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Amosando publicacións coa etiqueta teoría da critica. Amosar todas as publicacións
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domingo, 3 de maio de 2026

O olhar desde a fossa por Susana S. Arins

 



Interessa-me aquilo que escreve Brigitte Vasallo. Nos seus escritos sempre coloca o foco em zonas de sombra que as minhas ideias não iluminam. O feixe de luz da sua lanterna adoita pôr-me sobre aviso para não cair nas armadilhas das minhas rebeldias. Cuidado com a linguagem inclusiva e as suas estratégias de classe, cuidado com a exclusão das expulsadas no campo das identidades. Escuita as vozes dissidentes. Aprendim muito da leitura das Mentes insanas. Ungüentos feministas para males cotidianos (2020), do Lenguaje inclusivo y exclusión de clase (2021) e do Tríptico do silencio, que me fez escuitar a voz daquelas que ficaram à intempérie. 

Comecei a leitura de La fosa abierta com essa expetação, incrementada polo feito de escuitá-la citada em vários eventos recentes como referência para nos compreender às galegas, às pessoas do rural. 

La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico1, parte da história familiar para, em uma narrativa híbrida e fragmentária, recorrer o impacto que a emigração dos rurais aos centros industriais do estado espanhol deixou nas gerações que viveram esses deslocamentos e a seguinte, a dela, que denomina mutante, a criada longe da origem e sem chegar a ser aceitada no lugar habitado. A autora parte da experiência própria e combina a pesquisa sobre a história de vida da sua mãe com o achegamento às experiências doutras pessoas, através de laboratórios de conversa, e com leituras sobre a questão da migração, do processo de abandono do rural, etc. A partir de aí constrói, como bem indica a apresentação editorial, um espaço de enunciação próprio. O feito de que a família da autora proceda de Chandrexa de Queixa, onde ela se instalou nos últimos anos, incrementaram o meu interesse na obra, porque entendo que vai falar de espaços e experiências que me são próximos. 

A autora começa por fazer um percorrido polas políticas de ocupação das terras do comum em diferentes épocas do Reino da Espanha, as desamortizações várias e as políticas agrárias e florestais das repúblicas e do franquismo. Cita O atraso económico de Galicia, de Xosé Manuel Beiras já nas primeiras páginas e eu surpreendo-me da profundidade das suas leituras (até leio o Beiras!). Continuo a leitura em que reflexiona sobre a perda que supus a expropriação dos montes em mão comum e continua a citar o Beiras. A minha surpresa muda. Aguardava a cita de autoras mais contemporâneas2, porém, confiei na autora e pensei que o facto de estar instalada na Catalunya podia dificultar-lhe o conhecimento de bibliografia atualizada3. Mesmo assim, consultei o aparato bibliográfico do final do livro e comprovei que praticamente a única referência ensaística sobre a Galiza era a de Beiras. Continuei a leitura, chocada, mas não tanto, pois entendim que o interesse de Vasallo estava em artelhar e dar forma ao seu próprio discurso, e que os apoios referenciais eram isso, apoios, relativamente necessários. 

E cheguei assim à página 137. E li: 

Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.

Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.

Estupefacta fiquei eu. Pampa. No momento reconhecim o livro. Dou por feito que se refere a Uma história pequena da Galiza Rural (1939-1982), de Alba Díaz Geada4. Voltei consultar a bibliografia final e não se aparece na listagem de obras referenciadas. E não percebo. Não percebo nada. Ao longo do discurso, Brigitte Vasallo indica em muitas ocasiões de onde obtém a informação e explicita o seu cuidado em citar as suas informantes5, por isso, que lhe negue nome e autoria ao livro deixa-me sem palavras. 

Alba Díaz Geada reelabora a sua tese doutoral em um breve volume de divulgação, Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982). Nele analisa as mudanças no mundo rural galego durante o franquismo, a mesma época que interessa a Vasallo. A sua metodologia de trabalho baseia-se nas entrevistas e encontros com habitantas do rural, para, a partir dos seus testemunhos, construir a sua proposta de análise. Em realidade, uma metodologia semelhante à que utiliza Vasallo nos que ela denomina “laboratórios de memória txarnega”: escuitar as subalternas e construir, com elas, pensamento. As duas estruturam os seus livros combinando depoimentos de testemunhas com as suas próprias reflexões ou explicações. Porém, no que se refere à Galiza, o trabalho de Díaz Geada é muito mais completo. Porque Vasallo constrói o seu conhecimento da Galiza com os testemunhos, quase únicos, das suas vizinhas e familiares de Chandrexa de Queixa6, em tanto que Díaz Geada realiza entrevistas por várias comarcas da província de Lugo, o que lhe permite complexizar o o olhar. 

Uma história pequena da Galiza rural estrutura-se em três capítulos ordenados cronologicamente. O I analisa as mudanças na imediata posguerra, nos inícios da ditadura, e põe o foco na repressão e na fome, na grandíssima fome que obrigou a implementar o controlo da agricultura por parte do novo regime ditatorial. O capítulo II abrange os anos após a II guerra mundial, em que a Espanha é admitida em organismos internacionais e as políticas aplicadas no agro são marcadas polos EEUU. São os anos de integração total no sistema capitalista, com as migrações massivas a outras regiões da Espanha e Europa, e aqueles em que se afunda na dicotomia atraso / progresso. O capítulo III recorre desde a crise dos combustíveis do ano 1973 até as negociações para a entrada na CEE. 

Díaz Geada não idealiza o rural: “Se há algo que ficou fortemente gravado na memória do pós-guerra como a fome foi a desigualdade que o atravessava. Quantas vezes volto às tuas palavras para expressar a desigualdade. Não havia nada além de piolhos e pulgas”(pág. 25). Põe atenção na dureza da vida para as raparigas: “Todas trabalhavam a terra desde pequenas. Davam comida aos porcos, se os houvesse. Faziam-lhes as batatas. Punham os bezerros a mamar. Aprendiam a mungir. Estravam as vacas. Iam à fonte. E iam buscar uma braçada de tojos para o burro. Iam buscar lenha. Iam arrancar o estrume. Embalavam os irmãos mais novos. A reprodução das famílias das classes populares, a própria vida, dependia do trabalho de todos os membros. Crianças, mulheres, homens. Tudo não dava para nada. Um irmão era sapateiro. Uma irmã era costureira, muito cuidadosa. Reconhecem o saber e o bom fazer. Todas pararam de ir à escola. Poderiam ter sido mais, dizem. Quando jovens, iam servir. Carreavam sacos de caulino do porto para o barco rumo à Alemanha. Trabalhavam na fábrica de cerámica. Na fábrica de conservas. Iam ao mercado vender trigo, favas, o que se podia. Para essa sobre-exploração do trabalho, não era necessária a escola. Nas formas que a compunham cabia o trabalho assalariado ou a jorna, a própria servidão,a reciprocidade desigual e a autoexploração” (pág. 29). Nesta enunciação de trabalhos podemos notar a diversificação das tarefas, as estratégias diversas usadas no marco das relações económicas e que o agro é um espaço dinâmico em que tanto podes ir à lenha ao monte como fazer horas na fábrica. É claro que o acesso aos trabalhos varia segundo as zonas e comarcas, mas a complexidade eis a está. O mundo do rural não existe em abstrato nem isolado do mundo urbano. Há relações, desiguais, complementárias, de dependência7, mas não é o rural um espaço incomunicado nem excêntrico. 

