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Amosando publicacións coa etiqueta romance. Amosar todas as publicacións
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xoves, 25 de abril de 2024

Cegadas polo sol, iluminadas pola poesia por Susana S. Arins



Três páginas me levou. Três páginas de leitura e já andava eu absolutamente submersa no novo romance de Audur Olafsdóttir. Admirada fechei o livro, admirada da capacidade da autora para levar-nos por uma história em aparência mínima, em realidade filosófica, na verdade quotidiana, em realidade tão complexa e simples como a luz e a escuridade. 


Dỳja, parteira descendente de parteiras, ajuda a nascer crianças no pior do inverno islandês, quando a luz é pouca e irisada em auroras boreais. Ao tempo, faz por reorganizar a sua vida, é dizer, os manuscritos que a tia-avó Fífa lhe deixou em herdo, uns textos estranhos, caóticos, em que mistura a história das parteiras (e o parteiro) islandesas com reflexões filosóficas sobre o sentido da vida e a mudança ambiental. 

A protagonista exerce de narradora, em um presente que nos faz sentir ao seu carão nos poucos dias que a acompanhamos. Entramos com ela na sala de partos, no apartamento atestado de mobílias e trastes em que vive, no fundo dos textos da tia que relê e anota. Entramos na sua cabeça e no seu processo de pensamento e reflexão: vemos como uma ação mínima provoca a dúvida, a descoberta, o achado da frase, a compreensão, ou não, do fenómeno em que não estávamos a pensar, e como esse fio de pensamento leva a outro e a outro e vemos crescer perante nosoutras urdime e trama, e os fios são de cores e acabam por desenhar um tapete, uma madonna aleitadora, a verdade sobre a luz. 

Uma dessas leituras canónicas veio-me à memória enquanto lia: El árbol de la ciencia, de Pío Baroja. Pouco lembro, mas sim uma palavra: ataraxia. O protagonista, médico, vive em um estado de amargura existencial e fastio que lhe faz sentir a vida como algo inútil, incessário, invivível. 

Audur Ava Olafsdóttir escreve uma resposta ao Baroja, sem o conhecer de nada, damos por feito. Muda o médico por uma parteira, ele por ela, o que sana pola que acompanha. E muda a amargura existencial dele pola certificação da insignificância do ser humano combinada com um fundo amor a cada criatura (quando menos no momento da nascença) dela, pola curiosidade infinda dela, pola procura da beleza dela, pola preocupação polo planeta dela, polo enorme sentido do humor dela. 

Surpreendi-me a rir mais de uma e duas e três vezes durante a leitura. 

O estilo da narrativa combina o tom bíblico e versicular de muitas afirmações da narradora, as frases feitas construídas como aforismos, o recurso à poesia, às listagens (de palavras, de cousas para fazer, de nomes, de músicas), aos dados estatísticos. O resultado é a sensação de caos que pretende reproduzir o modo de pensar da tia Fífa. 

Mas não há caos nenhum na construção da obra. Toda ela está recorrida por la família léxica da luz e a escuridade, que dá unidade ao conjunto e liga umas temáticas com outras: dão a luz as mulheres e há problemas com a eletricidade no andar da parteira, acode a ela o eletricista que conehceu no paritório, ao tempo que estuda constelações, estrelas, auroras boreais e buracos pretos; falham as lâmpadas da casa, e a amiga da tia Fífa tem nome de alba, a luz do sol brilha nas folhas das árvores e a noite é escura e trevosa. 

Porém, o melhor da narrativa, para mim, é estar colada a filosofia às contrações dos partos. Ligada ao medo de mães e pães pola criatura indefesa. Ligada às palavras de bem-vinda que Fífa oferece a cada. Ligada à depressão post-parto e as mortes neo-natais. Ligada à vida (e à morte) na imagem mais física da mesma: a viagem à escuridade do mundo que inicia cada bebé.

E gostamos ainda mais de que Audur Ava Ólafsdóttir escreva, em realidade, para responder ao Platão: no futuro que augura tia Fífa só há lugar entre a humanidade lugar para as crianças, para as adultas que ainda conservam uma criança dentro, e divertem-se soprando as penugens de um dente de leão e não perderam a sua capacidade de surpresa, e para as poetas. 

Como as parteiras: mães da luz.


Audur Ava Ólafsdóttir: 
La verdad sobre la luz
. 

Tradução de Fabio Teixidó.

Alfaguara 2024