Interessa-me aquilo que escreve Brigitte Vasallo. Nos seus escritos sempre coloca o foco em zonas de sombra que as minhas ideias não iluminam. O feixe de luz da sua lanterna adoita pôr-me sobre aviso para não cair nas armadilhas das minhas rebeldias. Cuidado com a linguagem inclusiva e as suas estratégias de classe, cuidado com a exclusão das expulsadas no campo das identidades. Escuita as vozes dissidentes. Aprendim muito da leitura das Mentes insanas. Ungüentos feministas para males cotidianos (2020), do Lenguaje inclusivo y exclusión de clase (2021) e do Tríptico do silencio, que me fez escuitar a voz daquelas que ficaram à intempérie.
Comecei a leitura de La fosa abierta com essa expetação, incrementada polo feito de escuitá-la citada em vários eventos recentes como referência para nos compreender às galegas, às pessoas do rural.
La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico1, parte da história familiar para, em uma narrativa híbrida e fragmentária, recorrer o impacto que a emigração dos rurais aos centros industriais do estado espanhol deixou nas gerações que viveram esses deslocamentos e a seguinte, a dela, que denomina mutante, a criada longe da origem e sem chegar a ser aceitada no lugar habitado. A autora parte da experiência própria e combina a pesquisa sobre a história de vida da sua mãe com o achegamento às experiências doutras pessoas, através de laboratórios de conversa, e com leituras sobre a questão da migração, do processo de abandono do rural, etc. A partir de aí constrói, como bem indica a apresentação editorial, um espaço de enunciação próprio. O feito de que a família da autora proceda de Chandrexa de Queixa, onde ela se instalou nos últimos anos, incrementaram o meu interesse na obra, porque entendo que vai falar de espaços e experiências que me são próximos.
A autora começa por fazer um percorrido polas políticas de ocupação das terras do comum em diferentes épocas do Reino da Espanha, as desamortizações várias e as políticas agrárias e florestais das repúblicas e do franquismo. Cita O atraso económico de Galicia, de Xosé Manuel Beiras já nas primeiras páginas e eu surpreendo-me da profundidade das suas leituras (até leio o Beiras!). Continuo a leitura em que reflexiona sobre a perda que supus a expropriação dos montes em mão comum e continua a citar o Beiras. A minha surpresa muda. Aguardava a cita de autoras mais contemporâneas2, porém, confiei na autora e pensei que o facto de estar instalada na Catalunya podia dificultar-lhe o conhecimento de bibliografia atualizada3. Mesmo assim, consultei o aparato bibliográfico do final do livro e comprovei que praticamente a única referência ensaística sobre a Galiza era a de Beiras. Continuei a leitura, chocada, mas não tanto, pois entendim que o interesse de Vasallo estava em artelhar e dar forma ao seu próprio discurso, e que os apoios referenciais eram isso, apoios, relativamente necessários.
E cheguei assim à página 137. E li:
Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.
Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.
Estupefacta fiquei eu. Pampa. No momento reconhecim o livro. Dou por feito que se refere a Uma história pequena da Galiza Rural (1939-1982), de Alba Díaz Geada4. Voltei consultar a bibliografia final e não se aparece na listagem de obras referenciadas. E não percebo. Não percebo nada. Ao longo do discurso, Brigitte Vasallo indica em muitas ocasiões de onde obtém a informação e explicita o seu cuidado em citar as suas informantes5, por isso, que lhe negue nome e autoria ao livro deixa-me sem palavras.
Alba Díaz Geada reelabora a sua tese doutoral em um breve volume de divulgação, Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982). Nele analisa as mudanças no mundo rural galego durante o franquismo, a mesma época que interessa a Vasallo. A sua metodologia de trabalho baseia-se nas entrevistas e encontros com habitantas do rural, para, a partir dos seus testemunhos, construir a sua proposta de análise. Em realidade, uma metodologia semelhante à que utiliza Vasallo nos que ela denomina “laboratórios de memória txarnega”: escuitar as subalternas e construir, com elas, pensamento. As duas estruturam os seus livros combinando depoimentos de testemunhas com as suas próprias reflexões ou explicações. Porém, no que se refere à Galiza, o trabalho de Díaz Geada é muito mais completo. Porque Vasallo constrói o seu conhecimento da Galiza com os testemunhos, quase únicos, das suas vizinhas e familiares de Chandrexa de Queixa6, em tanto que Díaz Geada realiza entrevistas por várias comarcas da província de Lugo, o que lhe permite complexizar o o olhar.
