequências, sobre os segredos familiares, sobre a construção das famílias, sobre es ninguém da história e os amos da História: “Desde que vivo en España me encuentro por lo habitual com gente que me dice que tengo «cara de peruana». ¿Qué es la cara de una peruana? La cara de esas mujeres que ves en el metro. La cara que sale en la National Geographic. La cara de María que vio Charles. // Mi cara es muy parecida a la del huaco retrato. Cada vez que me lo dicen me imagino a Charles moviendo el pincel sobre mis párpados para quitarme el polvo y calcular el año en que fui modelada. Un huaco puede ser cualquier pieza de cerámica prehispánica hecha a mano, de formas y estilos diversos, pintada con delicadeza. Puede ser un elemento decorativo, parte de un ritual u ofrenda en un sepulcro. Los huacos se llaman así porque fueron encontrados em los templos sagrados llamados huacas, enterrados junto a gente importante. Un huaco retrato es la foto carnet prehispánica. La imagen de un rostro indígena tan realista que asomarnos a verlo es para muchos como mirarnos en el espejo roto de los siglos”4.

Charles Wiener conseguiu, no último terço do século XIX, financiamento do governo francês para viajar ao Peru na procura das suas cidades sacras. Na expedição espoliou enterramentos e ruínas para levar, à Exposição Universal de Paris, centos de obras artísticas e múmias. O fato de eliminar o contexto arqueológico durante o espólio, faz com que as obras sejam difíceis de datar, de estudar associadas a um espaço, de verem outorgada uma autoria, mesmo coletiva. Eis a metáfora: o Charles Wiener contribuiu a apagar a identidade dos povos indígenas de que procede, também, a sua tataraneta.

O caso é que o Charles Wiener não foi bem aceite na comunidade científica francesa. Era estrangeiro de origem judeia, e muitos o viam como um intruso oportunista. Os seus trabalhos foram postos em dúvida por colegas da academia, o que faz possível duvidar da veracidade de toda a sua estória. Que é verdade e que mentira? Seique todo e nada. A dúvida chega à protagonista da narrativa. A estória familiar afirma serem descendentes desse Wiener que, de estadia na vila da trasavó Maria, foi embora deixando-a prenhe. E assim se herdou na família o orgulho da ascendência europeia, da ascendência intelectual. Porém, a autora não consegue confirmação papelar desses feitos. 

Durante a leitura da obra do patriarca, Gabriela encontra um parágrafo em que o trasavô resgata uma criança da má mãe índia e decide levá-la com ele a Europa. Procura também a história desse meninho. Acabaria em um desses museus humanos tão à moda no Ocidente racional? Seria criado na casa polo trasavô Charles? Seria criado ou filho em adoção? Terá descendentes? Porém, outra vez a ausência: “Riviale ya me ha negado tres veces. Aquí me tiene pero no me quiere. Desclasificada. Mal atribuida. No necesariamente auténtica. Otra falsa hazaña. Estoy muy lejos de ser una descendiente a su medida, útil para sus libros. Si yo soy dudosa, el otro indio es un personaje literario, algo un poco peor. «Descubrimientos imaginarios», llama el académico a los fraudes marca Wiener. No hay niño perdido, ni encontrado, ni inventado, ni borrado. Ni familia que lo niegue ni nada a qué agarrarse. Ahora soy yo la que estoy perdida. Este es el final del callejón sin salida. (.../…) No hay tampoco la seguridad de algo así como un apellido. Nada más que el arbitrario y maníaco uso de un nombre al lado de otro nombre arbitrario. No quiere decir nada y quiere decirlo todo. Un amigo historiador dice que los apellidos son una excusa para explorar. Y aquí estoy, sin una puta idea de nada”5.

Gabriela Wiener não isola as suas pesquisas em um compartimento estanco destinado à história ou à literatura. As suas procuras e achádegos chegam a nós entretecidas entre as suas vivências e os acontecimentos familiares. Deve viajar a Lima para a despedida do pai, falecido, e deixa em Madri a família própria, o homem com que está casada, a noiva com quem também convive e a filha que cuidam entre todes. Enleado na pesquisa sobre as origens e a gestão do luito, aparece-se o monstro das relações familiares, de parelha(s): os segredos, os silêncios, a incomunicação. A sensação que tem a protagonista de boicotar as suas relações tem que ver com essa falsa atribuição de identidade? Tem ela algo para lhe cantar na face ao Charles do passado se ela mesma mente às suas parelhas, se guarda segredos do pai? Pode recriminar ao Charles as crianças abandonadas ou mercadas quando ela mesma tem uma irmã nascida noutra casa? 

Pode que, perante o incômodo do passado, a ausência de dados, os apagamentos da história, as contradições do eu presente, só reste escrever… un Huaco retrato. 


Ou uma língua estrangeira…


Andava a senhora crítica recém saída da leitura do Huaco retrato e caiu n’A língua estranxeira, de Brais Lamela6. E vê-se incapaz de fazer um leitura dissociada das duas obras, pois encontra nelas o vidro e o azougue do espelho dos séculos. 

