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Amosando publicacións coa etiqueta ensaio. Amosar todas as publicacións
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sábado, 17 de xaneiro de 2026

Fazermos as perguntas ao caso por Susana S. Arins





Acho que foi o ano passado. Participei em um roteiro pola cidade das mulheres de Encarna Otero Cepeda, quer dizer, pola Compostela das mulheres. Fizemos parada diante do antigo Hotel Suízo e Encarna Otero contou que foi aí onde se instalou Ruth Matilda Anderson nas suas viagens pola Galiza, e mostrou as fotografias do quarto do hotel virado laboratório de revelado e mostrou também a ausência de recordo público da estadia da Anderson e reclamou a tradução da sua obra. Foi aí que soubem da existência do Gallegan Provinces of Spain. Pontevedra and La Coruña da autora norte-americana. E fiquei pampa com o feito de não existir tradução da obra ao galego, mesmo havendo hoje em dia no nosso sistema editoras especializadas. 


Porém, a minha surpresa ficou aí, naquela tarde, naquele roteiro, prendida no ar. 

A mesma surpresa viveu, no seu outro contexto pessoal, Alba Rodríguez Saavedra. Só que ela não deixou voar o assombro, bolha a flutuar até se perder, é mais, fez desse assombro curiosidade e da curiosidade a pergunta certa: por que o ensaio de Ruth Matilda Anderson continua ausente do repertório bibliográfico na nossa língua? (pág. 21). E a esta questão primeira acrescentou um outra que lhe prói ainda mais: é essa ausência intencionada? Por quê?

Todo o ensaio de Rodríguez Saavedra, Ruth Matilda Anderson. Tradutora das marxes1 é a
narrativa da procura de uma(s) resposta(s) a estas perguntas. Nos capítulos que lemos acompanhamos as pesquisas da autora para confirmar hipóteses ou desmenti-las, acompanhamos também as suas dúvidas e somos testemunhas das suas retificações, pois não sempre o caminho escolhido é o mais adequado. 

E este acompanhar à ensaísta leva-nos a acompanhar, há um século, a viagem de Anderson pola Galiza: atendemos aos preparativos, à organização da equipagem, à viagem transatlântica, à instalação por dous anos nas nossas terras; sentamos com ela a estudar galego e a laiar-se da luz difícil deste país; somos testemunhas das suas conversas com as mulheres que fotografa e das que recolhe a voz. Toda a leitura deste livro é uma dupla viagem: pola impressionante atividade de uma intelectual do século XX e polo processo de silenciamento da atividade de uma inteletual do século XX evidenciado por uma intelectual do XXI.


Começa Rodríguez Saavedra por analisar o ensaio de Anderson para calibrar-lhe o interesse: a americana explica o mundo rural galego para as leitoras do seu país, colocando o foco do seu olhar nas mulheres (“En Galicia por cada cinco mulleres había un home”, pág. 43) e nas crianças. Dá conta dos muitos trabalhos que estas realizam e com o que mantêm a economia local. Para dar apoio às suas observações recorre à tradução de textos da literatura galega, fazendo unha escolha clara: protagonizam as suas referências Rosalía de Castro e Emilia Pardo Bazán. Elas. Não foi Anderson a primeira tradutora ao inglês de Rosalia de Castro (corrige-se nisto a autora) mas sim a que mais textos dela traduziu por muitos anos. Só por isto seria importante o seu ensaio. Porém, há outro elemento que o faz importante: Anderson atende, escoita e recolhe a voz das mulheres anónimas que retrata. Todos estes elementos, que fazem doGallegan Provinces of Spain. Pontevedra and La Coruña uma obra de importância que merece estar traduzida são, a olhos de Rodríguez Saavedra, os mesmos que provocaram a sua invisibilização e silenciamento. Porque colidiam com os interesses da elite intelectual galega da altura, que não via mulheres empobrecidas na sua paisagem quotidiana. 

As traduções de Anderson dos poemas rosalianos não aparecem nos registos dos anos posteriores. Antes de decidir que esta elisão é intencionada, Rodríguez Saavedra desbota todas as possibilidades: desconhecimento da autora por parte das elites galegas (não), falta de acesso aos documentos da Hispanic Society (não), ausência de conhecimentos de inglês (não). Só resta uma possibilidade: não a citaram porque não quiseram. 

Faz o mesmo com a possível impossibilidade de uma tradução da obra ao galego. Há doutras autoras estrangeiras (Annette M.B. Meakin, Catherine Gasquoine), não há problema de direitos de autoria ou de acesso, há editoras. Não traduziram porque não quiseram. 

A partir da exposição fotográfica de 2008 Unha mirada de antano, Ruth Matilda Anderson passou a ser conhecida por um amplo público. Mesmo assim continua sem ser traduzida. Para consegui-lo foram utilizadas todas as estratégias de ocultação e minusvaloração das outras: a redução da importância da sua obra ou do seu trabalho (foi só fotógrafa), colocá-la em situação de dependência de um homem (o seu pai), outorgando a ele a parte valorosa do trabalho, deturpando a sua mensagem, etc. 

A conclusão da pesquisadora é que o feito de Ruth Matilda Anderson não estar traduzida ao galego não é uma casualidade, mas uma ação intencionada por ser uma autora que choca com os interesses masculinista-universais das elites, ao retratar “un país de mulleres e infancias invisibles a ollos da intelectualidade galega masculina que xunta a elas vivía” (pág. 24), e a quem mesmo hoje põe em evidência.

E depois de ler, somos nosoutras quem também dizemos:  queremos o  Gallegan Provinces of Spain. Pontevedra and La Coruña de Ruth Matilda Anderson traduzido ao galego!!

1Laiovento, 2025.

mércores, 7 de xaneiro de 2026

A viagem de desandarmos por Susana S. Arins


Leio De por qué es necesario un feminismo descolonial1 e saio feliz da leitura e com vontades de re-escrever a história toda da literatura galega, da língua galega, da educação na Galiza, da sociedade galega, das tradições galegas, de todo quanto dá forma à minha comunidade desde esse olhar situado que nos aprende Yunderkys Espinosa Miñoso. Sei que andam mais companheiras no trabalho de desandar2 , mas é tão potente a obra, apela com tanta intensidade à importância de pormos mãos à obra que bem quiser contar com o vagar da reflexão e o pensamento que precisa essa viagem. 

