Que fazermos com aquilo que chega a nós como oferenda sabendo-o sacrifício doutrem? Que fazermos com o privilégio que gozamos através da família, da comunidade, sabedóries da sua essência privilegiada? Que fazemos com a nódoa na árvore genealógica, com essa tia, esse trasavô, que gostávamos de desaparecer do álbum familiar, do recordo?
Entre outras cousas, escrever.
À Gabriela Wiener pesa-lhe o apelido. O Wiener teutão que nada a ver tem com a sua pele racializada, como o seu sotaque peruano. E confronta esse peso pesquisando na história familiar. Como certa autora na obra seique1, mergulha em arquivos, consultas a expérties, bibliotecas, museus, testemunhos pessoais, hemerotecas, balcões de cartórios notariais, para saber mais da figura de Charles Wiener, caçador de tesouros pagado pola França que quase descobre o Machu Picchu mas não e que levou para Paris uma enorme coleção de esculturas indígenas. Não duvida Gabriela Wiener em colocar na porta de entrada à sua narrativa aquilo mais incomodante do seu antecessor: “La imbecilidad artificial del cuerpo estaba unida en los peruanos a la imbecilidad fáctica del alma”, CHARLES WIENER2. Eu, que entrei no livro sem lhe saber interiores, voltei atrás, por comprovar se o apelido era o mesmo. Era!
Que fazer com o totem quando dás com o racismo no livro de seu que é bíblia familiar, tesouro que entrega o pai às filhas?
Gabriela Wiener constrói em Huaco retrato3 uma reflexão sobre a identidade, sobre o colonialismo e as suas consequências, sobre os segredos familiares, sobre a construção das famílias, sobre es ninguém da história e os amos da História: “Desde que vivo en España me encuentro por lo habitual com gente que me dice que tengo «cara de peruana». ¿Qué es la cara de una peruana? La cara de esas mujeres que ves en el metro. La cara que sale en la National Geographic. La cara de María que vio Charles. // Mi cara es muy parecida a la del huaco retrato. Cada vez que me lo dicen me imagino a Charles moviendo el pincel sobre mis párpados para quitarme el polvo y calcular el año en que fui modelada. Un huaco puede ser cualquier pieza de cerámica prehispánica hecha a mano, de formas y estilos diversos, pintada con delicadeza. Puede ser un elemento decorativo, parte de un ritual u ofrenda en un sepulcro. Los huacos se llaman así porque fueron encontrados em los templos sagrados llamados huacas, enterrados junto a gente importante. Un huaco retrato es la foto carnet prehispánica. La imagen de un rostro indígena tan realista que asomarnos a verlo es para muchos como mirarnos en el espejo roto de los siglos”4.
Charles Wiener conseguiu, no último terço do século XIX, financiamento do governo francês para viajar ao Peru na procura das suas cidades sacras. Na expedição espoliou enterramentos e ruínas para levar, à Exposição Universal de Paris, centos de obras artísticas e múmias. O fato de eliminar o contexto arqueológico durante o espólio, faz com que as obras sejam difíceis de datar, de estudar associadas a um espaço, de verem outorgada uma autoria, mesmo coletiva. Eis a metáfora: o Charles Wiener contribuiu a apagar a identidade dos povos indígenas de que procede, também, a sua tataraneta.
O caso é que o Charles Wiener não foi bem aceite na comunidade científica francesa. Era estrangeiro de origem judeia, e muitos o viam como um intruso oportunista. Os seus trabalhos foram postos em dúvida por colegas da academia, o que faz possível duvidar da veracidade de toda a sua estória. Que é verdade e que mentira? Seique todo e nada. A dúvida chega à protagonista da narrativa. A estória familiar afirma serem descendentes desse Wiener que, de estadia na vila da trasavó Maria, foi embora deixando-a prenhe. E assim se herdou na família o orgulho da ascendência europeia, da ascendência intelectual. Porém, a autora não consegue confirmação papelar desses feitos.