Damos outra vez com o fio dos espólios arqueológicos. Neste caso o fundo Barreiro-Müller do museu da cidade. Uma das personagens viaja às terras da Colónia com a finalidade de corrigir os erros do passado: tenciona dar nome e contexto às figuras roubadas, que a museologia atual condeia ao armazém por faltarem-lhe dados e informações científicas. Viaja a parelha da museóloga com o seu próprio projeto de pesquisa: comprovar a existência e dar com os restos de Nova Galicia, um projeto colonial e migratório de um filantropo galego de inícios do século XX. Atendemos às pesquisas das personagens ao tempo que entramos na sua intimidade de parelha, em um jogo paralelo ao da Wiener. As pesquisas, em aparência académicas, não estão desligadas do pessoal. 

Em realidade, o protagonista inventou o projeto de pesquisa para poder visitar a moça, e acompanhamo-lo em uma viagem de carro, com o Carlos, guia local, não sabemos se à colónia ou às suas inseguridades. “En cada solicitude de finaciamento ideara unha lóxica diversa para xustificar o meu proxecto, que variava estratexicamente de acordo coas prioridades de cada institución: quero contar a historia de como un grupo de labregos pertencentes a un pobo colonizado tornaron eles mesmos em colonizadores (calculado, oportunista, autocompasivo); quero furgar nunha ferida incómoda na história do meu pobo (afectado, performativo, melodramático); quero estudar unha experiencia de colonización trasatlántica que non se axusta aos nosos modelos habituais para describir a nosa emigración (académico, aseptico, aparatoso); quero reivindicar unha descoñecida epopea alén mar (imperialista, apoloxético, europeo); quero completar a segunda parte dun tríptico sobre a paisaxe colonial (indulxente, endogámico, autorreferencial)”7. Faz boa parte de todo isto Brais Lamela. Porque o interessante da sua narrativa é a escolha das vozes, que abrirão diante nossa as perspetivas que coloca no seu retranqueiro (ou cínico, quem sabe) protagonista. Ele é o altifalante do incomodo perante a herança não desejada, e com a que não sabe que fazer, como atuar: “A visita debeu durar máis do esperado. Na miña cabeza seguen a resoar as palabras da muller: devolverannos o que é noso, algún día? Agora a xustiza deunos a razón, repetiu a muller, os tribunais internacionais pronunciáronse ao noso favor, pero que importa xa? Seguen sen querer devolvernos as cousas, apelan a todas as instancias, e cando devolven algo, devólvennolo roto. Devolvéronnos algún documento, si, pero devolvéronnolos rotos, non queren que se saiban as cousas, por isso só nos devolven papeis rotos”8. Quen deve devolver é o Museu da moça, é o Estado que lhes paga as viagens. 

O protagonista viaja acompanhado de Carlos, um guia local que nos oferece a imagem que tem do turismo ocidental, das perdas e danos na sua cultura, das agressões ambientais que está a viver a sua terra (monocultura da soja, lumes, contaminação química). A moça escuitamo-la através das fichas descritivas, em aparência técnicas, que elabora das esculturas indígenas sobre as que pesquisa. E no meio destes rios de vozes, as cartas do Escribano, chegado da Galiza para super-visar a medição do lote de terras concedido ao seu padrinho, o filantropo. O Escribano acompanha-se de um Fotógrafo, e parte das fotografias que faz na viagem complementam, ou não, o texto do romance. No Escribano escuitamos a voz da metrópole: “No camiño de volta, despois de deixar os cabalos na corte, parolamos o Fotógrafo e mais eu sobre as xentes que atoparamos no Lote Nº 4, tan próximas ao Estado de Natureza que describiron os antigos filósofos. Como é, preguntaba o Fotógrafo, que deixamos de vivir así, igual que os peces no océano ou os paxaros no aire, igual que os nenos? Sen querer revelar canto me amolaran a min as argucias do condenado Cacique, asegureille que tamén eu admiraba eses hábitos primitivos, que aínda se apreciaban bem nos rústicos da miña terra. Pediume daquela o Fotógrafo que lle falase da miña patria. Exercín o mellor que puiden os meus dotes de cronista, abondo deficientes, para describirlle os ritos simpáticos dos labregos do noso país, meu padriño, que nas súas supersticións e inocencia tanto me lembran, por veces, os indios de aquí.9”

A través da crónica do Escribano chega a nós a voz ventriloquada do Fotógrafo, que a cada dia se interna mais nas terras onde vivem os povos originais e a cada se relaciona mais com eles, ao ponto de erigir-se, dentro da Colónia, no primeiro defensor dos seus direitos e dignidade. Isto implica a sua passagem de Fotógrafo a Louco. 