Outro elemento que deixa patente a obra de Díaz Geada é a do dinamismo do rural. Ao tender a olhada na evolução ao longo de (só) o século XX, percebemos como as mudanças que trouxeram consigo ditadura e capitalismo não foram recebidas em toda a parte da mesma maneira. É evidente que a expulsão das labregas e labregos dos labores agrários, a incorporação de novas maneiras, industriosas, de trabalho agropecuário, a especialização e a concentração dos produtos, vão ser elementos que façam dos nossos rurais um novo espaço totalmente diferente ao vivido décadas antes. Mas é interessante ver como em paralelo se aparecem as resistências, aprendidas de movimentos anteriores (pensemos na luita pola redenção dos foros): “A Galiza era território do comum. «Montes de vizinhos» ou «em mão comum», onde o uso está vinculado à vizinhança; e «montes de varas», «de vozes» ou «abertais», de uso ligado a determinadas casas. Já se arrastava há longo tempo a incompreensão do comum do ponto de vista liberal. Daí a individualização defensiva praticada por algumas comunidades. E antes de você nascer, dever ter sido em 1929 ou 1930, o «monte dos vizinhos» foi dividido. Havia sete pedaços desses dois bairros da paróquia. Eram quarenta e oito coparticipantes que participavam daquela pedaços de baldio. Cada pedaço foi dividido em quarenta e oito pedaços, mais dois, cinquenta, caso aparecesse mais alguém. De modo que havia sete pedaços e, em cada um, cinquenta parcelas8. Noutros sítios, diz, o Patrimonio Forestal apoderou-se do monte porque não fizeram a tempo o que tinham que fazer. E aí, quando chegaram, disseram «Alto! Aqui o Estado não tem nada, tudo foi adjudicado e está em contribuição» (págs. 19-20). Toda uma história de luitas por defender a própria dignidade que, sim, muitas vezes fracassavam, mas outras conseguiram vencer: “Então disse-lhe outra vizinha: «E porque é que nós, as mulheres de Regodela, não fazemos uma manifestação?» Uma avisa para este lado e outra, para o outro. E arrancámos, por ali adiante, pela estrada adiante, a falar umas com as outras. Todas as velhas. Encontramos os da Fenosa, os carros da Fenosa. Então vou eu e paro un dos carros. E disse-lhes eu: «Vamos lá ver, quem são os senhores?» E disse-me ele: «E quem é a senhora?» «Eu sou uma afetada pola nuclear»(.../…) Eram finais de 1974 e um grupo de mulheres marchava contra a instalação de uma central nuclear em Regodela (Jove, Lugo)” (Pág. 66). Sabemos todas que em Jove não há central nuclear. 

Não têm cabida estas resistências na obra de Vasallo. Ela revisa a história do despojamento do rural (que se deu, é bem verdade) sem fazer menção às resistências9. Este silenciamento é necessário para a configuração das populações rurais como vítimas, vítimas do capitalismo, vítimas da modernidade. Incomoda-me na leitura, porque leio a ruralidade, leio-me, revitimizada. Ao escolher este discurso, a autora assume que há um centro e há uma margem e analisa os processos de exclusão desse centro sem questionar nunca a sua suposta centralidade. 

Indico que Vasallo revisa a história do despojamento do rural e eis, para mim, outra eiva da sua leitura. Unifica todos os rurais europeus em um só, um único rural despojado por uma única máquina capitalista. Não há matizes na sua obra. É igual o campo galego que o andaluz que o napolitano que o inglês. Assume, penso que acriticamente, o conceito de España Vacía formulado desde a hegemonia castelhana. Isto é um problema sério. Como indiquei no início, a visibilidade mediática desta obra faz com que esteja a ser usada para nos ler às galegas, para lermo-nos as galegas. E o lente é absolutamente externo, alheio. Obvia a autora novamente trabalhos recentes de companheiras sobre esta questão10, a de assumir a identidade que outres construirem para nós (para submeter-nos) como a real e verdadeira. A uniformidade dos rurais, o tropo das labregas pobres e vítimas reforça a imagem que de nós tem a hegemonia estatal, a imagem que aprendemos de nós mesmas. 

As fórmulas de acesso à terra, as relações entre classes dominantes e subordinadas, as políticas dos estados, não podem reduzir-se a uma só. Vão provocar processos migratórios diversos e projetos migratórios diversos. Em uma obra recente, em que Manuel Gago compara os mundos escocês e galego, disse-nos: “Ao redor de dous millóns de persoas partiron tanto de Galicia como de Escocia entre os séculos XIX e XX. Houbo tamén unha diferenza notable: a emigración escocesa, nas súas diferentes fases foi provocada por decisións do Goberno británico, bem apoiando os grandes terratenentes no seu empeño de expulsar os campesiños das terras que tiñan alugadas, bem fomentando a emigración para os programas de colonización imperial ao longo do mundo. O caso galego foi xusto polo contrario: em gran medida os galegos marchaban polo desleixo do Goberno español en desatender Galicia e non fomentar condicións de crecemento económico. // Carentes de propiedades, os escoceses partían en gran medida para non volver. Eran labregos na procura de terra. Nos galegos sucedía ao contrario, xa que a maior parte deles eran propietarios ou fillos de propietarios: a emigración estaba orientada a facer fortuna, retornar e investir para facer prosperar a casa, a unidade económica básica da sociedade tradicional galega.11”

Esta diversidade desaparece da obra de Vasallo, a quem o processo de cercamento (enclosure) de terras inglês lhe serve para explicar-se a si própria o(s) sistema(s) de monte comunal na Galiza, como ela mesma admite: “Y entonces cuenta [o vizinho Alfredo] cómo sucedió essa proeza del sacar adelante a su hijo estando sola y siendo tan pobre em un pueblo precioso pero durísimo, y habla de su vaca en tierras comunales. Na Serra, dice, na Serra. He escuchado esta historia muchas veces, y la apunté en la libreta que llevo siempre conmigo, pero no entendí la importancia de esta frase hasta que leí cosas que me hicieron entender. Lo he publicado así en otro libro: «yo, como hija de la diáspora nacida em la cultura del progreso, como mutante, necesité de Linebaugh, de Federici, de Moreno-Caballud, de Berger, de Marx y de Haraday para entender lo trascendente de esta información»12” (Pág.78). 