A obra é uma compilação de artigos e palestras da autora, revisadas para a publicação, acompanhada de uma entrevista final de Katia Sepúlveda. Acompanhamos, desta maneira, o processo de construção por parte da autora da sua linha de pensamento, com os seus atrancos e saltos e revisões e retificações e ratificações. Permite-nos Espinosa, caminhar com ela a sua viagem intelectual, sendo ademais, a entrevista final, como um resumo e aclaração dos elementos essenciais da sua teoria. No caminho para a revisar criticamente outras teorias feministas, incorporando ideias ou conceitos das mesmas à sua mochila. Espinosa Miñoso é filósofa, pensadora. E acompanhamos no processo de elaborar uma teoria feminista de explicação e interpretação do mundo. Isto faz com que a abstração e complexidade dos capítulos varie. Há trechos mais sisudos e partes mais acessíveis, porém a leitura global resulta clarificadora. 

Espinosa é dominicana, racializada, lésbica. Aprendeu-se outra no feminismo porém não foi até se instalar na Argentina para estudar que se descobriu “uma outra das outras”: as que aguardava fossem as suas companheiras na luita feminista, não aceitavam a sua procedência caribenha, pobre, escura; não tinham interesse em escuitar a sua voz. Esta incomodidade contínua no movimento feminista, na academia feminista, fez com que sempre se situasse nos feminismos contra-hegemônicos e que a sua ação de pensamento e de ativismo se centrasse na compreensão das origens dessa incomodidade: “Experimentar dentro del activismo feminista el eurocentrismo, la violencia simbólica y epistémica, el racismo, la meritocracia y outras formas de manejo y traspaso de los lugares de prestigio y de poder, de uso de la palabra y la representación, ha sido para muchas de nosotras la herida que nos marcó y nos impulsó a la búsqueda de explicaciones que nos permitieran comprender y dar cuenta de lo vivido” (Pág. 98).

O mais interessante da sua metodologia de análise é o entrelaçamento absoluto da experiência, do ativismo e do pensamento. A autora estuda e analisa as ações, campanhas e reivindicações dos feminismos latino-americanos para, a partir de aí, elaborar as suas teorias, que corrobora ou modifica revisando-as de volta na praxe. 


Gosto desse “un” do título. Leio-o como numeral e percebo com ele a impossiblidade de existir o feminismo, os feminismos, se não são descoloniais, se não sacodem de si todas as opressões enjertadas na de género. 

Espinosa defende o feminismo descolonial como aquele que faz uma revisão da teoria e da proposta política do feminismo, posto que considera que o mesmo incorpora um nesgo moderno, ocidental, branco e burguês (pág. 266). Considera que as bases em que assenta o feminismo devem ser desmontadas e revisadas por essa origem tão marcada que deixa fora, automaticamente, à maioria das mulheres do mundo. Para isto utiliza, precisamente, uma das achegas do próprio feminismo, chegada a nós da mão de autoras como Gayatri Spivak ou Chandra T. Mohanty: este defendeu, e demonstrou, que explicar o mundo e os acontecimentos desde o ponto de vista de quem só ocupa o lugar do privilégio proporciona um entendimento parcial e distorcido que pode ser saldado graças ao olhar e à experiência dupla de quem ocupa um lugar subalterno3. É dizer, a olhada e experiência das mulheres, vozes subalternas, completa e revisa a interpretação do mundo até agora unicamente masculina. Porém, segundo isto, a olhada do feminismo branco / mestiço é incompleta, iluminando só uma parte da trama, e só virará inteira, universal, se incorpora olhadas e experiências de mulheres subalternas, no seu caso, a voz de uma mulher proveniente de um povo desumanizado, submetido à servidão e à negação de si mesmo.

Desde aí, Espinosa4 , seguindo o trabalho de María Lugones, faz uma crítica da razão feminista eurocentrada: considera que há uma razão feminista universal, uma listagem de princípios que (quase) todos os feminismos aceitaram acriticamente que se caracterizam polo seu compromisso com a modernidade. A modernidade europeia assenta em três eixos: a construção linear e progressiva da história, a divisão natureza – cultura e a divisão colonial moderno – não moderno. O feminismo construiu-se com estes fios: a divisão sexo-género (natureza-cultura), a ideia de que as mulheres sempre estivemos pior e que avançamos para a libertação graças ao feminismo, ou a ideia de que há sociedades extra-europeias atrasadas e inferiores em tanto que a europeia é o modelo a seguir pola sua maior evolução como espécie. Porém, esta modernidade nasce de e justifica a opressão: é racista, euro-centrada, capitalista, imperialista e colonial. 

A autora fala da colonialidade da razão feminista para explicar que os feminismos não europeus em geral, da América Latina em particular, assumiram esta razão aparentemente universal como própria, quando o que faz é expulsá-los do campo do saber e do ser. Para isso, as feministas do Sul precisam de construir uma Outra da Outra que elas constituem. Essa Outra será conformada por todos os corpos abjetos: pretas, índias, pobres, lésbicas, ignorantes. Nomeia isto a autora como violência epistêmica: “Los feminismos hegemónicos de un lado y otro del Atlántico han contribuido en el proyecto colonial de encriptar a la «mujer del tercer mundo». Encriptamiento que se produce entre su expulsión histórica de las narrativas de conformación del ideal de la nación blanca occidental y la necesidad de su existencia como el (verdadero) Otro. Si las feministas del norte han necesitado de la figura de la «mujer del tercer mundo», las feministas (blancas / mestizas, burguesas) del sur han necesitado y han trabajado activamente para construir su Otra local para poder integrarse em las narrativas criollas de producción europeizante de los Estado-nación latinoamericanos”5.

De aqui chegamos ao conceito de matriz de opressão / dominação, no que a autora segue a Patricia Hill Collins. Considera que o feminismo hegemónico (e não só) trabalhou a opressão baseada na ideia de diferença sexual de forma separada e independente do que considera outras formas de opressão / dominação6. Porém, o feminismo descolonial entende que não se pode compartimentar a opressão já que “el sexo binario (y la relación heterosexual que alimenta), la raza y la clase se co-constituyen complejamente dentro de una matriz de opresión / dominación producida dentro del programa moderno-colonial (Lugones 2012). El desafío consiste, pues, en llevar hasta sus últimas consecuencias la idea de que la lucha contra el (hetero)patriarcado moderno no puede hacerse sino desde una apuesta antirracista, descolonial, anticapitalista7; y viceversa: que es imposible, como vienen señalando las compañeras feministas de Abya Yala, que el proceso de descolonización se lleve a cabo sin un atentado contra el patriarcado capitalista, tanto como es imposible acabar con el racismo sin luchar contra el régimen de género heterosexualista y contra el capitalismo, como lo vienen sosteniendo desde los setenta las feministas y lesbianas negras y de color en los Estados Unidos, y como lo venimos sosteniendo el movimiento de mujeres negras y el feminismo antirracista em América Latina”8.