As correntes cruzadas que provoca esta polifonia narrativa, junto com os fundos a negro que som os borranchos que obstaculizam a leitura, coloca-nos às leitoras na mesma incomodidade do protagonista. Se o incomodo para Gabriela Wiener era a fenda na árvore genealógica, em nós a fenda está na identidade social e política, na construção da pátria. O protagonista visita o Museu da Colónia, onde ficam alguns documentos, poucos, daquela Nova Galicia. “Recibo un libro das súas mans fibrosas. É un tomo pesado, de tapa dura. Porén, dentro as páxinas son finísimas: papel biblia. Un obxecto sagrado” 10. É o poema épico Os Eoas, de Eduardo Pondal, a quem Lamela outorga, acertadamente, o rol de alfaia dos colonizadores. 

Na reflexão sobre esta obra, o protagonista afirma: “Nada lle acae tan ben ao xénero épico como o nome próprio, supoño: desde a antiga Grecia, os nomes, anoados aos seus epítetos, son o corazón da épica, os nomes dos homes. Cal sería pola contra, o xénero dos sen-nome?”11. Pratica a contra-épica Lamela. Condena as pessoas e os lugares ocidentais, na sua narrativa, ao anonimato. O protagonista não tem nome, a moça não tem nome, o escrivão é Escribano, o fotógrafo, Fotógrafo; Carlos e indígena. Só ele tem direito a nome. Ou Ramón Gaspar, dono, local, de um hotel. Acontece o mesmo com os lugares, supomos que os protagonistas vivem em New York12, mas nunca é nomeada a cidade. Supõe-se que o rio grande que domina a narrativa é o Paraná e que os povos originais seja guaranis, mas nada tem nome. Não surpreende que as pessoas locais, as ninguém, não tenham nome, mas choca ao ler es nosses sem ele. Combinado com este recurso dá-se aquele que oferece título à narrativa: as línguas, a incomunicação, a impossibilidade (ou não) de nos fazer entender, a confusão. Entre o barulho das aves a cantar o dia todo e o estrondo da tronada, as pessoas nunca conseguem dizer. O silêncio domina as noites de insónia e as viagens de carro. A pausa, a lentidão da resposta, é semelhante à daquela pessoa que tem que falar traduzindo o que na sua cabeça nasce noutra língua. O protagonista cuida-se de lembrar-nos que aquilo que narra foi vivido noutras línguas: “Estás a pensar na túa moza?, pregunta Carlos. Non te preocupes, seguro que damos retornado a tempo. Nunca choveu que non escampara. // De novo, a súa expresión non é exactamente esta, pero decido traducila deste xeito, aventuro as súas equivalencias no meu idioma natal.”13 . Ao tempo, aparecem sempre as mudanças e interferências das línguas nativas. É nesta corrente, que adquire importância o Nenoque o Escribano sequestra em uma das suas incursões (como o Charles de Huaco retrato) e de quem tenta obter, ao mais claro modo extrativista, a sua língua para a construção de uma gramática. 

N’A Casa do Amo14, María Reimóndez animava-nos a rever a tradição colonial e racista que como corrente subterrânea percorre a nossa literatura e revisava, entre outros, o tropo da emigração épica a América, ou da épica migratória. Nesse sentido, A lingua estrangeira é o livro que necessitávamos. Revisita criticamente a nossa história migrante e obriga-nos a passar o incomodo de que o guia do museu das Colónias pense que partilha conosco o seu orgulho racista. É um livro gonço, como somos nós no mundo, dacavalo entre a subalternidade e o poder, segundo onde e como. 

A voz de Gabriela Wiener fala desde a incomodidade de descer de um passado que a nega no presente. A obra de Lamela coloca-nos em espelho um passado que negamos no presente. 


Gabriela Wiener: Huaco Retrato. 

Penguin Random House 2021

Brais Lamela: A lingua estranxeira. 

Editorial Galaxia 2026


1Risos da crítica literária que se cita a si própria, mas a verdade tem un caminho. Sanches Arins, Susana: seique, Através Editora 2015.

2Huaco retrato, pág. 7, citação inicial da obra.

3Wiener, Gabriela: Huaco retrato, Penguin Random House 2021. 

4Huaco retrato, págs. 60-61.

5Huaco retrato, pág. 126.

6Lamela, Brais: A lingua estranxeira, Galaxia, 2026.

7A lingua estranxeira, pág. 180.

8A lingua estranxeira, pág. 146.

9A lingua estranxeira, pág. 119.

10A lingua estranxeira, pág. 210.

11A lingua estranxeira, pág. 211. Esta visibilização da interpretação evidencia o modo colonial de escrever as américas. Nas crónicas (penso em Bernal Díaz del Castillo, para a Espanha, Pêro Vaz Caminha ou o piloto anónimo de Vasco da Gama para Portugal), as vozes des outres eram narradas na língua da metrópole, ocultando, quase sempre (a excepção da figura da Malitzin), que se tratava de conversas, discursos, respostas mediadas desde outra(s) língua(s).