Porque, para o caso galego, o de Vasallo, não é un conhecimento situado13. Acho que a autora tem uma ideia errónea do que isto significa: “Un hecho narrado por una sola persona es una narración a medias, pues es imposible separar la cosa del impacto que ha tenido la cosa en quien la describe. En la oralidad se van añadiendo capas y todo el mundo añade la suya propia, su propia tonalidad de la cosa. Es aquello de que cada cual cuenta la feria según le va. Es el conocimiento situado, que está resuelto em la oralidad. No es hablar solo de lo que sabes, es la inevitabilidad del hablar de ti” (Pag. 206). O conhecimento situado não consiste em falar da feira segundo che vaia nela, mas, sendo ciente da inevitabilidade de falar de ti mesma, deixar claro desde o início do discurso desde onde falas, qual a tua posição no sistema, de que privilégios gozas. Vasallo fala desde a raiva txarnega14, fala desde a galeguidade15, às vezes, fala desde a ruralidade16, às vezes também. Sempre no lugar das vítimas17. Ás vezes, também, apropriando-se do lugar das subalternas. Leio com muito interesse a experiência de Vasallo enquanto txarnega, porque não é a minha, porque quero conhecê-la e percebê-la, desde a minha posição de pessoa com raízes, com lugar, porém incomoda-me lê-la ocupando a voz da sua mãe e doutras pessoas migrantes de primeira geração, ou a das galegas rurais que recebemos o filme As Bestas18. O espaço de enunciação próprio devém, muitas vezes, em espaço de apropriação.

E volto àquela cita inicial que me deixou pampa: 

Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.

Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.

Sem entrar em disquisições filológicas, fico estupefacta com a última frase: “Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas”19. Assim, com rotundidade. Desqualifica uma obra porque a autora escolhe um padrão linguístico diferente, casualmente aquele que acolhe a palavra queixalão (e não queixalán) da sua oralidade. Desbota-a mediada por uma frase: “Nós non entendemos ese galego, me dicen.” As pessoas sensíveis com a questão da língua, sabemos ler nessa frase toda a história negra da língua galega, toda a carga de auto-ódio aprendido. Sabemos que provocou os usos diglóssicos e a não alfabetização em galego de grande parte da povoação20. Porém, daí Vasallo constrói um discurso vitimizador, e epopeico ao tempo, da sua vizinhança, afirmando que o livro de Díaz Geada mesmo está escrito “contra ela”. Contra. Porque escreve com nh. Vasallo afirma isto em perfeito castelhano. Porém, em nenhum momento da escrita reflexiona sobre o feito de ela estar a escrever em uma língua que não é a das suas vizinhas. Em uma língua que elas mesmas lhe contam que lhes é alheia e que aprenderam na emigração. Porque o seu conhecimento não é situado. Porque a sua olhada é superficial. E essencialista21.

“He apendido, sin embargo, a desconfiar de mi mirada. Estoy observando un papiro egipcio em el Metropolitan Museum de Nueva York y veo un arado como los nuestros, como los que ya no usamos pero que aún quedan tirados por las cuadras, el arado que recuerdo haber visto trabajar, en activo aún. Nós pasamos do arado romano ao tractor en dez anos, se repite en Queixa. Es un salto temporal de miles de años que hemos presenciado, del que hemos formado parte, un evento histórico más importante que cualquier guerra o cualquier copa de fútbol. Mando la foto emocionada a mis primas: «Los egipcios ya usaban nuestro arado??!!», y ellas me contestan riendo: «Se no es nuestro arado, ¿no ves que tiene un palo que los nuestros no tienen?»”(Pág. 269).

Também eu aprendim a desconfiar da olhada de Vasallo22. Há mais complexidade nas 73 páginas escritas por Alba Díaz Geada que nas 296 de La fosa abierta. 


Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026.

Díaz Geada, Alba: Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982).

Através Editora, 2024.


1Editorial Anagrama, 2026.

2A autora cita pola edição de 1981, mas a edição original da obra de Beiras, fundamental no pensamento contemporâneo da Galiza, é do ano 1973. Porém, desde essa data, foram muitas as achegas no campo dos estudos da história agrária, muito mais específicos que o trabalho citado de Beiras e centrados muitos deles, na agência feminina. Pensava no labor do grupo HISTAGRA, por exemplo. 

3Nos últimos anos fora publicadas com acessibilidade para o público não especializado, várias obras que tratam a história agrária na Galiza, em geral, e a questão dos montes em mão comum, em particular. Penso na figura de Ana Cabana e algumas das suas monografias: La derrota de lo épico, Haberlas Haylas. Campesinas en la historia de España del siglo XX; penso na obra colectiva Árbores que non arden. As mulleres na prevención de incendios forestais, da antiga Catroventos Editora (2019), penso na obra de autoría colectiva Arredor do rural. Comunidade de saberes e innovación socio-educativa, Toxosoutos 2023, penso no Cando éramos sostibles, de Lourenzo, Bestilleiro e Quiroga, editado pola Fundação RIA em 2023, penso no Terra a nossa! Discurso e identidade agrária na Galiza moderna (1875 – 1936), do Antom Santos, em Laiovento. 

4Através Editora 2024

5“… Edson es traductor del italiano y su madre se ha puesto a trabajar también, animada por él. Le pregunto si puedo tomar una foto de la foto y si puedo mostrarla junto con el resto para mis movidas.” (pág. 192), ou “Al cabo de unos meses, cuando voy a incorporar esa historia a este libro escribo al grupo para preguntar quién me la contó, confirmar si le parece bien que la publique y para comprobar con qué nombre quiere aparecer en el relato” (pág. 235).

6Também para isto podia contar com bibliografia galega, pois eis está o Elas, as emigrantes. Mulheres da Terra de Soneira na Suíça. Através Editora, 2019.