As opressões são inseparáveis umas das outras e quem está na base não somos “as mulheres”, assim, em universal. Na base da estrutura de dominação em sociedades racializadas estão sempre comunidades negras ou indígenas e são, por tanto, as histórias, memórias, narrativas e experiências das mulheres negras e indígenas, quem melhor nos podem ajudar a compreender os mecanismos da dominação. 

E qual a proposta de Yunderkis Espinosa? 

O primeiro: interpela-nos às “feministas blancas que han accedido a la formación universitaria gracias a sus privilegios de clase y raza (hooks, 2004)” a repensar os nossos privilégios e escuitar a voz das nossas subalternas. Porque não é verdade que a subalterna não tenha voz, tem e usa-a, mas é possível que não queiramos escuitá-la, por fazer tremer com ela os andaimes em que sustentamos o nosso feminismo. 

Devemos saber situar o nosso conhecimento, com as suas limitações, e renunciar a fazê-lo universal. De aí a sua segunda proposta: no lugar de procurar essencialismos etiquetadores que uniriam na sua opressão de género todas as mulheres do mundo (tarefa impossível), centremo-nos em explicar como a matriz de dominação / opressão atua nas nossas sociedades, culturas, modelos civilizacionais. Aí as galegas temos muito a dizer, pois a nossa situação relacional no mundo é ambígua: somos discriminadas em relação com o nosso espaço social / político / cultural imediato, a Espanha, mas não deixamos de participar da dominação em relação com as nossas outras do Sul. Esta ambiguidade, este nosso dançar na linha entre vítimas e opressoras faz com que podamos elaborar linhas de pensamento, reflexão e intervenção complexas e produtivas9.

A terceira proposta: desandar, renunciar à essa ideia de progresso dirigido ao futuro, acolher-nos a outros tempos e outros ciclos: recuperar a memória. Voltar à casa, é dizer, desandar o caminho da fugida ao moderno e acolher-nos à memória das nossas comunidades, das nossas tradições. Renunciar ao individualismo capitalista e construir comunidade, rede, coletividade. Esquecer essa ideia de progresso utópico, com a frustração que produz (passam os anos e a mesma misoginia, as mesmas mortes por violência machista, as mesmas pelejas) e acolher-nos à ideia do ciclo, de tarefa contínua e ligada com outras: o mundo agrário como referência: a sementeira, a sacha, a poda, a rega, labores combinados sem os quais o fruito não abrolha. 

Espinosa Miñoso acolhe-se a um mito fundacional dominicano: a ciguapa é uma personagem feminina que se aparece no monte quando tu vás ou vens do trabalho na leira ou quando vás de um lugar a outro. A ciguapa tem os pés ao invés, de adiante para atrás; por isso, ao caminhar para adiante, também caminha para atrás. Passado e futuro fundem-se no caminhar. 

E eu penso que um pouco ciguapas somos n’A Sega, que participamos de uma rede de encontros e ativismos e que chegamos a obras como esta porque as companheiras da Casa Aluandê e da Lila de Lilith recomendaram a sua leitura, e puseram ao nosso dispor, na campanha 12 comércios 12 sensibilidades. 

E assim desandamos, nesta nossa viagem feminista, da mão das companheiras migrantes. 



1Espinosa Miñoso; Yunderkys: De por qué es necesario un feminismo descolonial, Icaria Editorial, 2022.

2Como María Reimóndez no seu A casa do amo (Xerais, 2024) de que aqui demos nota.

3Pág. 126

4Adoramos que a casualidade lhe desse um apelido de ressonâncias filosóficas europeias.

5Págs. 68-69.

6Pág. 166.

7Negrinha da minha responsabilidade.

8Pág. 166.

9Há muito trabalho feito na Galiza neste sentido: a vinculação das labregas galegas com o movimento internacional de La Vía Campesina, por exemplo, mostra unha escolha polas redes alternativas ao poder, mas não pode ocultar a vinculação das nossas grandes empresas com o expólio doutros territórios do mundo.

luns, 7 de xullo de 2025

Eli Ríos estivo lendo Lo que quede de Irantzu Varela

Lo que quede é unha obra a camiño entre o ensaio, a autobiografía, o relato breve e/ou un proxecto de construción dun mundo mellor.

Irantzu Varela tece e destece toda unha serie de reflexións sobre o machismo, a violencia de xénero, a diversidade,…, que constrúen unha fotografía nítida da sociedade actual, pero non é Lo que quede unha exposición para observala sen movernos, non. A autora vainos deixar no aire unha serie de propostas para intervir, para camiñar cara un espazo en que nos sintamos mellor e, sobre todo, para vivir sabéndonos acompañadas. Non é un relato profético nin de solucións máxicas, senón unha experiencia compartida que nos achega a unha maneira de situarnos nas zonas seguras e nas do querer, nas de moito querer(nos)

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venres, 14 de febreiro de 2025

Antía Marante recomenda...

Un ensaio que estoupa en múltiples voces. Un espello onde recoñecernos, tamén unha rede, unhas tesoiras ou dinamita.


Las hijas horribles axúdanos a tender pontes interxeracionais para iniciarmos un diálogo coas nais desde o coñemento e a empatía.

Blanca Lacasa ofrece un espazo onde poder poñerlle nome a aquilo que renxe no marco das relacións con determinados prototipos de nais, vítimas dun contexto abafante. Por iso, esta é unha obra que encerra a catarse colectiva dunha xeración de fillas que enfronta o retrato das súas nais para localizar fendas e entendelas, para poñer límites a certas esixencias ou para localizar feridas e, quizais, comezar a sandalas.


A existencia deste libro anima a imaxinar un futuro en loita contra o silencio e a rachar a tesoirazos os roles asfixiantes que o patriarcado escolleu para vestir as mulleres que nos precederon. Teas que aínda hoxe teiman por envolvernos.


Grazas a títulos coma este sentímonos parte dunha rede e erguémonos valentes e acompañadas coa vontade de revisármonos, dinamitando o pasado dalgún xeito para percorrer máis libres e coñecedoras o camiño que nos queda.


Lacasa Carralón, Blanca, Las hijas horribles,  Libros del K.O., 2023

domingo, 1 de setembro de 2024

Rimas assonantes só nos pares por Susana S. Arins


Grande respeito tive sempre por Yolanda Castaño. Admiro-lhe a capacidade de construir o seu ofício1: poeta. Porque é certo que o espaço que ela ocupa na literatura galega [quase] não existia quando chegou. Uma trajetória de mais de trinta anos a ligar trabalho poético e dedicação laboral. Sempre a considerei entre aquelas que mais defenderam a dignidade das poetas enquanto autoras e sempre senti nela uma mão tendida às que chegamos atrás. Por isso era grande o meu interesse em ler-lhe o ensaio Economía e Poesía. Rimas internas. 