12Um New York imerso nas políticas antimigratórias de Trump, o que coneta a reflexão sobre o passado com a contemporaneidade mais imediata.

13A lingua estranxeira, pág 99

domingo, 3 de maio de 2026

O olhar desde a fossa por Susana S. Arins

 



Interessa-me aquilo que escreve Brigitte Vasallo. Nos seus escritos sempre coloca o foco em zonas de sombra que as minhas ideias não iluminam. O feixe de luz da sua lanterna adoita pôr-me sobre aviso para não cair nas armadilhas das minhas rebeldias. Cuidado com a linguagem inclusiva e as suas estratégias de classe, cuidado com a exclusão das expulsadas no campo das identidades. Escuita as vozes dissidentes. Aprendim muito da leitura das Mentes insanas. Ungüentos feministas para males cotidianos (2020), do Lenguaje inclusivo y exclusión de clase (2021) e do Tríptico do silencio, que me fez escuitar a voz daquelas que ficaram à intempérie. 

Comecei a leitura de La fosa abierta com essa expetação, incrementada polo feito de escuitá-la citada em vários eventos recentes como referência para nos compreender às galegas, às pessoas do rural. 

La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico1, parte da história familiar para, em uma narrativa híbrida e fragmentária, recorrer o impacto que a emigração dos rurais aos centros industriais do estado espanhol deixou nas gerações que viveram esses deslocamentos e a seguinte, a dela, que denomina mutante, a criada longe da origem e sem chegar a ser aceitada no lugar habitado. A autora parte da experiência própria e combina a pesquisa sobre a história de vida da sua mãe com o achegamento às experiências doutras pessoas, através de laboratórios de conversa, e com leituras sobre a questão da migração, do processo de abandono do rural, etc. A partir de aí constrói, como bem indica a apresentação editorial, um espaço de enunciação próprio. O feito de que a família da autora proceda de Chandrexa de Queixa, onde ela se instalou nos últimos anos, incrementaram o meu interesse na obra, porque entendo que vai falar de espaços e experiências que me são próximos. 

A autora começa por fazer um percorrido polas políticas de ocupação das terras do comum em diferentes épocas do Reino da Espanha, as desamortizações várias e as políticas agrárias e florestais das repúblicas e do franquismo. Cita O atraso económico de Galicia, de Xosé Manuel Beiras já nas primeiras páginas e eu surpreendo-me da profundidade das suas leituras (até leio o Beiras!). Continuo a leitura em que reflexiona sobre a perda que supus a expropriação dos montes em mão comum e continua a citar o Beiras. A minha surpresa muda. Aguardava a cita de autoras mais contemporâneas2, porém, confiei na autora e pensei que o facto de estar instalada na Catalunya podia dificultar-lhe o conhecimento de bibliografia atualizada3. Mesmo assim, consultei o aparato bibliográfico do final do livro e comprovei que praticamente a única referência ensaística sobre a Galiza era a de Beiras. Continuei a leitura, chocada, mas não tanto, pois entendim que o interesse de Vasallo estava em artelhar e dar forma ao seu próprio discurso, e que os apoios referenciais eram isso, apoios, relativamente necessários. 

E cheguei assim à página 137. E li: 

Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.

Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.

Estupefacta fiquei eu. Pampa. No momento reconhecim o livro. Dou por feito que se refere a Uma história pequena da Galiza Rural (1939-1982), de Alba Díaz Geada4. Voltei consultar a bibliografia final e não se aparece na listagem de obras referenciadas. E não percebo. Não percebo nada. Ao longo do discurso, Brigitte Vasallo indica em muitas ocasiões de onde obtém a informação e explicita o seu cuidado em citar as suas informantes5, por isso, que lhe negue nome e autoria ao livro deixa-me sem palavras. 

Alba Díaz Geada reelabora a sua tese doutoral em um breve volume de divulgação, Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982). Nele analisa as mudanças no mundo rural galego durante o franquismo, a mesma época que interessa a Vasallo. A sua metodologia de trabalho baseia-se nas entrevistas e encontros com habitantas do rural, para, a partir dos seus testemunhos, construir a sua proposta de análise. Em realidade, uma metodologia semelhante à que utiliza Vasallo nos que ela denomina “laboratórios de memória txarnega”: escuitar as subalternas e construir, com elas, pensamento. As duas estruturam os seus livros combinando depoimentos de testemunhas com as suas próprias reflexões ou explicações. Porém, no que se refere à Galiza, o trabalho de Díaz Geada é muito mais completo. Porque Vasallo constrói o seu conhecimento da Galiza com os testemunhos, quase únicos, das suas vizinhas e familiares de Chandrexa de Queixa6, em tanto que Díaz Geada realiza entrevistas por várias comarcas da província de Lugo, o que lhe permite complexizar o o olhar. 