7Vem-me à cabeça essa Estrada paralisada polo boicot das labregas em uma greve em protesto polos impostos para a construção da Casa Consistorial, ao ponto de desabastecer a vila de produtos alimentares básicos. 

8Foi este o sistema defensivo utilizado na minha aldeia. O monte foi repartido entre as casas no modo “monte de varas”; porém o Concelho apropriou-se das terras em 1961 e não foi até 2016 que a vizinhança recuperou a titularidade do monte:https://www.farodevigo.es/pontevedra/2016/04/08/sentencia-da-titularidad-vecinos-arcos-16650765.html

9 Isto descontextualiza, deixa em ermo, as resistências atuais que sim nomeia (a luita contra a ocupação de terras para energia eólica, por exemplo). Por que agora há resistências (havendo menos população) e antes não?

10Penso no Galiza, um povo sentimental?, da Helena Miguélez-Carballeira, na Através Editora ou no Um país a la gallega. Galiza no NO-DOfranquista, da Beatriz Busto, também na Através Editora -e juro que não é intencionado citar bibliografia reintegracionista-. Penso nos artigos da revista Clara Corbelle.

11Manuel Gago: Ata que os mares sequen. Unha Escocia en clave galega. Morgante Ensaio 2026. 

12Eu criei-me aprendendo que o minfúndio era o Mal. O rural estava atrassado porque as terras estavam partidas em cachos tam pequenos que nem o trator entrava. Ao carão da escola o monte estava dividido em tiras de meio metro. Não podia ser ampliado o pátio porque era um cristo expropriar tanta terra tão dividida. Muita papelada e pouco rendimento. Foi com Ana Cabana que aprendim que isso não era atrasso. Era defesa inteligente contra a agressão alheia. De Federici ou Berger aprendim outras cousas. 

13Na recensão da obra De por qué es necesario un feminismo descolonial, Icaria Editorial, 2022, de Yunderkys Espinosa Miñoso explicamos este conceito: “Devemos saber situar o nosso conhecimento, com as suas limitações, e renunciar a fazê-lo universal. De aí a sua segunda proposta: no lugar de procurar essencialismos etiquetadores que uniriam na sua opressão de género todas as mulheres do mundo (tarefa impossível), centremo-nos em explicar como a matriz de dominação / opressão atua nas nossas sociedades, culturas, modelos civilizacionais.” https://www.asega-critica.gal/2026/01/a-viagem-de-desandarmos-por-susana-s.html

14“Cuando nos afeáis las preguntas, cuando os quejáis porque abrimos la boca, cuando acudís orgullosas a esas magníficas cajas de resonancia que son las tertulias subvencionadas y dónde solo estáis las dóciles, las mansas, las inofensivas, graznando frases del PSC y de Pujol, ¡nada menos!, mirad si sois dóciles en vuestro graznar, vociferando que catalá és qui viu i treballa a Catalunya como si fuese un regalo ser lo vuestro, lo envenenado…” (pág. 199).

15“Le cuento: [o filme] se titula Las bestias por nosotras, por mi madre y por mí, concretamente. No, no lo dice así, pone de excusa una fiesta popular que sucede a cientos de kilómetros de nosotras en un contexto donde cada kilómetro es un mundo. Tal vez no supo usted que cuando Tom Cruise rodó unos sanfermines en Sevilla se montó la de dios. Con esto no se ha montado mucho, porque no le importa mucho a nadie más que a un par de piradas en Galicia (ni siquiera a todo el mundo) y a nadie más fuera de allí. Las campesinas ni hacen cine ni van a verlo, ni dan premios, ni escriben en los periódicos ni financian nada, así que no les importan a nadie” (pág 290).

16“Cuando llegamos a las ciudades, nos convertimos en personas analfabetas, nosotras que veníamos con nuestra cultura oral, con nuestros usos, con nuestros conocimientos, con todo lo que conforma un ser humano y una comunidad, que de repente no servían para nada en ese nuevo contexto. Nada de lo que sabíamos servía de nada o, si servía, estaba prohibido o era inmoral o sospechoso: juntarse en la calle con las vecinas, apoyarse comunitariamente, hacer trueque, trapichear, reciclar.” (pág. 100)

17A sua posição como autora de Anagrama, como inteletual com projeção estatal, etc. nunca é objeto de reflexão.

18Por certo, sei de muitas labregas que vão ao cinema.

19Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026. Pág. 137. sublinhado e itálicos da minha responsabilidade.

20Eu faço parte das primeiras crianças que aprenderam a ler e escrever galego no primário.

21O adjetivo “ancestral” utilizado neste parágrafo traz a nós uma imagem estática da língua, do lugar, das pessoas, que sempre foram, são e serão assim. 

22A superficialidade do olhar que percebo naquilo que eu conheço (neste caso o rural galego) funciona como prevenção perante o resto da narrativa, fazendo-me duvidar da mesma. Ao tempo, a ocultação da autoria de Diaz Geada faz-me pensar em quê outras autoras foram ocultadas, silenciadas, nesta obra. 

martes, 2 de xullo de 2024

Corpo jazz: toda a luz está na música por Susana S. Arins



Como adolescente leitora de Julio Cortázar, tenho gravada na memória o relato El Perseguidor, aquele saxofonista de jazz levado do álcool e as drogas que se perde de si próprio na música. Lembro a leitura um pouco alucinada, pois era eu desconhecedora do jazz e os seus mundos de improvisações e estándares, e as visões metafísicas do Johnny Carter ficavam longe de mim. Desconheço se a Jackie Kay conhece este relato, porém a sensação foi a de ela escrever à contra. 

Kay coloca diante nossa outro génio musical: Joss Moody, trompetista. Escocês, negro, de família humilde, pretendido músico de jazz. Muitas papeletas para ficar à margem. Porém, Joss consegue fazer-se um lugar no mundo artístico e, quando morre, é saudado assim, como grande músico. As pessoas que o quiseram e as que o conheceram evocam a sua figura, ao mesmo tempo que jornalistas procuram a reportagem melhor sobre ele. Essa devera ser a essência da trama: o réquiem final, de amores e ódios, por uma pessoa que falece. A viúva a viver o seu dó, o filho a internar-se na orfandade, as amizades a esmiuçar pecadinhos de artista, a trabalhadora da casa a rejoubar das misérias conjugais dele. 

Dele ou dela. 

Porque o dia do falecimento do Joss faz-se público um feito privado só conhecido pola sua viúva: tinha corpo de mulher. E isso faz com que muitas das pessoas que o quiseram ou o conheceram duvidem da verdade que viveram com ele, que mudem a olhada sobre a pessoa, a sua música, as suas decisões. E faz com que abutres jornalísticos procurem rapina onde só há uma pessoa falecida. 