Nele parte dessa sua experiência de mais de trinta anos para reflexionar sobre o processo de profissionalização do ofício poético e dos danos e perdas que isso traz consigo. A própria autora adverte da complexidade do assunto e convida a superar “rancias dicotomías que reducen a realidade” (pág. 70). Porém, li e o que percebi foi isso: uma falsa dicotomia desenvolvida durante toda a narrativa deixando de banda parte das questões que outorgam complexidade ao tema. 

Admito, primeiro de todo, que me senti diretamente interpelada pola autora: faço parte dessas poetas com outra profissão e que ganham mais de dous mil euros ao mês (pág. 91). Sou consciente desse meu privilégio económico: nesta etapa da minha vida a preocupação por contar com dinheiros para pagar vivenda, internet, livros, transporte ou alimentos não me ocupa a mente, que podo libertar para ler, mesmo ensaios, e escrever, mesmo recensões. Se podo redigir este texto é porque tenho um bom trabalho que me permite umas férias em que relaxar pensando em economia e rimas. Não é o caso de tantas companheiras. Desde aqui escrevo. Vaia por diante.

A falsa dicotomia que percebi na leitura foi a de confrontar por uma banda poetas que nos desenvolvemos profissionalmente noutro espaço e poetas dedicadas em exclusivo à escrita, vivendo dela. Dentro dessa dicotomia, sem atender à variedade de vicissitudes que podemos encontrar nela (não é a mesma a minha situação, com trabalho estável por conta alheia, que a de María Reimóndez, por exemplo, tradutora e intérprete por conta própria), indica-se que o primeiro grupo, assim como em bloco, não exige o pagamento do seu trabalho poético fronte ao segundo, que precisa desse pagamento para viver. Não parece haver aí diversidade, ou arre ou xó. Não há, parece, autoras que reivindiquem a dignidade do ofício ainda que contem com outro sustento. Ademais, parece estar ela sozinha na luita. E não é assim. Como indiquei no início, muitas aprendemos do trabalho dignificador de Yolanda Castaño (et alii.), e pode que há quinze anos não lhe déssemos importância ao feito de cobrar ou não um recital, um texto para uma revista, mas hoje em dia temos claro que isso deve ser assim. Neste sentido a sensação na leitura é que na experiência da autora nem passou o tempo nem houve evolução no sistema literário. Os exemplos e anedotas que proporciona para justificar as suas argumentações estão quase sempre desligados de contexto (quando e onde se deram) polo que tanto podem ter acontecido em 1995 como em 2023. Mas na realidade sim houve mudanças. A autora, por exemplo, cita a sua participação em um festival «“popular”, “solidario”, “militante”, “divertido”, “reivindicativo” (.../…) que “teima em apelidarse “de poesía”» (pág. 47). Deduzo que se refere ao Festival de Poesia do Condado. Narra a sua experiência negativa nesse festival com as diferenças entre as músicas, bem tratadas profissionalmente, e a poesia, não remunerada e relegada a tempos mortos. Procuro na rede e vejo que a sua participação foi em 2002. Anos mais tarde tocou-me a vez, recém chegada ao mundo poético. Eu lembro ter cobrado pola minha intervenção. Imagino que graças ao trabalho feito por poetas que antes foram. O mesmo acontece com as editoras. Todas, insisto, todas as minhas editoras, fora a da primeira obra, pagam pontualmente direitos de autoria e estabeleceram comigo relações contratuais dignas. Outra vez graças ao trabalho feito por poetas que antes foram. Acho que todos os convites que tive para eventos poéticos ou júris de prémios nos últimos anos traziam consigo a remuneração da participação. Porém, se atendemos ao ensaio Economía e Poesía. Rimas internas, nada mudou desde esse 2002. Nesse sentido o livro parece-me antigo, necessário há quinze anos, quando eu começava na escrita, extemporâneo agora.

No ensaio adjudicasse-nos às poetas não professionalizadas uma conceção da poesia mitificada, baseada na inspiração e colocada fora do espaço e do tempo histórico (pág. 45). Apõe-se-nos como razão para nos refugiar2 noutras profissões a consideração da poesia como uma arte que não pode contaminar o bilhete de banco, o cheque, a tarifa marcada. Umas poetas boémias e inocentes que acreditam na pureza do verso e a virgindade da arte. Acho que não é o caso de quase nenhuma de nosoutras3. É mais, para muitas de nós, o feito de contarmos com outra profissão tem que ver com o contexto histórico, social e político em que vivemos. Coladas absolutamente à realidade, nem mais nem menos. O contexto ausente na obra de Yolanda Castaño. 

Decidi fazer tentativa de ser poeta e publicar quando já tinha estabilidade económica. Decidi fazer tentativa de ser poeta e publicar porque tinha estabilidade económica. Ou isso ou renunciar à minha liberdade criativa. Confesso: sou reintegracionista. Podo viver da escrita usando nh’s? Tenho claro que não. Sou realista. A maioria dos prémios literários que ganhou Yolanda Castaño (com os consequentes ingressos pecuniários) estão vedados a autoras coma mim. Uma fonte de ingressos possível menos. A rede de bibliotecas públicas não compra os meus livros porque seique não escrevo em galego. Menos acessibilidade das leitoras à minha obra e menos possibilidade de eventos em que participar. As editoras com mais presença no mercado editorial galego não publicam as minhas obras. Tenho obra infantil inédita, porque às crianças pode rebentar-lhes o cérebro se leem um ç. Ter outro trabalho é a única maneira de eu manter as minhas ideias e publicar. É uma escolha. Consciente. Em absoluto romantizada. 

Ainda mais: sou escritora post-prestige. Vivi o movimento Nunca Mais desde a base do associacionismo, não como poeta. Porém fui testemunha do tratamento institucional recebido polas artistas diretamente implicadas na sua direção: a censura e o ostracismo. Falam algumas das protagonistas no documentário Suso. Fóra de lugar. Eu decidi ser poeta porque tinha outro trabalho e era essa a maneira de exercer a minha escrita em liberdade, sem depender de censuras institucionais ou políticas. Poder posicionar-me com defende à galega, contra o feche do diario cultural ou contra Altri sem temer polos dinheiros para pagar vivenda, internet, livros, transporte ou alimentos. É uma escolha. Consciente. Em absoluto romantizada. 

