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Amosando publicacións coa etiqueta Montserrat Roig. Amosar todas as publicacións
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martes, 11 de marzo de 2025

Quando 50 anos são a nada por Susana S. Arins


    Chegou o tempo das cireijas? Chegou a primavera tanto tempo aguardada? Leio Montserrat Roig e acabo por duvidar. 

Eu estava a ponto de nascer quando a Natália Miralpeix voltou a Barcelona após doze anos de auto-exílio (exílio?) no Reino Unido. Natália instala-se no andar de uma tia e recupera o contato com a família e alguns conhecidos, pois quer procurar trabalho para ficar. A sua ausência fica marcada por dous fitos da repressão franquista na Catalunya: foge quando a execução de Grimau e volta quando a de Puig Antic. Emergem e submergem estes nomes1 na narrativa e assim, subtilmente, a autora evita-nos a queda na ingenuidade: sim, estamos em 1974, no estertor do franquismo, mas nada de dictablanda, a pena de morte eis a está e continua a ser aplicada. 

Natália, de família burguesa e abastada, deixou o país sem se despedir do pai, e sem ter contactado com ele nos anos londrinos. Deve recuperar essa relação e toda a narrativa, as expetativas, as promessas e surpresas aparecem-se ligadas a essa relação pai-filha: por que a distância, por que a reconciliação, onde o perdão, por que, onde a desculpa. A autora regula a informação que nos fornece de maneira a ficarmos prendida na narração página atrás página. Vamos conhecendo toda a família da Natália (a tia, a criada de sempre, a cunhada, o irmão, o sobrinho, a mãe), e com cada parente a sua historia, mas sempre falta o pai. Onde o pai? E cada personagem vai fornecendo informações também da mesma Natália: pedem-se explicações, aparecem os reproches, as culpas, as acusações. 

O romance é uma maravilha no uso do tempo narrativo. Os saltos atrás e adiante das personagens a lembrar as suas infâncias, as suas mocidades, os eventos familiares, faz que na linha de não mais de seis dias, desde a chegada da Natália a Barcelona, recorramos quase um século de historia da família e do país. E todo acompanhado das mudanças percebidas pola protagonista, doze anos ausente. As comparações da Barcelona que deixou e a Barcelona à que volve são contínuas. 

Pai e irmão da protagonista são arquitetos e promotores inmobilários. Isto é álibi para introduzir-nos na observação e descrição contínua de andares, vivendas e urbanismo, deixando entrar na narrativa uma revisão do desarrollismo turístico da Espanha das últimas décadas da ditadura. A meticulosidade das descrições de mobílias, objetos, enxováis, daquilo que ocupa a intimidade dos lares, põe em destaque, também, as diferenças de classe das personagens. Que pai e filho partilhem profissão permite à autora analisar as mudanças geracionais no país, como convivem como a ditadura aqueles que viveram a guerra e aqueles que não. 

Roig renuncia a utilizar a narração omnisciente, colocando-nos sempre diante as olhadas das personagens. O foco viaja de umas a outras, criando em nós, leitoras, a sensação de privilégio: acedemos ao âmago daquilo que pensam umas e outras, umas das outras, sabendo-as a elas ignorantes dessas opiniões. Não julga a autora. Sim as personagens. Avançamos a leitura e construimos a nossa visão e odiamos ao Joan Miralpeix e mudamos o ódio cara o Lluís e sentimos pena da tia Patrícia até que passamos essa lástima à Natália enquanto nos diverte a Sílvia. E não é que mudem as personagens (que também), mas o conhecimento que delas temos nós. 

Li entusiasmada. Sem embargo, no avanço, nesse passear Barcelona do braço da Natália foi crescendo a raiva, o enfado. Porque me parece uma obra maravilhosa e, novamente, como com outras tantas, é uma obra ausente dos espaços literários canónicos. A da Montserrat Roig é uma olhada lúcida ao franquismo, ao uso que fez da família como primeira cédula de repressão, às múltiplas violências que exerceu na cidadania, à inter-seccionalidade com outras violências (contra as mulheres, contra a diversidade sexual, contra as classes desfavorecidas) a muitos dos debates ainda hoje vigentes (navegar na corrente, rebelar-se, rendir-se, falar, calar, colaborar, fugir…), a pesada lousa de trauma e silêncio que carregam as vítimas, à demência e à loucura que a repressão provoca. E, como sempre, é uma obra que nunca antes se apareceu nos espaços de estudos literários que naveguei. 

Quando li a descrição da noite do casamento da tia Patrícia lembrei a descrição que Begonha Caamanho faz da noite de Penélope e Ulises no seu Circe ou o pracer do azul, tão impactante. Quando li o trecho em que é narrado o aborto da Natália, lembrei a Annie Ernaux e o seu O acontecimento. A peregrinatio à procura de ajuda. A crueza e o paternalismo. Só que a obra de Caamanho é de 2009 e a de Ernaux é de 2000. Montserrat Roig publicou El temps de les cireres em 1976. 

E penso nessa condena eterna das autoras a desaparecermos e reaparecermos décadas depois em que uma companheira nos descobre e voltamos desaparecer até outra fazer a descoberta, e outra, e outra, raivadas sempre por termos que andar na cansa tarefa de descobrir aquilo que tinha que estar evidente diante dos olhos. 

Leiamos Montserrat Roig, por ver se de vez chega a nós a primavera, o tempo das cireijas. 


Montserrat Roig: El temps de les cireres. Educació 62, 2014

Tiempo de cerezas. Editorial Consonni, 2024. Traducão de Genma Deza Guil



1Só citados nas conversas das personagens, sem explicações. Adoramos que a autora renuncie à sobre-explicação enciclopédico-histórica.