O livro organiza-se em capítulos de vozes variadas: as pessoas da vida de Joss (viúva, filho, amizades infantis, amizades adultas, mãe) e as pessoas da sua morte (forense, funerário, notário…) narram as suas convivências ou os seus encontros com ele. Têm protagonismo especial mãe e filho, ela a navegar o loito, ele a transitar a raiva. Outra voz protagonista é a da jornalista que procura escrever O livro sobre o Joss Moddy, ou a Josephine Moddy, em realidade. Partindo dessas narrações variadas as leitoras acedemos não tanto a uma visão poliédrica do que pôde ser a vida do trompetista, mas a uma visão poliédrica sobre as atitudes transfóbicas ou respeitosas da diversidade sexual na nossa sociedade. As personagens exprimem as suas impressões perante o descobrimento sobre o Joss e colocam diante nossa todo o catálogo de preconceitos e (in)sensibilidades que unha pessoa diversa pode encontrar no seu dia a dia. 

Joss Moddy só tem voz em um capítulo. Nele narra a sua própria morte. E o seu encontro coma música. A morte como transo, a música como transo. O transo sem corpo. Na música e na morte. 

Para mim este é um dos grandes acertos da autora. Em quanto (muitas d)as personagens divagam sobre qual o corpo do Joss, qual o seu nome, qual a sua identidade, ele define-se a si próprio como alguém que apanhou um corpo estándar, e fez dele a sua versão baseada na improvisação. Autêntico jazz.

São muitas as correntes e subtemas que recorrem este romance, que merece um leitura atenta e apaixonada: o labor dos meios de comunicação de massas, o contraste rural/urbano, as identidades nacionais, o racismo. 

A surpresa enorme para nós, leitoras, foi ler nos créditos a data de publicação da obra. Porque Jackie Kay escreveu esta maravilha noutros tempos que eram, como diz tanta gente, sem a visibilidade atual das diversidades LGTBIQ+: 1998, há bem mais de 20 anos. 

E deve ser mencionado o labor essencial das mediadoras que perseguem para nós estes textos. Neste caso, a tradutora, María Reimóndez, ademais do trabalho brutal de agalegar o texto para nós (em todos os sentidos), manteve o empenho em procurar editora galega para esta obra, ao considerá-la necessária no nosso repertório literário (concordamos). Este é também o labor das boas tradutoras. Essas são as perseguidoras. 


Trompeta, de Jackie Kay

Tradução de María Reimóndez

Hugin e Munin 2023

venres, 13 de outubro de 2023

Tornarse existencia exuberante por Brigitte Vasallo




A lingua, a fala

Póñome a escribir nun galego que non é; que procura, que aspira, que desexa… mais que non é. Unha fala no camiño, en transición; una fala reverberada en min que, coma o nawpa andino, non entende de pasado e de futuro, sinon que mistura todo, e déixase misturar, nese presente que son eu agora que falo, que escribo, e que seras ti, és ti, agora que lés. Un ti mais un eu que polo anaco que dura este texto, esta fala, compón un nós. 

Esta fala miña sae revelada como se revelan as partes alimenticias das castañas. Nace dunha arbore que ten terra e ten ceo, que ten orixen e ten devenir; nace recoberta de espiñas mais vai atopando o camiño cara o doce, cara o tenro. Ise camiño é un paso importante porque di da miña historia persoal e di tamén da nosa historia común. É un relato que ten raíces na terra e transita pola diáspora, pola perda, polo rexeitamento, e está indo agora, como as castañas, cara o tenro, de regreso ao seu fogar. É por iso que non quero correxir os meus textos que nacen revelados nesta fala, non quero pechar o meu decir incorrecto nas razós da correcion da lingua, porque a casa da lingua non será fogar si non lle deixamos facer o camiño de regreso, si non lle deixo o espazo pra irse revelando en min. En nós.

Eu son, coma a miña fala, unha galega que non é, que pudo ser mais non quiso. 

Son, tamén, una catalana que non é. Que quiso, mais non pudo ser. 

A diáspora vai moito máis aló da xente que marchou porque os tempos sociais e os tempos da suxetividade son moito mais longos e moito mais amplios que unha soa das nosas vidas. Nesa diáspora extendida, as que xa nacimos fóra somos pasado mais futuro misturado nun presente en tensión, en conflito. Cada verán, ao final das vacaciós que pasábamos na terra, as miñas avoas choraban a partida das fillas cara aló, un aló que pra min era un eiqui. E durante anos, agora xa o entendo, a miña nai chorou a miña partida cara un aló, tamén, que era o meu eiqui. Chorou a migración da filla que ela criou cara a filla e eu son. Chorou, especialmente, duas perdas: que eu non fora a galega que ela queria, e que eu non fora a muller que ela esperaba. 


Habitar a bastardía

Non fun galega porque non puiden selo. Porque no mundo da pureza binaria que habitamos, eu era unha bastarda, iso que en Barcelona se dis unha xarnega. Era… e son unha bastarda. Non entendia entonces que a bastardez é unha forma de existencia, é unha posibilidade incómoda, dura, solitaria as veces, mais chea, repleta. Unha posibilidade exuberante. Precisaba de pertencer e creín que a pertenza era única e que tiña que ser pura. Así que tentei de catalanizarme como tentamos tantas de nós: ser a boa bastarda, que é a bastarda a quen non se lle nota, a que renega do que é. E a lingua, que qué culpa tirá a lingua, istaba no centro. E eu que son multilingüe, que aprendín todas as linguas dos meus fogares, pensei que tiña que escoller entre falar catalán ou falar galego. Entre o pasado e o futuro, entre as raices e a enramada. No meu entorno, todas decidimos en base a mesma lóxica. Outras decidiron galeguizarse e vivir na fantasía heredada da terra deixada atrás, coma eu vivín na fantasia da terra de chegada. 

Mais a pertenza non a decide só unha mesma. Precisas do entorno, precisas da aceptación. E, coma en todos os procesos migratorios, a sociedade de chegada esixe un pagamento. A pertenza nunca é gratuita pras bastardas. Hai un prezo que pagas de por vida, que nunca acaba. En cada momento de tensión nacional, en cada momento de exaltación da pertenza, sae a nosa débeda, sempre impagada. As bastardas somos sospeitosas de traición, somos sempre postas en dúbida. E temos que ser, sempre, mais papistas que o papa, porque o luxo de criticar a nación é un luxo que só se poden permeter as recoñecidas como nacionais. As de verdade. 