Porque uma das grandes ausências no ensaio de Castaño é a política. A política de partidos. O governo. A Conselharia de Cultura. Praticamente até a página 110 o livro desenvolve a ideia dicotómica de que somos as autoras com outra dedicação laboral e as associações / instituições promotoras de atividades as que pomos obstáculos à profissionalização das poetas, umas por não cobrar, outras por não pagar. É nessa página que se oferece uma pista sobre um elemento básico, porém não se desenvolve: «Dende finais dos noventa ata arredor do ano 2007, o crecemento económico alíase cun paulatino desenvolvemento das industrias culturais e do lecer, cunha incipiente ilusión de normalidade na nosa língua (e cultura) e polas -máis proclives à mesma- políticas do fugaz bipartito» (pág 114. itálicos da minha responsabilidade). Indica a autora que foi nessa época em que maior empreendimento se deu entre as poetas para procurar um caminho laboral de seu. As políticas dos governos facilitam ou bloqueiam as iniciativas sociais, culturais. Os governos guiam / cegam a cidadania4. E não há reflexão sobre isto. Indica a autora que as novas gerações estão “liberadas de poses románticas” mas que “nas opcións de vida, o pragmantismo rendido a unha evidencia: de novo intentar o funcionariado volve revelarse como a máis recomendable e segura das alternativas” (pág 115, itálicos da minha responsabilidade). Porém, não considera como possível evidência contarmos com um governo hostil à cultura galega, que censura autoras e coletivos, que gere a res publica como uma leira privada submetida à arbitrariedade caciquil. E não considera isso razão para algumas escolhermos outros caminhos na escrita. Parece assim arremessar pedras contra as outras davidas, deixando o enorme goliat sentado na sua cadeira de braços, tranquilo e invisível. 

Outro elemento que me ranxe na escrita é a ausência de companheiras. Aparecemos citadas, em feminino, de maneira coletiva ou anonimizada quando são descritos comportamentos inadequados pola nossa parte (participar em eventos sem cobrar, não queixar-nos das condições injustas por não dar problemas5). Essa citação em feminino resulta-me problemática. Feminiza-se a crítica sem achegar uma análise com perspetiva de gênero6: os poetOs cobram e as poetAs não? São as poetAs as que sempre cedem? São mais pressionadas para ceder? Que questões estruturais influem nisto? Inncomoda-me, ademais, na leitura, a renúncia da autora a exercer de exemplo de ação. Ela mesma fala de que a via profissional, para as poetas, tem que ser quando menos uma possibilidade (pág. 80). E defende isso Sara Ahmed (nosoutras com ela): Os sistemas dominantes fazem com que muitas cousas sejam impossíveis. Temos que pelejar pola possibilidade. Temos que pelejar para alguma de nosoutras ser possível7. Porém, a retórica do ensaio instala-se na reprimenda. Onde eu aguardava uma grande poeta mostrando como deu chegado aonde está, oferecendo chaves para quem se queira iniciar no caminho da profissionalização, advertindo de erros possíveis e assinalando potencialidades por explorar8, dei com um descargo de reproches que, de ser eu a noviça que pensa em se dedicar ao ofício, me levariam direta aos temários da oposição do que for. Aquela desvinculação temporal de que falava no início contribui a isso, pois faz parecer que em trinta anos nada mudou. Contribui também a enunciação na primeira pessoa do singular, sem lugar para ninguém mais que a autora, e sem mais experiências que a própria, aparecendo-se como um iceberg no meio do oceano, como profeta no deserto9. Não há em Economía e poesía. Rimas internas outras poetas de ofício, e se as há, não têm nome10: Estíbaliz Espinosa, María Lado, Lucía Aldao, Silvia Penas, Nuria Vil, Antía Otero, Dores Tembrás, por dar alguns exemplos, não aparecem referidas11. Vem-me à cabeça o Reverso, de Uxue Alberdi, em que, para analisar a discriminação de género no bertsolarismo, trabalha a partir de entrevistas feitas ao resto de companheiras, enriquecendo assim as suas impressões pessoais. Se algo do estilo fez Yolanda Castaño, não o enuncia. 

Quando um ensaio assenta de maneira tão forte na questão de cobrar ou não cobrar, do diletantismo de umas, da mal entendida generosidade das mesmas, acho importante

incluir na equação o artivismo. Colocar toda a atividade não-cobrada na mesma sacola, sem estabelecer diferenças, parece-me erro. Precisamente acho que aí é onde deve estar a reflexão naquelas que vivemos no privilégio de contarmos com outro trabalho: quando podemos oferecer o nosso trabalho poético de balde?, a quem?, para quem?, estão ao mesmo nível o Consello da Cultura Galega e o Clube de Leitura das vizinhas de Cerdedo12? Para isto há só quatro linhas (pág. 165), quando me consta que a autora bem sabe do tema, pois contribuiu durante anos a gerir o Implícate, de Implicadas no Desenvolvimento. 

O artivismo consiste em fazer da arte intervenção política. Escrevo isto para o web d’A Sega, espaço que construímos sobre os nossos ombros, os nossos corpos, os nossos tempos, as autoras que o promovemos. Consideramos esta uma ação necessária à que não encontramos cabida nos canais institucionais do sistema literário. Não vemos que promovam a crítica feminista. Porém, acreditamos na possibilidade. E levamos adiante para visibilizar essa possibilidade. Pode haver algo mais que o ego, a vaidade ou a procura da visibilidade quando decidimos fazer algo sem cobrar. Porque a questão do artivismo leva-nos a outra: É toda a poesia possível no espaço económico? Aceita o espaço económico a diversidade? Pagaria alguém esta recensão (extensa de mais para os parâmetros industriais)? Cabe no Fugas de LavozdeGalicia? Deixo de escrevê-la porque ninguém paga? 

Yolanda Castaño previne-nos durante toda a narrativa sobre a romantização do trabalho poético, porém o que percebo eu é a romantização da profissionalização: as autoras que temos outra dedicação laboral temos que reservar-lhe à escrita as horas da insónia, os restos do lazer, sem tempo para reflexionar e meditar, e acabamos por oferecer obras medíocres e pouco trabalhadas (págs. 65, 93). É na dedicação a tempo completo onde aparece a inovação, o enriquecimento poético, a abertura de mente13. Porém a autora obvia a necessidade de um espaço mental, de um tempo mental. Das minhas conversas com Nuria Vil, a frase dela que mais ressoa em mim é a de “a ver quando podo ter vagar para escrever”, porque o seu tempo todo esvai entre os dedos do pensar em pagar autónomos, faturas, o carro e em gerir projetos para ganhar os seus dinheiros. Fala disto Yolanda Castaño. E com isso vira em falácias essas afirmações sobre a qualidade da escrita. Nessa romantização elidem-se os trabalhos alimentícios14: participar em eventos de pouco interesse artístico porque há que comer, colaborar com certos poderes porque há que pagar autónomos, legitimar com a nossa obra, o nosso nome, o nosso caudal simbólico, ações que nunca legitimaríamos de não ser a fatura da luz. 