Uma história pequena da Galiza rural estrutura-se em três capítulos ordenados cronologicamente. O I analisa as mudanças na imediata posguerra, nos inícios da ditadura, e põe o foco na repressão e na fome, na grandíssima fome que obrigou a implementar o controlo da agricultura por parte do novo regime ditatorial. O capítulo II abrange os anos após a II guerra mundial, em que a Espanha é admitida em organismos internacionais e as políticas aplicadas no agro são marcadas polos EEUU. São os anos de integração total no sistema capitalista, com as migrações massivas a outras regiões da Espanha e Europa, e aqueles em que se afunda na dicotomia atraso / progresso. O capítulo III recorre desde a crise dos combustíveis do ano 1973 até as negociações para a entrada na CEE. 

Díaz Geada não idealiza o rural: “Se há algo que ficou fortemente gravado na memória do pós-guerra como a fome foi a desigualdade que o atravessava. Quantas vezes volto às tuas palavras para expressar a desigualdade. Não havia nada além de piolhos e pulgas”(pág. 25). Põe atenção na dureza da vida para as raparigas: “Todas trabalhavam a terra desde pequenas. Davam comida aos porcos, se os houvesse. Faziam-lhes as batatas. Punham os bezerros a mamar. Aprendiam a mungir. Estravam as vacas. Iam à fonte. E iam buscar uma braçada de tojos para o burro. Iam buscar lenha. Iam arrancar o estrume. Embalavam os irmãos mais novos. A reprodução das famílias das classes populares, a própria vida, dependia do trabalho de todos os membros. Crianças, mulheres, homens. Tudo não dava para nada. Um irmão era sapateiro. Uma irmã era costureira, muito cuidadosa. Reconhecem o saber e o bom fazer. Todas pararam de ir à escola. Poderiam ter sido mais, dizem. Quando jovens, iam servir. Carreavam sacos de caulino do porto para o barco rumo à Alemanha. Trabalhavam na fábrica de cerámica. Na fábrica de conservas. Iam ao mercado vender trigo, favas, o que se podia. Para essa sobre-exploração do trabalho, não era necessária a escola. Nas formas que a compunham cabia o trabalho assalariado ou a jorna, a própria servidão,a reciprocidade desigual e a autoexploração” (pág. 29). Nesta enunciação de trabalhos podemos notar a diversificação das tarefas, as estratégias diversas usadas no marco das relações económicas e que o agro é um espaço dinâmico em que tanto podes ir à lenha ao monte como fazer horas na fábrica. É claro que o acesso aos trabalhos varia segundo as zonas e comarcas, mas a complexidade eis a está. O mundo do rural não existe em abstrato nem isolado do mundo urbano. Há relações, desiguais, complementárias, de dependência7, mas não é o rural um espaço incomunicado nem excêntrico. 

Outro elemento que deixa patente a obra de Díaz Geada é a do dinamismo do rural. Ao tender a olhada na evolução ao longo de (só) o século XX, percebemos como as mudanças que trouxeram consigo ditadura e capitalismo não foram recebidas em toda a parte da mesma maneira. É evidente que a expulsão das labregas e labregos dos labores agrários, a incorporação de novas maneiras, industriosas, de trabalho agropecuário, a especialização e a concentração dos produtos, vão ser elementos que façam dos nossos rurais um novo espaço totalmente diferente ao vivido décadas antes. Mas é interessante ver como em paralelo se aparecem as resistências, aprendidas de movimentos anteriores (pensemos na luita pola redenção dos foros): “A Galiza era território do comum. «Montes de vizinhos» ou «em mão comum», onde o uso está vinculado à vizinhança; e «montes de varas», «de vozes» ou «abertais», de uso ligado a determinadas casas. Já se arrastava há longo tempo a incompreensão do comum do ponto de vista liberal. Daí a individualização defensiva praticada por algumas comunidades. E antes de você nascer, dever ter sido em 1929 ou 1930, o «monte dos vizinhos» foi dividido. Havia sete pedaços desses dois bairros da paróquia. Eram quarenta e oito coparticipantes que participavam daquela pedaços de baldio. Cada pedaço foi dividido em quarenta e oito pedaços, mais dois, cinquenta, caso aparecesse mais alguém. De modo que havia sete pedaços e, em cada um, cinquenta parcelas8. Noutros sítios, diz, o Patrimonio Forestal apoderou-se do monte porque não fizeram a tempo o que tinham que fazer. E aí, quando chegaram, disseram «Alto! Aqui o Estado não tem nada, tudo foi adjudicado e está em contribuição» (págs. 19-20). Toda uma história de luitas por defender a própria dignidade que, sim, muitas vezes fracassavam, mas outras conseguiram vencer: “Então disse-lhe outra vizinha: «E porque é que nós, as mulheres de Regodela, não fazemos uma manifestação?» Uma avisa para este lado e outra, para o outro. E arrancámos, por ali adiante, pela estrada adiante, a falar umas com as outras. Todas as velhas. Encontramos os da Fenosa, os carros da Fenosa. Então vou eu e paro un dos carros. E disse-lhes eu: «Vamos lá ver, quem são os senhores?» E disse-me ele: «E quem é a senhora?» «Eu sou uma afetada pola nuclear»(.../…) Eram finais de 1974 e um grupo de mulheres marchava contra a instalação de uma central nuclear em Regodela (Jove, Lugo)” (Pág. 66). Sabemos todas que em Jove não há central nuclear. 