Esta situación que nomeo non é unha forma da catalanidade: é a forma da pertenza. En Galicia, agora mesmo, son a filla pródiga que retorna e que a nai lle fai unha festa. Ben sei que hai que cuidarse das universalidades e que cada momento e cada contexto é específico. Mais sei, tamén, que podemos aprender das experiencias dos demais. E eu coñezo ben a experiencia da diáspora marroquina e o regreso das fillas pródigas. Vin o que pasa aló despois da festa. Vin o desprezo da diáspora retornada cara as fillas que cuidaron a casa na sua ausencia, a falla de agradecimento cara a xente que coidou o fogar pra que podamos retornar, e vin a débida tambén impagada que se lles exige as retornadas, a esixencia de que non se lles note a bastardez, de que sexan, tamén en orixen, mais papistas que o papa. 


Pero a miña posibilidade exuberante de existencia deume a rabudez, que isa, xa volo digo, heredeina de Galicia. Isas mesmas débedas impagadas, en orixen e en chegada, reveláronme a misma certeza que trataban de impoñerme: que non son. Que nin podo, nin quero, nin me deixan. 

Que eu, en resumen, non vallo pra papista: so vallo pra bastarda. 


Non se nace marimacho: chegas a selo



  Coma moitas marimachos, na miña infancia e adolescencia o tema nunca foi con quen quería deitarme eu, sino quen era eu. Qué era eu. Dende que me lembro os pronomes que me nomean son oscilantes, vacilantes, dubidosos. No mellor dos casos, “neno, perdón, nena, perdón, neno, perdón”. Teño memoria de ser chamada lesbiana (no mellor dos casos) moito antes de coñecerlle o significado a palabra e moito antes da primeira consciencia de desexo. Teño lembranza da correccion de xénero dende que teño memoria. Fun, involuntariamente, una xarnega do xénero. Nena de mais pra ser neno, neno de mais pra ser nena. E do mismo modo que a palabra xarnega deume una posibilidade de existencia exuberante, a palabra marimacho tamén ma deu. As veces é mais doado ser o insulto que non ter nome, porque dende isa existencia social que che da o nome, aínda a inxuria, podes construir e construirte. Hoxe poderia nomearme de moitas maneiras: poderia dirme non binarie mais manterme na palabra maldita é unha decisión política. Non é un camiño único, pero é un camiño. E no caso das marimachos, temos una posibilidade excepcional, porque en nós cadran dous “defectos” de xénero: o defecto de ser muller e o defecto de ser unha muller “defectuosa”.



O queer que habita en nós


O queer como concepto quédame lonxe mais non así o bastardo, isa mistura de xeitos inconvenientes, improcedentes e incluso ilegais. A bastardez non é unha forma, non é un resultado: é unha imposibilidade feita posible que se escapa entre os dedos no momento mesmo de existir. A bastardez é isa incomodidade, ise desencaixo, é a tensión e o impulso que sentimos de saír de aló, de encaixarnos, de desaparecer, de disimularnos. Nese instante habita un coñecemento da pertenza que, como o traxe do rei espido, só se pode ver dende fóra, e só se pode ver si se mira. 

Non coñezo aínda Galicia, mais teño unha intuición feita pregunta que non pretendo responder dende a pregunta mesma. Pregúntome si existe unha bastardez no tránsito da aldea a cidade, no tránsito espacial pero tamén nos marcos de referencia, de formas de vida e de formas de pensarnos, de relacionarnos. Sei o que lle pasou a miña familia nise tránsito que foi tamén un tránsito de lingua e de formas de xénero, e pregúntome si existiu aló unha incomodidade, un desencaixo que non souvemos atender como posibilidade de existencia. E pregúntome canta da violencia que vivimos na casa estaba relacionada con ise desencaixo. E pregúntome si temos aló, aínda hoxe, información trascendente sobre cómo se fixo a construcción dunha modernidade que nos afogou, que nos violentou, que nos fixo mudar a formas que nin escollimos, que nos fixo resignificar o insulto porque a miseria era aínda a mellor posibilidade que tíñamos a man.


venres, 26 de xuño de 2020

Aguilhão a se nos cravar nas tetas, por Susana S. Aríns



Quando a Através editou novamente o Scórpio, comprei, como subscritora fiel que sou, mas admito que sem lê-lo novamente.
Evito desde há tempo a re-leitura de autores que na primeira mocidade adorei. Evito-o por medo a dececionar-me. Formei-me completamente no cânone hegemónico-oficial e, mesmo a questionar-me muitas cousas, só me tornei plenamente consciente disso ao mergulhar no feminismo. As aprendizagens que este me ofereceu puseram de pernas para o ar muitas das minhas seguranças éticas e estéticas, virando totalmente o rumo das minhas escolhas literárias.
Mas chegou o Dia das Letras Galegas e ele é o meu patriarca reintegrata, seique, e disse: vou ler. Pouco lembrava do conteúdo do Scórpio. Na realidade, esquecera totalmente. Mas mantinha na memória a leitura gozosa, feliz, impactante. Temia reabrir o volume. E vou, desde já, admitir: tinha razões para isso.
Porque, no que respeita à imagem das mulheres, ao seu lugar na narrativa, à sua funcionalidade no desenvolvimento na trama, é impossível um romance ser mais canónico e hegemónico e oficial. E para mim foi já nem sequer gozoso, mas custoso de ler.