E aí outro elemento sobre o que não há reflexão. Estabelece-se uma dicotomia irónica entre “anticapitalistas” (pág. 66) e poetas conscientes do sistema económico do que fazemos parte. A dicotomia. Apocalíticas ou integradas. Sem ponto meio. E novamente elidem-se questões. Porque o capitalismo cá está entre nós, sim. Mas tem perigos que não se nomeiam, e merecem ser referidos: um o já indicado acima do quê o capital está disposto a pagar. O outro, opoetwashing15: lavar com a nossa obra, com a nossa participação em eventos, como o nosso nome, ações, instituições ou empresas que fraco favor estão a fazer à cultura, em geral, à cultura galega, em particular, ou mesmo que atuam à contra. E que, sem embargo, pagam. Este risco deveria ser considerado no ensaio. 

Ao tempo, colocar-nos no mercado, o tempo todo no mercado, faz que a autora ignore (propositadamente ou não) a existência da comunidade. Do comum. Das redes associativas, de afetos, de solidariedade, às que muitas, ademais, devemos o que somos. Como vou cobrar uma atividade à ACD Dorna (por pôr um exemplo), se aí pude aprender todo o que sei sobre navegação tradicional16 e escrever depois a noiva e o navio? Assim tenham dinheiros para me pagar. Nunca lhes cobrarei. Porque não quero. E essa é uma escolha. Consciente. Em absoluto romantizada. E absolutamente legítima17.

E chego ao elemento que mais me incomodou na leitura: a elisão por parte de Yolanda Castaño dos seus privilégios. Entre as anedotas que acompanham as argumentações da autora, há duas para mim bem significativas: em uma cita ao conselheiro de Cultura (qual?, não se sabe, des-contexto espaço-temporal) em uma conversa privada com a autora (pág 168); na outra, páginas depois, fala de uma reunião informativa em uma casa que resulta ser a Moncloa (pág.174). Um parágrafo para cada exemplo. Assim coma quem. Como se todas as poetas deste país tivéssemos acesso direto ao conselheiro ou ao Palacio de la Moncloa. No início do livro cita uma entrevista em um “dos sete xornais de maior tiraxe en España” (pág. 63), de resultados falidos. Como se todas as poetas tivéssemos acesso a entrevistas em LaVozdeGalicia. Yolanda Castaño é uma das poetas mais conhecidas e reconhecidas da Galiza. Isto proporciona-lhe um poder simbólico bem alto que facilita o acesso a espaços, meios e dinheiros18. Não nomear este seu privilégio prejudica a narrativa, pois o tom irónico e retranqueiro com que descreve ações que considera inadequadas (exercidas por companheiras) chega a parecer condescendente, quando não cínico. Quantas companheiras podem marcar as tarifas que ela tem? Quantas companheiras recebem as propostas que ela recebe? Quantas somos convidadas a ler pregões, a ser mantedoras de atos literários? Que fazemos as que não saímos na TVG nem em Lavoz para dar a ver as nossas obras? A autora pede no seu livro argumentações menos “nesgadas”, não levadas por ser parte interessada na cadeia do livro ou por ser poetas que ganham(os) mais de dous mil euros (pág. 91). O risco não está na posição que ocupamos no sistema, mas em não a ter em conta. E acho que Yolanda Castaño não o faz em várias ocasiões. 

É por todo isto que essas rimas internas que procura a autora no ensaio, me pareçam assonantes: há versos que rimam com aquilo que eu opino (dignificar o ofício, receber pagamento justo polo trabalho, não precarizar o labor das poetas) e outros que não casam, porque há palavras que não soam, que não são nomeadas. 


Yolanda Castaño: Economía e poesía. Rimas internas.

Editorial Galaxia, 2024


1 Nas aceções 1 a 3 do dicionário: 

1) Qualquer arte manual ou mecânica.(2) Cargo ou emprego.(3) Profissão. ≃ dignidade.   https://www.estraviz.org/of%C3%ADcio


2 Só se concebe a nossa dedicação a outra profissão como um refúgio, sem considerar outras razões, mesmo o interesse, para a escolha: “As poetas silencian as súas necesidades, migran cara a traballos remunerados que non as forcen a reclamaren o propio,...” (pág. 72, itálicos da minha responsabilidade) 

3 Não a daquelas que fazem parte das minhas redes de trabalho e afetos.

4 Falando da sua própria trajetória a autora afirma que conseguiu forjar uma carreira “dun xeito moi persoal e medio fortuíto: non grazas a plans estratéxicos impulsados con siso por administracións que me amparen” (pág. 110), porém, outra vez, não afunda nesta questão senão que aproveita para reprochar-nos às companheiras a nossa pouca solidariedade gremial. 

5 E vou lendo exemplo trás exemplo e sinto-me como a judas das poetas: e será por mim? Negaria eu três vezes, e mais, o ofício?

6 Insinua-se na página 83, no epígrafe Sospeitosos Parecidos, porém para responsabilizar às poetas de deixar que a poesia faça parte dessa carga de trabalhos não remunerados, como os cuidados ou a criança. 

7 Sara Ahmed: Manual de la feminista aguafiestas. Caja Negra Editora 2023, pág 221 (tradução da minha responsabilidade).

8 Cousas todas que me consta que Yolanda Castaño faz de maneira pessoal.

9 No epígrafe Predicar no deserto enuncia em positivo, mas desde a individualidade mais absoluta, ressaltada no título (pág. 108).

10 Estamos no de sempre: se não se nomeia, não existe.

11 Outra reflexão com perspetiva de género ausente: por que as que conseguem viver do ofício são elas? 

12 Cito a última atividade que fiz de balde.

13 Vou cometer a soberba de referir a minha própria obra para refutar tais afirmações.

14 Considero-os necessários para quem quer fazer da poesia (da arte) profissão, e nunca os critiquei em uma companheira, mas devem aparecer na listagem do deve e do haver.

15 Adoramos inventar palavras: criamos esta em paralelo ao conceito de greenwashing.

16 Da mão de marinheiros que depois da sua jornada laboral continuam a exercer de balde, ou a custo simbólico, para nos aprender.