Durante a leitura da obra do patriarca, Gabriela encontra um parágrafo em que o trasavô resgata uma criança da má mãe índia e decide levá-la com ele a Europa. Procura também a história desse meninho. Acabaria em um desses museus humanos tão à moda no Ocidente racional? Seria criado na casa polo trasavô Charles? Seria criado ou filho em adoção? Terá descendentes? Porém, outra vez a ausência: “Riviale ya me ha negado tres veces. Aquí me tiene pero no me quiere. Desclasificada. Mal atribuida. No necesariamente auténtica. Otra falsa hazaña. Estoy muy lejos de ser una descendiente a su medida, útil para sus libros. Si yo soy dudosa, el otro indio es un personaje literario, algo un poco peor. «Descubrimientos imaginarios», llama el académico a los fraudes marca Wiener. No hay niño perdido, ni encontrado, ni inventado, ni borrado. Ni familia que lo niegue ni nada a qué agarrarse. Ahora soy yo la que estoy perdida. Este es el final del callejón sin salida. (.../…) No hay tampoco la seguridad de algo así como un apellido. Nada más que el arbitrario y maníaco uso de un nombre al lado de otro nombre arbitrario. No quiere decir nada y quiere decirlo todo. Un amigo historiador dice que los apellidos son una excusa para explorar. Y aquí estoy, sin una puta idea de nada”5.
Gabriela Wiener não isola as suas pesquisas em um compartimento estanco destinado à história ou à literatura. As suas procuras e achádegos chegam a nós entretecidas entre as suas vivências e os acontecimentos familiares. Deve viajar a Lima para a despedida do pai, falecido, e deixa em Madri a família própria, o homem com que está casada, a noiva com quem também convive e a filha que cuidam entre todes. Enleado na pesquisa sobre as origens e a gestão do luito, aparece-se o monstro das relações familiares, de parelha(s): os segredos, os silêncios, a incomunicação. A sensação que tem a protagonista de boicotar as suas relações tem que ver com essa falsa atribuição de identidade? Tem ela algo para lhe cantar na face ao Charles do passado se ela mesma mente às suas parelhas, se guarda segredos do pai? Pode recriminar ao Charles as crianças abandonadas ou mercadas quando ela mesma tem uma irmã nascida noutra casa?
Pode que, perante o incômodo do passado, a ausência de dados, os apagamentos da história, as contradições do eu presente, só reste escrever… un Huaco retrato.
Ou uma língua estrangeira…
Andava a senhora crítica recém saída da leitura do Huaco retrato e caiu n’A língua estranxeira, de Brais Lamela6. E vê-se incapaz de fazer um leitura dissociada das duas obras, pois encontra nelas o vidro e o azougue do espelho dos séculos.
Damos outra vez com o fio dos espólios arqueológicos. Neste caso o fundo Barreiro-Müller do museu da cidade. Uma das personagens viaja às terras da Colónia com a finalidade de corrigir os erros do passado: tenciona dar nome e contexto às figuras roubadas, que a museologia atual condeia ao armazém por faltarem-lhe dados e informações científicas. Viaja a parelha da museóloga com o seu próprio projeto de pesquisa: comprovar a existência e dar com os restos de Nova Galicia, um projeto colonial e migratório de um filantropo galego de inícios do século XX. Atendemos às pesquisas das personagens ao tempo que entramos na sua intimidade de parelha, em um jogo paralelo ao da Wiener. As pesquisas, em aparência académicas, não estão desligadas do pessoal.