Scórpio desenvolve a sua trama entre os anos 1910 e 1938/9. Segue a vida do protagonista desde o nascimento até a morte e, na segunda parte da obra, aparece como pano de fundo o golpe fascista de 36 e a guerra. Já por isto muitas qualificam a obra de épica, de narrativa histórica, de romance de herói. E eu procurei isso nesta minha segunda leitura para dar com um folhetim, autêntica literatura rosa, pois o motor do textos deixam de ser as grandes decisões políticas ou os grandes momentos históricos para serem os amorios do protagonista. A intriga está em sabermos, descobrirmos, ou nem isso, quais e por que surgem as amantes de Rafael, se manterá o relacionamento com a Chéli, se lhe será infiel com a Cleo, se houve algo com a Eugénia.
Nomear é apropriar-se de algo. É certo que os protagonistas têm cadansua alcunha, Scórpio e Sagitário, mas os nomes escolhidos nunca anulam ou impedem os nomes próprios, Rafael Martínez Pinheiro e Jorge Bermúdez. As mulheres que aparecem na narrativa, fora as da intimidade ferrolã, têm todas nome escolhido polos protagonistas. De poucas delas chegamos a saber o nome próprio; da maioria, nunca. Damos com elas só através do olhar masculino e por isso mesmo só chegam a nós se capacitadas para seduzir ou gostar aos homens: Cleópatra, Helena, Afrodita, Salomé, Artemisa… nomes de claro valor simbólico sempre associado à beleza. Aquelas que pouco interessam aos homens fisicamente, nem nome têm: “Som duas madrilenas que estudárom juntas. Umha parece-me insignificante como mulher, ainda que demostra estar mui ao dia em matéria de poesia espanhola contemporânea. A outra é Artemisa. Nom lhe pugérom esse nome no baptismo, desde logo; mas eu designei-a com esse mitológico alcume antes de conhecer a sua identidade, e agora, quando falamos dela, alomeamo-la assi. Mesmo lho temos confessado a ela própria, e nom lhe pareceu mal, a julgar pola sua reacçom. É umha rapariga mui séria, mas nom adusta, e tam gentil e lançal que a mim me move a admiraçom, e me evoca a esbeltez divina da Diana Caçadora. No que diz respeito à inteligência é, evidentemente, a primeira entre todas as mulheres que ficam em pé, quero dizer que nom fôrom eliminadas do curso. Com diferença à sua companheira, amostra nas “trincas” umha implacável objetividade crítica que nom se embrulha em concessons corteses.” (pág. 147/148; itálicos meus).

Como indicamos antes, os nomes escolhidos polos protagonistas do romance para as mulheres que os acompanham têm um claro valor simbólico, tanto como transparente. As mulheres ferrolãs da vida de Scórpio fazem parte do mundo angelical. Aurélia, a mãe, e Chéli, a noiva/irmã eterna respondem a esse modelo ponto por ponto. Nengum pormenor foge do papel do recato abnegado, da sombra acompanhadora do herói da trama. O rol virginal da Chéli até fai duvidar todas as demais personagens se exerce realmente de namorada do protagonista1.
As demais, excluindo mãe e irmã, zás, mulheres diabólicas e/ou ideais. Belezas perfeitas, admiráveis, como a Artemisa. E mulheres más. Rafael Martínez Pinheiro está construído como personagem distinto e distante, de quem nunca sabemos se sente ou se os fatos que lhe acontecem na vida passam realmente por ele. Neste sentido, é-nos colocado como um homem que se deixa levar, que se deixa fazer. E aparecem aí as femmes fatale, para levar Scórpio por caminhos que ele nunca trilharia: “Nom há dúvida de que Eugénia foi a sedutora, e Scórpio, o seduzido. Esta mulher de vinte e três anos, tam misteriosa, e a quem o mesmo dia em que Cleo regressou inesperadamente, saudei eu na Porta Fageira, quando se dirigia à sua casa, e eu voltava de um passeio pola Ferradura, apresenta-se-me agora ao jeito de umha verdadeira mulher fatal, dessas sereias que o cinema nos fornece como umha sublimaçom entre diabólica e feérica da femineidade, para compensar-nos de algum jeito, aos pobres homens, aos pobres moços coma mim – das frustraçons eróticas que nos fostregam, entre a grosseira do amor mercenário e as reservas mexeriqueiras das nossas companheiras de status social2.” (pág. 34)

O papel que as mulheres têm na narrativa contrasta com o momento das mulheres no contexto social da época. Nas décadas de 20 e 30 do século XX a universidade galega começa a receber as primeiras estudantas. É a época da Residência de Senhoritas em Madrid e das chamadas “sinsombrero”, mulheres que, como Maruja Mallo, decidiram vestir seguindo novas modas e optaram por recusar-se a levar a cabeça coberta, insubmissas às normas sociais3.
A presença das mulheres na Universidade é refletida na obra, mas isto está longe de ir em paralelo com o seu rol na narrativa. Aparecem aí, nesse novo espaço conquistado, mas para o mesmo de sempre: dar prazer estético, sensual e sexual aos homens. Assim como os moços iam a Santiago para estudar, divertir-se, andar em literaturas e política, as moças só iam passear e procurar namorado. Nunca falam daquilo que aprendem nas sessões académicas, nunca opinam sobre política. Aparecem como simples comparsas da vida masculina.
No romance aparecem mais mulheres que as universitárias a relacionar-se com os protagonistas. Aparecem-se também mulheres das camadas populares e mulheres prostituídas, que nalguns casos acabam por ser as mesmas.
No tempo de estudantes os protagonistas visitam e galanteiam três raparigas, Susa, Rosa e Luzia4, das quais gozam até onde querem, mas que já desde o início aparecem responsabilizadas por esse relacionamento: “todas atirando ao fino, atirando aos estudantes, que temo que qualquer dia os artesaos do bairro nos dem um desgosto” (pág. 75). Mas eles põem-nas de parte quando deixam de convir-lhes e assim o recrimina Susa a Sagitário no capítulo XLII.
No frente de guerra a presença das mulheres é limitada às soldadeiras, assim conceptualmente percebidas. Mulheres que andam nesse mundo só para satisfazerem desejos e necessidades masculinas. Faz-se diferença de classe entre elas: as cortesãs, elegantes, mesmo distinguidas, e as hetairas, de rua: “Neste Madrid sitiado nom todo é guerra. Ainda há homens que se deitam com duas mulheres. O amor exercita-se livremente, as hetairas peripatéticas que se ofertavam ao viandante nas ruas que desembocam na Gran Vía, já actuam nesta sem temor à polícia. Nom as grandes e formosas e elegantes cortesás que frequentam os mais distinguidos cafés, como a minha vizinha do Negresco, senom as humildes trota-ruas que ontem se agachavam nas sombras, controladas ou contidas pola política urbanística e policial e o vago ideal republicano de aboliçom da prostituiçom.” (pág. 172). Pensemos que o protagonista é contemporâneo de Clara Campoamor e as suas luitas feministas.