Não têm cabida estas resistências na obra de Vasallo. Ela revisa a história do despojamento do rural (que se deu, é bem verdade) sem fazer menção às resistências9. Este silenciamento é necessário para a configuração das populações rurais como vítimas, vítimas do capitalismo, vítimas da modernidade. Incomoda-me na leitura, porque leio a ruralidade, leio-me, revitimizada. Ao escolher este discurso, a autora assume que há um centro e há uma margem e analisa os processos de exclusão desse centro sem questionar nunca a sua suposta centralidade. 

Indico que Vasallo revisa a história do despojamento do rural e eis, para mim, outra eiva da sua leitura. Unifica todos os rurais europeus em um só, um único rural despojado por uma única máquina capitalista. Não há matizes na sua obra. É igual o campo galego que o andaluz que o napolitano que o inglês. Assume, penso que acriticamente, o conceito de España Vacía formulado desde a hegemonia castelhana. Isto é um problema sério. Como indiquei no início, a visibilidade mediática desta obra faz com que esteja a ser usada para nos ler às galegas, para lermo-nos as galegas. E o lente é absolutamente externo, alheio. Obvia a autora novamente trabalhos recentes de companheiras sobre esta questão10, a de assumir a identidade que outres construirem para nós (para submeter-nos) como a real e verdadeira. A uniformidade dos rurais, o tropo das labregas pobres e vítimas reforça a imagem que de nós tem a hegemonia estatal, a imagem que aprendemos de nós mesmas. 

As fórmulas de acesso à terra, as relações entre classes dominantes e subordinadas, as políticas dos estados, não podem reduzir-se a uma só. Vão provocar processos migratórios diversos e projetos migratórios diversos. Em uma obra recente, em que Manuel Gago compara os mundos escocês e galego, disse-nos: “Ao redor de dous millóns de persoas partiron tanto de Galicia como de Escocia entre os séculos XIX e XX. Houbo tamén unha diferenza notable: a emigración escocesa, nas súas diferentes fases foi provocada por decisións do Goberno británico, bem apoiando os grandes terratenentes no seu empeño de expulsar os campesiños das terras que tiñan alugadas, bem fomentando a emigración para os programas de colonización imperial ao longo do mundo. O caso galego foi xusto polo contrario: em gran medida os galegos marchaban polo desleixo do Goberno español en desatender Galicia e non fomentar condicións de crecemento económico. // Carentes de propiedades, os escoceses partían en gran medida para non volver. Eran labregos na procura de terra. Nos galegos sucedía ao contrario, xa que a maior parte deles eran propietarios ou fillos de propietarios: a emigración estaba orientada a facer fortuna, retornar e investir para facer prosperar a casa, a unidade económica básica da sociedade tradicional galega.11”

Esta diversidade desaparece da obra de Vasallo, a quem o processo de cercamento (enclosure) de terras inglês lhe serve para explicar-se a si própria o(s) sistema(s) de monte comunal na Galiza, como ela mesma admite: “Y entonces cuenta [o vizinho Alfredo] cómo sucedió essa proeza del sacar adelante a su hijo estando sola y siendo tan pobre em un pueblo precioso pero durísimo, y habla de su vaca en tierras comunales. Na Serra, dice, na Serra. He escuchado esta historia muchas veces, y la apunté en la libreta que llevo siempre conmigo, pero no entendí la importancia de esta frase hasta que leí cosas que me hicieron entender. Lo he publicado así en otro libro: «yo, como hija de la diáspora nacida em la cultura del progreso, como mutante, necesité de Linebaugh, de Federici, de Moreno-Caballud, de Berger, de Marx y de Haraday para entender lo trascendente de esta información»12” (Pág.78). 

Porque, para o caso galego, o de Vasallo, não é un conhecimento situado13. Acho que a autora tem uma ideia errónea do que isto significa: “Un hecho narrado por una sola persona es una narración a medias, pues es imposible separar la cosa del impacto que ha tenido la cosa en quien la describe. En la oralidad se van añadiendo capas y todo el mundo añade la suya propia, su propia tonalidad de la cosa. Es aquello de que cada cual cuenta la feria según le va. Es el conocimiento situado, que está resuelto em la oralidad. No es hablar solo de lo que sabes, es la inevitabilidad del hablar de ti” (Pag. 206). O conhecimento situado não consiste em falar da feira segundo che vaia nela, mas, sendo ciente da inevitabilidade de falar de ti mesma, deixar claro desde o início do discurso desde onde falas, qual a tua posição no sistema, de que privilégios gozas. Vasallo fala desde a raiva txarnega14, fala desde a galeguidade15, às vezes, fala desde a ruralidade16, às vezes também. Sempre no lugar das vítimas17. Ás vezes, também, apropriando-se do lugar das subalternas. Leio com muito interesse a experiência de Vasallo enquanto txarnega, porque não é a minha, porque quero conhecê-la e percebê-la, desde a minha posição de pessoa com raízes, com lugar, porém incomoda-me lê-la ocupando a voz da sua mãe e doutras pessoas migrantes de primeira geração, ou a das galegas rurais que recebemos o filme As Bestas18. O espaço de enunciação próprio devém, muitas vezes, em espaço de apropriação.