Em realidade, o protagonista inventou o projeto de pesquisa para poder visitar a moça, e acompanhamo-lo em uma viagem de carro, com o Carlos, guia local, não sabemos se à colónia ou às suas inseguridades. “En cada solicitude de finaciamento ideara unha lóxica diversa para xustificar o meu proxecto, que variava estratexicamente de acordo coas prioridades de cada institución: quero contar a historia de como un grupo de labregos pertencentes a un pobo colonizado tornaron eles mesmos em colonizadores (calculado, oportunista, autocompasivo); quero furgar nunha ferida incómoda na história do meu pobo (afectado, performativo, melodramático); quero estudar unha experiencia de colonización trasatlántica que non se axusta aos nosos modelos habituais para describir a nosa emigración (académico, aseptico, aparatoso); quero reivindicar unha descoñecida epopea alén mar (imperialista, apoloxético, europeo); quero completar a segunda parte dun tríptico sobre a paisaxe colonial (indulxente, endogámico, autorreferencial)”7. Faz boa parte de todo isto Brais Lamela. Porque o interessante da sua narrativa é a escolha das vozes, que abrirão diante nossa as perspetivas que coloca no seu retranqueiro (ou cínico, quem sabe) protagonista. Ele é o altifalante do incomodo perante a herança não desejada, e com a que não sabe que fazer, como atuar: “A visita debeu durar máis do esperado. Na miña cabeza seguen a resoar as palabras da muller: devolverannos o que é noso, algún día? Agora a xustiza deunos a razón, repetiu a muller, os tribunais internacionais pronunciáronse ao noso favor, pero que importa xa? Seguen sen querer devolvernos as cousas, apelan a todas as instancias, e cando devolven algo, devólvennolo roto. Devolvéronnos algún documento, si, pero devolvéronnolos rotos, non queren que se saiban as cousas, por isso só nos devolven papeis rotos”8. Quen deve devolver é o Museu da moça, é o Estado que lhes paga as viagens.
O protagonista viaja acompanhado de Carlos, um guia local que nos oferece a imagem que tem do turismo ocidental, das perdas e danos na sua cultura, das agressões ambientais que está a viver a sua terra (monocultura da soja, lumes, contaminação química). A moça escuitamo-la através das fichas descritivas, em aparência técnicas, que elabora das esculturas indígenas sobre as que pesquisa. E no meio destes rios de vozes, as cartas do Escribano, chegado da Galiza para super-visar a medição do lote de terras concedido ao seu padrinho, o filantropo. O Escribano acompanha-se de um Fotógrafo, e parte das fotografias que faz na viagem complementam, ou não, o texto do romance. No Escribano escuitamos a voz da metrópole: “No camiño de volta, despois de deixar os cabalos na corte, parolamos o Fotógrafo e mais eu sobre as xentes que atoparamos no Lote Nº 4, tan próximas ao Estado de Natureza que describiron os antigos filósofos. Como é, preguntaba o Fotógrafo, que deixamos de vivir así, igual que os peces no océano ou os paxaros no aire, igual que os nenos? Sen querer revelar canto me amolaran a min as argucias do condenado Cacique, asegureille que tamén eu admiraba eses hábitos primitivos, que aínda se apreciaban bem nos rústicos da miña terra. Pediume daquela o Fotógrafo que lle falase da miña patria. Exercín o mellor que puiden os meus dotes de cronista, abondo deficientes, para describirlle os ritos simpáticos dos labregos do noso país, meu padriño, que nas súas supersticións e inocencia tanto me lembran, por veces, os indios de aquí.9”
A través da crónica do Escribano chega a nós a voz ventriloquada do Fotógrafo, que a cada dia se interna mais nas terras onde vivem os povos originais e a cada se relaciona mais com eles, ao ponto de erigir-se, dentro da Colónia, no primeiro defensor dos seus direitos e dignidade. Isto implica a sua passagem de Fotógrafo a Louco.
As correntes cruzadas que provoca esta polifonia narrativa, junto com os fundos a negro que som os borranchos que obstaculizam a leitura, coloca-nos às leitoras na mesma incomodidade do protagonista. Se o incomodo para Gabriela Wiener era a fenda na árvore genealógica, em nós a fenda está na identidade social e política, na construção da pátria. O protagonista visita o Museu da Colónia, onde ficam alguns documentos, poucos, daquela Nova Galicia. “Recibo un libro das súas mans fibrosas. É un tomo pesado, de tapa dura. Porén, dentro as páxinas son finísimas: papel biblia. Un obxecto sagrado” 10. É o poema épico Os Eoas, de Eduardo Pondal, a quem Lamela outorga, acertadamente, o rol de alfaia dos colonizadores.