Uma história pequena da Galiza rural estrutura-se em três capítulos ordenados cronologicamente. O I analisa as mudanças na imediata posguerra, nos inícios da ditadura, e põe o foco na repressão e na fome, na grandíssima fome que obrigou a implementar o controlo da agricultura por parte do novo regime ditatorial. O capítulo II abrange os anos após a II guerra mundial, em que a Espanha é admitida em organismos internacionais e as políticas aplicadas no agro são marcadas polos EEUU. São os anos de integração total no sistema capitalista, com as migrações massivas a outras regiões da Espanha e Europa, e aqueles em que se afunda na dicotomia atraso / progresso. O capítulo III recorre desde a crise dos combustíveis do ano 1973 até as negociações para a entrada na CEE.
Díaz Geada não idealiza o rural: “Se há algo que ficou fortemente gravado na memória do pós-guerra como a fome foi a desigualdade que o atravessava. Quantas vezes volto às tuas palavras para expressar a desigualdade. Não havia nada além de piolhos e pulgas”(pág. 25). Põe atenção na dureza da vida para as raparigas: “Todas trabalhavam a terra desde pequenas. Davam comida aos porcos, se os houvesse. Faziam-lhes as batatas. Punham os bezerros a mamar. Aprendiam a mungir. Estravam as vacas. Iam à fonte. E iam buscar uma braçada de tojos para o burro. Iam buscar lenha. Iam arrancar o estrume. Embalavam os irmãos mais novos. A reprodução das famílias das classes populares, a própria vida, dependia do trabalho de todos os membros. Crianças, mulheres, homens. Tudo não dava para nada. Um irmão era sapateiro. Uma irmã era costureira, muito cuidadosa. Reconhecem o saber e o bom fazer. Todas pararam de ir à escola. Poderiam ter sido mais, dizem. Quando jovens, iam servir. Carreavam sacos de caulino do porto para o barco rumo à Alemanha. Trabalhavam na fábrica de cerámica. Na fábrica de conservas. Iam ao mercado vender trigo, favas, o que se podia. Para essa sobre-exploração do trabalho, não era necessária a escola. Nas formas que a compunham cabia o trabalho assalariado ou a jorna, a própria servidão,a reciprocidade desigual e a autoexploração” (pág. 29). Nesta enunciação de trabalhos podemos notar a diversificação das tarefas, as estratégias diversas usadas no marco das relações económicas e que o agro é um espaço dinâmico em que tanto podes ir à lenha ao monte como fazer horas na fábrica. É claro que o acesso aos trabalhos varia segundo as zonas e comarcas, mas a complexidade eis a está. O mundo do rural não existe em abstrato nem isolado do mundo urbano. Há relações, desiguais, complementárias, de dependência7, mas não é o rural um espaço incomunicado nem excêntrico.