E volto àquela cita inicial que me deixou pampa: 

Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.

Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.

Sem entrar em disquisições filológicas, fico estupefacta com a última frase: “Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas”19. Assim, com rotundidade. Desqualifica uma obra porque a autora escolhe um padrão linguístico diferente, casualmente aquele que acolhe a palavra queixalão (e não queixalán) da sua oralidade. Desbota-a mediada por uma frase: “Nós non entendemos ese galego, me dicen.” As pessoas sensíveis com a questão da língua, sabemos ler nessa frase toda a história negra da língua galega, toda a carga de auto-ódio aprendido. Sabemos que provocou os usos diglóssicos e a não alfabetização em galego de grande parte da povoação20. Porém, daí Vasallo constrói um discurso vitimizador, e epopeico ao tempo, da sua vizinhança, afirmando que o livro de Díaz Geada mesmo está escrito “contra ela”. Contra. Porque escreve com nh. Vasallo afirma isto em perfeito castelhano. Porém, em nenhum momento da escrita reflexiona sobre o feito de ela estar a escrever em uma língua que não é a das suas vizinhas. Em uma língua que elas mesmas lhe contam que lhes é alheia e que aprenderam na emigração. Porque o seu conhecimento não é situado. Porque a sua olhada é superficial. E essencialista21.

“He apendido, sin embargo, a desconfiar de mi mirada. Estoy observando un papiro egipcio em el Metropolitan Museum de Nueva York y veo un arado como los nuestros, como los que ya no usamos pero que aún quedan tirados por las cuadras, el arado que recuerdo haber visto trabajar, en activo aún. Nós pasamos do arado romano ao tractor en dez anos, se repite en Queixa. Es un salto temporal de miles de años que hemos presenciado, del que hemos formado parte, un evento histórico más importante que cualquier guerra o cualquier copa de fútbol. Mando la foto emocionada a mis primas: «Los egipcios ya usaban nuestro arado??!!», y ellas me contestan riendo: «Se no es nuestro arado, ¿no ves que tiene un palo que los nuestros no tienen?»”(Pág. 269).

Também eu aprendim a desconfiar da olhada de Vasallo22. Há mais complexidade nas 73 páginas escritas por Alba Díaz Geada que nas 296 de La fosa abierta. 


Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026.

Díaz Geada, Alba: Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982).

Através Editora, 2024.


1Editorial Anagrama, 2026.

2A autora cita pola edição de 1981, mas a edição original da obra de Beiras, fundamental no pensamento contemporâneo da Galiza, é do ano 1973. Porém, desde essa data, foram muitas as achegas no campo dos estudos da história agrária, muito mais específicos que o trabalho citado de Beiras e centrados muitos deles, na agência feminina. Pensava no labor do grupo HISTAGRA, por exemplo. 

3Nos últimos anos fora publicadas com acessibilidade para o público não especializado, várias obras que tratam a história agrária na Galiza, em geral, e a questão dos montes em mão comum, em particular. Penso na figura de Ana Cabana e algumas das suas monografias: La derrota de lo épico, Haberlas Haylas. Campesinas en la historia de España del siglo XX; penso na obra colectiva Árbores que non arden. As mulleres na prevención de incendios forestais, da antiga Catroventos Editora (2019), penso na obra de autoría colectiva Arredor do rural. Comunidade de saberes e innovación socio-educativa, Toxosoutos 2023, penso no Cando éramos sostibles, de Lourenzo, Bestilleiro e Quiroga, editado pola Fundação RIA em 2023, penso no Terra a nossa! Discurso e identidade agrária na Galiza moderna (1875 – 1936), do Antom Santos, em Laiovento. 

4Através Editora 2024

5“… Edson es traductor del italiano y su madre se ha puesto a trabajar también, animada por él. Le pregunto si puedo tomar una foto de la foto y si puedo mostrarla junto con el resto para mis movidas.” (pág. 192), ou “Al cabo de unos meses, cuando voy a incorporar esa historia a este libro escribo al grupo para preguntar quién me la contó, confirmar si le parece bien que la publique y para comprobar con qué nombre quiere aparecer en el relato” (pág. 235).

6Também para isto podia contar com bibliografia galega, pois eis está o Elas, as emigrantes. Mulheres da Terra de Soneira na Suíça. Através Editora, 2019.