Tratam como mulheres prostituídas aquelas que usam aproveitando-se das necessidades económicas delas, ao mesmo tempo que se autorrepresentam como benfeitores em vez de abusadores: “…tem resolvidos os problemas da sua libido com o uso e desfrute de umha boa moça do país, umha viúva nova com dous filhos, a quem começou protegendo desinteressadamente, e que lhe agradece deste jeito a sua desinteressada protecçom” (pág. 233; itálicos meus). Mulheres vistas como campo de batalha, terreno, como o bélico, a conquistar e do que tomar posse, exceto se for a ideal ou a angelical: “Desejava e possuía outras mulheres, mas a amada só me inspirava ternura.” (pág. 232)

Durante a Guerra Civil espanhola as mulheres mobilizaram-se na defesa da República, sobretudo dentro das fileiras comunistas e anarquistas. Mas nestas mulheres pouco reparam as personagens, por só procurarem nelas objetos de desejo sexual. Vem-nas, mas sem dar-lhes importância. Contrasta assim como é mencionada a presença anónima delas nas manifestações com como é descrita em pormenor a presença das cortesãs de café: “Desde mui cedo começárom a afluir obreiros, numerosas mulheres, elementos das classes de tropa e muitos guardas do corpo de Guarda ao que pertencia o militar assassinado” (pág 155; itálicos meus). Vem-nas, mas tratam as suas ações de maneira paternalista, como neste trecho, único em todo o romance em que é utilizado o qualificativo de nenas: “Os cafés estám cheios. De quando em quando entram neles umhas moças que levam umha pancarta com letreiros e desenhos patrióticos, e representam umha espécie de apropósito excitando os homens a alistar-se para combater na frente. Nós, enfiados nos nossos uniformes e com o aspecto marcial de veteranos defensores de Madrid, permanecemos mui tranquilos nos nossos assentos, sorrindo talvez às rapazas que recitam os seus papéis. Mas alguns paisanos nom demasiado maduros sentem-se inquietos como aludidos pola representaçom, e aliviados quando as nenas, que som da CNT ou da UGT, ou da Uniom de Mulheres Antifascistas, se retiram ao fim para ir com a sua música a outra parte.” (pág. 208/209)

Tal e como está articulado o romance, é certo que toda a diégese gira em volta da figura de Rafael Martínez Pinheiro, Scórpio. Os capítulos consistem na realidade em depoimentos de personagens diversas que ou foram testemunhas de factos que afetam a vida dele ou opinam sobre o seu carácter e forma de ser. Porém, há espaço para outras narrativas: as palestras universitárias, os planos de futuro dos estudantes, as intrigas políticas, a vida cultural. E mesmo assim, quando aparecem depoimentos femininos reduzem-se ao único aspeto do atrativo do protagonista e a vida sentimental e sexual dele5. Neste sentido o romance mal supera o popular (e simples, se bem que significativo) teste de Bechdel.

As mulheres tomam a voz poucas vezes. Porém, devemos ser cuidadosas na leitura. A aparente polifonia do romance é isso, aparência. Na realidade é a voz autorial a governar todos os depoimentos, o Salgueiro, que é quem está, de dentro, a construir a narrativa. As personagens carecem de vozes próprias, mas as que ele imagina que teriam: “Essa mulher que fala, nom fala exactamente como o faria umha mulher real da sua condiçom” (pág 60). E tanto! Isto faz com que as vezes que ouvimos as personagens femininas atendamos a vozes tingidas de androcentrismo. Mulheres a ver o mundo como o olharia um homem. Na realidade, mulheres a olharem-se a si próprias como um homem o faria. Como o Salgueiro faz.
O capítulo LX, em que fala Helena, é boa mostra disso. Começa assim: “As minhas medidas som: colo 35, costas 34, tórax 84, cintura 60, quadris 90, talha 1,65. tenho dezanove anos, estudo terceiro de carreira. // Como som? Bem, no párrafo anterior já se diz como sou” (pág 106). Helena exerce como Narcisa a admirar-se no espelho, e duvidamos se é ela realmente a narrar-se ou um Salgueiro que está a espiar polo furado da fechadura. Admite ser boa estudante e com qualidades intelectuais, mas todo o capítulo é um descer detalhado polo seu corpo e a capacidade deste para seduzir homens: “O meu perfil é bastante grego. Seria de umha seriedade algo académica se os meus olhos e a minha boca nom fossem como som. Aqueles, dous meninhos escachapedras; esta umha rosa de especioso sorriso escarlata. Mas a minha cabeça é sólida sobre um colo de alabastro. E como que ainda estou perante o espelho, estou vestida -nom som umha perversa voluptuosa-, nom podo descrever muito mais da minha pessoa, embora o azougue registe um busto alto, breve e agudo, e uns estreitos, mas alegres quadris” (pág. 109; itálicos meus).

Outro momento da narrativa destacável neste sentido é aquele dedicado à Cleo/Júlia e às suas pernas. Enquanto o lia pensava que o direitor do filme Instinto Básico tinha lido o Scórpio. Novamente a mulher como objeto de desejo masculino e outra vez ela a ver-se a si mesma gozada de homens, como se para todas as mulheres fosse esse o objetivo (capítulo XLI).

O mais significativo para mim, é pensar que este é um romance de maturidade, uma obra na que o autor reflexiona criticamente sobre os fatos históricos, tão marcantes, vividos na sua mocidade (república, galeguismo, golpe de estado, guerra, repressão…) com a perspetiva dos anos passados e acontecimentos posteriores. Deita uma olhada crítica sobre aqueles anos e o labor dele e os companheiros nesse tempo. E não cabe, nesse olhar crepuscular nem a primeira reflexão crítica sobre o lugar outorgado à mulheres, sobre as mudanças nessas décadas, sobre o desprezo que manifestam esses moços para elas. Porque é uma reflexão ausente da sua vida. Como em tantos senhores.
Enfim, o romance Scórpio representa bem a literatura canónica masculina. Combina todos os recursos que tem na sua mão para invisibilizar as mulheres como protagonistas, reduzi-las a tópicos, negar-lhes a voz e conceptualizá-las como simples objetos de desejo e meios para satisfazer necessidades sexuais masculinas.

Ricardo Carvalho Calero: Scorpio,
Através editora


1O capítulo LXIX da primeira parte, em que é narrado o dia do casamento, é boa mostra desta imagem da Chéli.
2Veja-se como é naturalizado o recurso a prostitutas como atividade “natural” entre os homens.
3“E tanto que é mostra de rebeldia: Também é negra a sua melena, que, infelizmente, usa, como todas as mulheres hoje, cortada à la garçon. Como lim nuns versos publicados en Blanco y Negro, creio que de Cristóbal de Castro: Tu, entre todas, las del día / con melena a la garzón, / eres la anfibología / andrógina de Platón.” (pág. 29)
4A mais nova de só quinze anos.

5Poucas vezes as mulheres fornecem informações para além do plano sentimental, autenticamente políticas, mas elas vêm referidas indiretamente, por exemplo através de Barreiro: “Um tio de Artemisa é tenente coronel da Guardia Civil, e a nossa companheira sabe por ele mais do que dim os jornais.” (pág. 153)