17 E, ao pensá-lo, já me sinto um pouco menos a judas das poetas.

18 Não afirmo que não mereça, também eu ganhei merecidamente a minha vaga de docente de secundária e isso não oculta o privilégio do salário fixo.

mércores, 7 de agosto de 2024

María Mariño por Patricia Arias Chachero

Confeso que no ano 2006, cando a editorial Galaxia confiou en min para facer unha antoloxía poética da obra de María Mariño Carou (Noia, 1907- Parada do Courel, 1967), eu apenas sentira falar dela. Pairaba sobre min a néboa de se a escritora existira realmente ou era a Uxío Novoneyra o que Dosinda Areses a Ferrín. Non era consciente de ter lido os seus versos pero interiorizara que era anovadora, dificilmente encadrable e que apenas mantivera relación con algún dos intelectuais galegos da época. Ía “por libre” e iso prestábame. A proposta da escolma, que nun primeiro momento soara a reto, converteuse decontado nunha sorte de misterio a desvelar. Quen era aquela muller que vivira máis de vinte anos retirada no Courel e que fixera unha obra tan sorprendente?, quen era aquela a quen Novoneyra –con acerto- cualificara de “Dinamiteira da fala”?

Había ben pouca bibliografía. Así de memoria lembro os artigos de Borobó, de Manuel María, de Méndez Ferrín, de Trapero Pardo… Saudaban a aparición do único poemario que publicara en vida, Palabra no tempo (Lugo, 1963). Moitos anos despois, nos oitenta, xurdira a voz dunha muller, a da profesora Carme Blanco que, en 2006, era, creo, quen máis e máis certeiras páxinas lle tiña dedicado á obra da noiesa. Esgotado o traballo bibliográfico chegou a quenda dos arquivos. Na Fundación Penzol apareceron as cartas cruzadas con Otero Pedrayo autor do prólogo de Palabra no tempo. Nada fun capaz de encontrar en Noia onde naceran a escritora e a Asociación Cultural Catavento que, en 1983, promovera un concorrido acto literario capitaneado por Antón Avilés de Taramancos que culminaría coa publicación de Verba que comenza (Concello de Noia, 1990), o poemario inédito que a poeta asinara meses antes de morrer.

Aquel ano as Letras Galegas obrigáronnos, quizais máis que nunca, a investigar. Era a terceira vez, en 43 anos que a RAG tiña a ben escoller o nome dunha muller. Era o dunha escritora autodidacta, que bebera en fontes nunca antes transitadas nas nosas letras, era unha poeta persoal, con pouca obra, de cuxa valía –e mesmo de cuxa existencia- se dubidara.

Chegou o tempo das entrevistas a quen puidese ensinarme algo sobre ela. Detodas as que fun quen de facer lembro con especial intensidade dúas. A primeira, a Visitación Vila García, unha muller de Parada de Moreda, a arredada aldea onde a poeta falecera. Trasladeime alí e pasei varios días na contorna. Lembro a mañá que coñecín a Visitación, chuviñaba e estaba gris. Falamos diante da escola, na entrada da aldea. Explicoume que era a afillada de María Mariño, a quen ela chamaba Maruja. Hoxe sei que non souben formular as preguntas adecuadas. Eu preguntáballe se a vía ler, ela respondía que cosía. Eu preguntáballe se escribía, a miña interlocutora falaba dos longos paseos con Eugenio (Uxío Novoneyra), seu veciño. Eu quería saber se viaxaba á cidade, ela dicía que don Roberto, seu home, o mestre da aldea, estaba bastante xordo, que puña escola para os mozos a última hora da tarde e que, ás veces, enfadábase con eles polos comentarios que facían. Marchei sen sacar gran cousa en limpo. Só que a tumba estaba abandonada, que por alí nunca ía ninguén a vela, que as letras da lousa se despegaran e algunha mesmo se perdera.

A segunda entrevista que lembro foi a que lle fixen a José Zarza Zamora, o apoderado da Editorial Celta de Lugo, onde se imprentara o único poemario que a escritora publicara en vida. Pasei a tarde no seu piso de Bolaño Ribadeneyra, enriba mesmo de onde estiveran a imprenta e a coñecida libraría lucense. O meu entrevistado afirmou desde o principio, que el non sabía nada nin de Palabra no tempo nin da súa autora. Faloume, iso si, de Francisco Esteban González, seu sogro, o fundador da Celta, que nada máis comezar a guerra fixera diñeiro na retagarda acompañando aos soldados cunha furgoneta na que transportaba os cadernos, os sobres e o material de escritura que lles ía vendendo. 

Eu sabía que na Celta, cos anos, publicaran moitos dos grandes das nosas letras. Desde Manuel María que alí deu ao prelo Contos en cuarto crecente e outras prosas (1952), Terra Cha (1954), Documentos persoais (1958) ou o Libro dos pregos (1962); a Luís Pimentel e o seu Barco sin luces (1960); pasando por Arcadio López Casanova e Hombre último (1961), Crecente Vega e Codeseira(1965) ou Ricardo Carballo Calero e a súa Contribución ao estudo das fontes literarias de Rosalía (1959), o seu discurso de ingreso na RAG. Sabía tamén que durante moitos anos o gran dinamizador da imprenta fora o profesor Xesús Alonso Montero, a cuxas máquinas confiara o seu primeiro libro La palabra en la realidad (1963) e outros moitos no transcorrer dos anos. Entre eles Os cen mellores poemas da lingua galega (1970) e Política e cultura en Galicia (1978).

Zarza Zamora explicoume que a única muller que el lembraba que publicara na Celta fora Adela García González, esposa de Francisco Lamas López, o alcalde republicano de Lugo, que, preso no 36, lograra salvar a vida grazas á mediación do seu sogro, o pai de Adela, o coronel da Garda Civil, Román García Pardo. Adela, que con Maruja Torviso fora unha das poucas mulleres que recibira a Lorca cando visitara Lugo en 1932, era unha persoa culta, significada politicamente, cun neno pequeno a seu cargo e seu home preso en Ezkaba, unha das prisións máis crueis da España franquista. Quizais por gardar as aparencias ou quizais por motivos económicos escribira, segundo Zarza Zamora, o primeiro libro da Celta, El correo de los enamorados. Apenas un folleto que reunía modelos de cartas de amor para que os soldados puidesen escribir as súas mozas ou ás súas madriñas de guerra. Pouco máis tiñan que facer que copiar o que recomendaba o libro e cambiar o nome do saúdo. 