7Vem-me à cabeça essa Estrada paralisada polo boicot das labregas em uma greve em protesto polos impostos para a construção da Casa Consistorial, ao ponto de desabastecer a vila de produtos alimentares básicos. 

8Foi este o sistema defensivo utilizado na minha aldeia. O monte foi repartido entre as casas no modo “monte de varas”; porém o Concelho apropriou-se das terras em 1961 e não foi até 2016 que a vizinhança recuperou a titularidade do monte:https://www.farodevigo.es/pontevedra/2016/04/08/sentencia-da-titularidad-vecinos-arcos-16650765.html

9 Isto descontextualiza, deixa em ermo, as resistências atuais que sim nomeia (a luita contra a ocupação de terras para energia eólica, por exemplo). Por que agora há resistências (havendo menos população) e antes não?

10Penso no Galiza, um povo sentimental?, da Helena Miguélez-Carballeira, na Através Editora ou no Um país a la gallega. Galiza no NO-DOfranquista, da Beatriz Busto, também na Através Editora -e juro que não é intencionado citar bibliografia reintegracionista-. Penso nos artigos da revista Clara Corbelle.

11Manuel Gago: Ata que os mares sequen. Unha Escocia en clave galega. Morgante Ensaio 2026. 

12Eu criei-me aprendendo que o minfúndio era o Mal. O rural estava atrassado porque as terras estavam partidas em cachos tam pequenos que nem o trator entrava. Ao carão da escola o monte estava dividido em tiras de meio metro. Não podia ser ampliado o pátio porque era um cristo expropriar tanta terra tão dividida. Muita papelada e pouco rendimento. Foi com Ana Cabana que aprendim que isso não era atrasso. Era defesa inteligente contra a agressão alheia. De Federici ou Berger aprendim outras cousas. 

13Na recensão da obra De por qué es necesario un feminismo descolonial, Icaria Editorial, 2022, de Yunderkys Espinosa Miñoso explicamos este conceito: “Devemos saber situar o nosso conhecimento, com as suas limitações, e renunciar a fazê-lo universal. De aí a sua segunda proposta: no lugar de procurar essencialismos etiquetadores que uniriam na sua opressão de género todas as mulheres do mundo (tarefa impossível), centremo-nos em explicar como a matriz de dominação / opressão atua nas nossas sociedades, culturas, modelos civilizacionais.” https://www.asega-critica.gal/2026/01/a-viagem-de-desandarmos-por-susana-s.html

14“Cuando nos afeáis las preguntas, cuando os quejáis porque abrimos la boca, cuando acudís orgullosas a esas magníficas cajas de resonancia que son las tertulias subvencionadas y dónde solo estáis las dóciles, las mansas, las inofensivas, graznando frases del PSC y de Pujol, ¡nada menos!, mirad si sois dóciles en vuestro graznar, vociferando que catalá és qui viu i treballa a Catalunya como si fuese un regalo ser lo vuestro, lo envenenado…” (pág. 199).

15“Le cuento: [o filme] se titula Las bestias por nosotras, por mi madre y por mí, concretamente. No, no lo dice así, pone de excusa una fiesta popular que sucede a cientos de kilómetros de nosotras en un contexto donde cada kilómetro es un mundo. Tal vez no supo usted que cuando Tom Cruise rodó unos sanfermines en Sevilla se montó la de dios. Con esto no se ha montado mucho, porque no le importa mucho a nadie más que a un par de piradas en Galicia (ni siquiera a todo el mundo) y a nadie más fuera de allí. Las campesinas ni hacen cine ni van a verlo, ni dan premios, ni escriben en los periódicos ni financian nada, así que no les importan a nadie” (pág 290).

16“Cuando llegamos a las ciudades, nos convertimos en personas analfabetas, nosotras que veníamos con nuestra cultura oral, con nuestros usos, con nuestros conocimientos, con todo lo que conforma un ser humano y una comunidad, que de repente no servían para nada en ese nuevo contexto. Nada de lo que sabíamos servía de nada o, si servía, estaba prohibido o era inmoral o sospechoso: juntarse en la calle con las vecinas, apoyarse comunitariamente, hacer trueque, trapichear, reciclar.” (pág. 100)

17A sua posição como autora de Anagrama, como inteletual com projeção estatal, etc. nunca é objeto de reflexão.

18Por certo, sei de muitas labregas que vão ao cinema.

19Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026. Pág. 137. sublinhado e itálicos da minha responsabilidade.

20Eu faço parte das primeiras crianças que aprenderam a ler e escrever galego no primário.

21O adjetivo “ancestral” utilizado neste parágrafo traz a nós uma imagem estática da língua, do lugar, das pessoas, que sempre foram, são e serão assim. 

22A superficialidade do olhar que percebo naquilo que eu conheço (neste caso o rural galego) funciona como prevenção perante o resto da narrativa, fazendo-me duvidar da mesma. Ao tempo, a ocultação da autoria de Diaz Geada faz-me pensar em quê outras autoras foram ocultadas, silenciadas, nesta obra.