Outro elemento que deixa patente a obra de Díaz Geada é a do dinamismo do rural. Ao tender a olhada na evolução ao longo de (só) o século XX, percebemos como as mudanças que trouxeram consigo ditadura e capitalismo não foram recebidas em toda a parte da mesma maneira. É evidente que a expulsão das labregas e labregos dos labores agrários, a incorporação de novas maneiras, industriosas, de trabalho agropecuário, a especialização e a concentração dos produtos, vão ser elementos que façam dos nossos rurais um novo espaço totalmente diferente ao vivido décadas antes. Mas é interessante ver como em paralelo se aparecem as resistências, aprendidas de movimentos anteriores (pensemos na luita pola redenção dos foros): “A Galiza era território do comum. «Montes de vizinhos» ou «em mão comum», onde o uso está vinculado à vizinhança; e «montes de varas», «de vozes» ou «abertais», de uso ligado a determinadas casas. Já se arrastava há longo tempo a incompreensão do comum do ponto de vista liberal. Daí a individualização defensiva praticada por algumas comunidades. E antes de você nascer, dever ter sido em 1929 ou 1930, o «monte dos vizinhos» foi dividido. Havia sete pedaços desses dois bairros da paróquia. Eram quarenta e oito coparticipantes que participavam daquela pedaços de baldio. Cada pedaço foi dividido em quarenta e oito pedaços, mais dois, cinquenta, caso aparecesse mais alguém. De modo que havia sete pedaços e, em cada um, cinquenta parcelas8. Noutros sítios, diz, o Patrimonio Forestal apoderou-se do monte porque não fizeram a tempo o que tinham que fazer. E aí, quando chegaram, disseram «Alto! Aqui o Estado não tem nada, tudo foi adjudicado e está em contribuição» (págs. 19-20). Toda uma história de luitas por defender a própria dignidade que, sim, muitas vezes fracassavam, mas outras conseguiram vencer: “Então disse-lhe outra vizinha: «E porque é que nós, as mulheres de Regodela, não fazemos uma manifestação?» Uma avisa para este lado e outra, para o outro. E arrancámos, por ali adiante, pela estrada adiante, a falar umas com as outras. Todas as velhas. Encontramos os da Fenosa, os carros da Fenosa. Então vou eu e paro un dos carros. E disse-lhes eu: «Vamos lá ver, quem são os senhores?» E disse-me ele: «E quem é a senhora?» «Eu sou uma afetada pola nuclear»(.../…) Eram finais de 1974 e um grupo de mulheres marchava contra a instalação de uma central nuclear em Regodela (Jove, Lugo)” (Pág. 66). Sabemos todas que em Jove não há central nuclear.
Não têm cabida estas resistências na obra de Vasallo. Ela revisa a história do despojamento do rural (que se deu, é bem verdade) sem fazer menção às resistências9. Este silenciamento é necessário para a configuração das populações rurais como vítimas, vítimas do capitalismo, vítimas da modernidade. Incomoda-me na leitura, porque leio a ruralidade, leio-me, revitimizada. Ao escolher este discurso, a autora assume que há um centro e há uma margem e analisa os processos de exclusão desse centro sem questionar nunca a sua suposta centralidade.
Indico que Vasallo revisa a história do despojamento do rural e eis, para mim, outra eiva da sua leitura. Unifica todos os rurais europeus em um só, um único rural despojado por uma única máquina capitalista. Não há matizes na sua obra. É igual o campo galego que o andaluz que o napolitano que o inglês. Assume, penso que acriticamente, o conceito de España Vacía formulado desde a hegemonia castelhana. Isto é um problema sério. Como indiquei no início, a visibilidade mediática desta obra faz com que esteja a ser usada para nos ler às galegas, para lermo-nos as galegas. E o lente é absolutamente externo, alheio. Obvia a autora novamente trabalhos recentes de companheiras sobre esta questão10, a de assumir a identidade que outres construirem para nós (para submeter-nos) como a real e verdadeira. A uniformidade dos rurais, o tropo das labregas pobres e vítimas reforça a imagem que de nós tem a hegemonia estatal, a imagem que aprendemos de nós mesmas.