Na reflexão sobre esta obra, o protagonista afirma: “Nada lle acae tan ben ao xénero épico como o nome próprio, supoño: desde a antiga Grecia, os nomes, anoados aos seus epítetos, son o corazón da épica, os nomes dos homes. Cal sería pola contra, o xénero dos sen-nome?”11. Pratica a contra-épica Lamela. Condena as pessoas e os lugares ocidentais, na sua narrativa, ao anonimato. O protagonista não tem nome, a moça não tem nome, o escrivão é Escribano, o fotógrafo, Fotógrafo; Carlos e indígena. Só ele tem direito a nome. Ou Ramón Gaspar, dono, local, de um hotel. Acontece o mesmo com os lugares, supomos que os protagonistas vivem em New York12, mas nunca é nomeada a cidade. Supõe-se que o rio grande que domina a narrativa é o Paraná e que os povos originais seja guaranis, mas nada tem nome. Não surpreende que as pessoas locais, as ninguém, não tenham nome, mas choca ao ler es nosses sem ele. Combinado com este recurso dá-se aquele que oferece título à narrativa: as línguas, a incomunicação, a impossibilidade (ou não) de nos fazer entender, a confusão. Entre o barulho das aves a cantar o dia todo e o estrondo da tronada, as pessoas nunca conseguem dizer. O silêncio domina as noites de insónia e as viagens de carro. A pausa, a lentidão da resposta, é semelhante à daquela pessoa que tem que falar traduzindo o que na sua cabeça nasce noutra língua. O protagonista cuida-se de lembrar-nos que aquilo que narra foi vivido noutras línguas: “Estás a pensar na túa moza?, pregunta Carlos. Non te preocupes, seguro que damos retornado a tempo. Nunca choveu que non escampara. // De novo, a súa expresión non é exactamente esta, pero decido traducila deste xeito, aventuro as súas equivalencias no meu idioma natal.”13 . Ao tempo, aparecem sempre as mudanças e interferências das línguas nativas. É nesta corrente, que adquire importância o Nenoque o Escribano sequestra em uma das suas incursões (como o Charles de Huaco retrato) e de quem tenta obter, ao mais claro modo extrativista, a sua língua para a construção de uma gramática.
N’A Casa do Amo14, María Reimóndez animava-nos a rever a tradição colonial e racista que como corrente subterrânea percorre a nossa literatura e revisava, entre outros, o tropo da emigração épica a América, ou da épica migratória. Nesse sentido, A lingua estrangeira é o livro que necessitávamos. Revisita criticamente a nossa história migrante e obriga-nos a passar o incomodo de que o guia do museu das Colónias pense que partilha conosco o seu orgulho racista. É um livro gonço, como somos nós no mundo, dacavalo entre a subalternidade e o poder, segundo onde e como.
A voz de Gabriela Wiener fala desde a incomodidade de descer de um passado que a nega no presente. A obra de Lamela coloca-nos em espelho um passado que negamos no presente.
Gabriela Wiener: Huaco Retrato.
Penguin Random House 2021
Brais Lamela: A lingua estranxeira.
Editorial Galaxia 2026
1Risos da crítica literária que se cita a si própria, mas a verdade tem un caminho. Sanches Arins, Susana: seique, Através Editora 2015.
2Huaco retrato, pág. 7, citação inicial da obra.
3Wiener, Gabriela: Huaco retrato, Penguin Random House 2021.
4Huaco retrato, págs. 60-61.
5Huaco retrato, pág. 126.
6Lamela, Brais: A lingua estranxeira, Galaxia, 2026.
7A lingua estranxeira, pág. 180.
8A lingua estranxeira, pág. 146.
9A lingua estranxeira, pág. 119.
10A lingua estranxeira, pág. 210.
11A lingua estranxeira, pág. 211. Esta visibilização da interpretação evidencia o modo colonial de escrever as américas. Nas crónicas (penso em Bernal Díaz del Castillo, para a Espanha, Pêro Vaz Caminha ou o piloto anónimo de Vasco da Gama para Portugal), as vozes des outres eram narradas na língua da metrópole, ocultando, quase sempre (a excepção da figura da Malitzin), que se tratava de conversas, discursos, respostas mediadas desde outra(s) língua(s).
12Um New York imerso nas políticas antimigratórias de Trump, o que coneta a reflexão sobre o passado com a contemporaneidade mais imediata.
13A lingua estranxeira, pág 99
14Aqui a recensom da primeira edição: https://www.asega-critica.gal/2024/07/nosoutras-no-espelho-do-amo-nosoutras.html



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