Seguramente Adela sexa tamén a autora de Consejos y recetario de belleza (1939). Un pequeno volume en tampas duras, impreso na Celta e asinado por unha misteriosa Mary L., que reúne unha serie de consellos para conservar a beleza e a saúde. E por moito que repaso o catálogo da casa non atopo outro nome feminino ata que en 1963 aparece o de María Mariño. A segunda muller en publicar en tan senlleira imprenta, daquela xa unha empresa solvente que levaba impresos máis de 75 títulos. Tras dela, e nunha listaxe que inclúe a centos de autores e títulos, poucos máis nomes femininos. Apenas os de Victoria Carballo-Calero, o de Dora Vázquez e o de Luísa Crestar que en 1973, 1975 e 1982 publican cadanseu libro.

Ao repasar as cifras dáse unha conta de que a historia da literatura galega moderna é fiel reflexo da sociedade patriarcal en que se creou. Unha literatura que se inaugura cun nome de muller, Rosalía de Castro, e que, durante décadas, medra practicamente allea a elas, a nós. Baste recordar que se contan cos dedos da man as autoras que publicaron en Nós ou en A Nosa Terra e que os primeiros libros asinados por elas tras a guerra civil non serían impresos ata 1952, cando aparecen O paxaro na boca de Luz Pozo Garza e Íntimas de Pura Vázquez, ambas en Xistral. Entre elas e o Palabra no tempo (1963) voces pioneiras como a de Xohana Torres que con Do sulco convértese na primeira en publicar en Galaxia, sete anos despois da súa fundación, ou María do Carmo Kruckenberg que con Canaval de ouro (1962) é a primeira en facelo na colección Salnés. 

Hoxe somos moitas máis pero convén recordar de onde vimos e a todas as que nos precederon, é por iso que non podo máis que felicitar á Sega por esta iniciativa teimuda que veu para quedar. Os meus máis sinceros parabéns por un traballo turrón e necesario, o de render homenaxe ás mulleres galegas que, pese as circunstancias, souberon –saben- facerse valer. Os meus parabéns por esta década de certeiro traballo feminista!

mércores, 24 de xullo de 2024

Nosoutras no espelho do amo; nosoutras no espelho, o amo por Susana S. Arins



Acordou-me o meu livro a noiva e o navio. Nele escrevim sobre o mundo do mar e coloquei referências e estruturas (os títulos dos capítulos) procedentes das narrativas de viagens da expansão colonial: o Vasco da Gama, o Pêro Vaz de Caminha, mesmo o Colombo assomam no texto. Acabava eu de sair das minhas pesquisas doutorandas sobre o racismo nessa narrativas, mas também é verdade que as leitoras do poemário nada tinham que saber disso. O caso é que me acordou a noiva e o navio: a que recorrer a esse imaginário? a que trazer à literatura galega do século XXI esses senhores? Foi o meu um uso transparente na sua crítica, na olhada irónica? Pudem dar a perceber, sem o pretender, admiração e respeito por essa etapa histórica, que estende os seu rajos octopusianos às injustiças do mundo atual? Fiz o correto? E outra vez, havia necessidade? Tendo possibilidade de escolha, por quê escolher esses referentes? 

Este é o convite que nos faz María Reimóndez no seu livro A casa do amo, sendo nosoutras essa casa. Um convite a reflexionarmos sobre as nossas práticas coloniais e racistas, enquanto leitoras e enquanto autoras, enquanto integrantes do sistema literário galego. 

Para isso, como é habitual na sua obra ensaística, Reimóndez achega-nos às teóricas decoloniais e antirracistas, e oferece-nos uma introdução aos princípios básicos dessas teorias. Como é habitual também, acompanha a sua narrativa com um amplo corpus bibliográfico no que podemos mergulhar se temos interesse em aprofundar o nosso conhecimento. 

É essencial este achegamento teórico para compreendermos que não há no texto um ataque gratuito a companheiras na tarefa da escrita em galego, mas esse convite à reflexão de que falamos ao começo. A autora escolhe obras significativas da literatura galega como exemplos concretos de formulações literárias e tópicos ( o exotismo, o determinismo, a olhada sobre as nossas outras, as outras como objeto ou animal…) que nos mostram uma construção do imaginário desde a branquidão e colonialidade. E não pratica o essencialismo com as autoras (“escreveste um texto que transparenta racismo ergo és racista”) pois é quem de escolher a mesma (o caso de Ana Cabaleiro) para exemplificar uma escolha inadequada e outra acertada, ampliando assim o convite: somos quem de aprender, se ousamos olhar-nos ao espelho e reflexionar. 

Afeitas como estamos ao discurso da não-hegemonia da literatura galega (sermos as discriminadas, sermos as subalternas, sermos as dependentes da olhada espanhola, sermos as colonizadas), por vezes parece impossível assumirmos o lugar que ocupamos no mapa: Europa, o ocidente, a civilização, o avanço e o progresso. E sim, podemos bem ser um povo em situação não-hegemônica com respeito à Espanha, mas ser autêntica hegemonia para com outros povos do mundo. Reimóndez faz possível o mapa. Coloca perante nosoutras um espelho, mundo e limpo, para que sejamos quem de ver até que ponto participamos dessas estruturas racistas e coloniais. 

Fora dos tópicos repetidos em toda a literatura europeia, interessou-me especialmente aquele que podemos considerar intrinsecamente galego, o da épica da emigração: a construção de um discurso sobre a emigração galega, em especial a América (na Alemanha ou na Suíça tudo era luz, progresso e branquidão) na que as galegas eram pessoas inteligentes, trabalhadoras e audazes quem de superar as barreiras ao progresso que impunham as povoações locais (negras e indígenas), invisibilizadas quando não desprezadas. 

Por outra parte, parecem-me de leitura obrigatória os trechos todos em que se faz referência à apropriação do papel de vítima por discriminações sofridas (ainda hoje) por outros povos. Como reintegracionista que sou lembro sentir-me altamente incomodada pola campanha O fim do apartheid, em 2016, que acho não cheguei a assinar. Daquela não sabia explicar, mas intuia que estava mui fora de lugar utilizar um movimento histórico com tantas mortas ao lombo para igualá-lo a uma discriminação, real, sim, mas em absoluto tão grave. Ninguém morreu de reintegracionismo e quantas de negritude. Hoje sei que foi um uso banal e racista de luitas alheias1.

María Reimóndez convida-nos a reflexionar sobre as nossas práticas literárias (escritoris, leitoris, tradutoris) para entre todes transformar a literatura galega em um espaço realmente respeitoso com todes es outres e fazer dele o gonço que conete, em aliança não-hegemonista, as luitas que no mundo são. 

A casa do amo não é uma leitura necessária: devera ser obrigada e essencial para qualquer das que fazemos parte da literatura galega. 

María Reimóndez: A casa do amo. Unha análise do discurso colonial e racista na literatura                         galega. Xerais 2024

1Nota mental: ler em Audre Lorde a diferença entre discriminação e opressão.