As fórmulas de acesso à terra, as relações entre classes dominantes e subordinadas, as políticas dos estados, não podem reduzir-se a uma só. Vão provocar processos migratórios diversos e projetos migratórios diversos. Em uma obra recente, em que Manuel Gago compara os mundos escocês e galego, disse-nos: “Ao redor de dous millóns de persoas partiron tanto de Galicia como de Escocia entre os séculos XIX e XX. Houbo tamén unha diferenza notable: a emigración escocesa, nas súas diferentes fases foi provocada por decisións do Goberno británico, bem apoiando os grandes terratenentes no seu empeño de expulsar os campesiños das terras que tiñan alugadas, bem fomentando a emigración para os programas de colonización imperial ao longo do mundo. O caso galego foi xusto polo contrario: em gran medida os galegos marchaban polo desleixo do Goberno español en desatender Galicia e non fomentar condicións de crecemento económico. // Carentes de propiedades, os escoceses partían en gran medida para non volver. Eran labregos na procura de terra. Nos galegos sucedía ao contrario, xa que a maior parte deles eran propietarios ou fillos de propietarios: a emigración estaba orientada a facer fortuna, retornar e investir para facer prosperar a casa, a unidade económica básica da sociedade tradicional galega.11”
Esta diversidade desaparece da obra de Vasallo, a quem o processo de cercamento (enclosure) de terras inglês lhe serve para explicar-se a si própria o(s) sistema(s) de monte comunal na Galiza, como ela mesma admite: “Y entonces cuenta [o vizinho Alfredo] cómo sucedió essa proeza del sacar adelante a su hijo estando sola y siendo tan pobre em un pueblo precioso pero durísimo, y habla de su vaca en tierras comunales. Na Serra, dice, na Serra. He escuchado esta historia muchas veces, y la apunté en la libreta que llevo siempre conmigo, pero no entendí la importancia de esta frase hasta que leí cosas que me hicieron entender. Lo he publicado así en otro libro: «yo, como hija de la diáspora nacida em la cultura del progreso, como mutante, necesité de Linebaugh, de Federici, de Moreno-Caballud, de Berger, de Marx y de Haraday para entender lo trascendente de esta información»12” (Pág.78).
Porque, para o caso galego, o de Vasallo, não é un conhecimento situado13. Acho que a autora tem uma ideia errónea do que isto significa: “Un hecho narrado por una sola persona es una narración a medias, pues es imposible separar la cosa del impacto que ha tenido la cosa en quien la describe. En la oralidad se van añadiendo capas y todo el mundo añade la suya propia, su propia tonalidad de la cosa. Es aquello de que cada cual cuenta la feria según le va. Es el conocimiento situado, que está resuelto em la oralidad. No es hablar solo de lo que sabes, es la inevitabilidad del hablar de ti” (Pag. 206). O conhecimento situado não consiste em falar da feira segundo che vaia nela, mas, sendo ciente da inevitabilidade de falar de ti mesma, deixar claro desde o início do discurso desde onde falas, qual a tua posição no sistema, de que privilégios gozas. Vasallo fala desde a raiva txarnega14, fala desde a galeguidade15, às vezes, fala desde a ruralidade16, às vezes também. Sempre no lugar das vítimas17. Ás vezes, também, apropriando-se do lugar das subalternas. Leio com muito interesse a experiência de Vasallo enquanto txarnega, porque não é a minha, porque quero conhecê-la e percebê-la, desde a minha posição de pessoa com raízes, com lugar, porém incomoda-me lê-la ocupando a voz da sua mãe e doutras pessoas migrantes de primeira geração, ou a das galegas rurais que recebemos o filme As Bestas18. O espaço de enunciação próprio devém, muitas vezes, em espaço de apropriação.
E volto àquela cita inicial que me deixou pampa:
Se publica en Galicia un libro con muy buena pinta sobre la Galicia rural, un trabajo que promete ser Historia desde abajo. Les mando la portada a mis vecinas, emocionada, por si quieren que lo leamos juntas, en simultáneo a pesar de la distancia. Nós non entendemos ese galego, me dicen.
Me quedo estupefacta: el libro está escrito en galego reintegrado, una propuesta lingüística salida de entornos académicos para proteger la lengua frente a la castellanización y que mis vecinas, que han nacido y morirán en la lengua, que han sido las que la han salvaguardado através de los siglos y las vicisitudes, que han soportado que las llamen palurdas por hablar gallego cuando no estaba de moda, que las llamen incultas por conservar la lengua, una propuesta lingüística que mis vecinas no consiguen leer, de tan alejado como está ese nuevo gallego de nuestro queixalao ancestral. Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas.
Sem entrar em disquisições filológicas, fico estupefacta com a última frase: “Los libros sobre mis vecinas pero sin ellas, y hasta contra ellas”19. Assim, com rotundidade. Desqualifica uma obra porque a autora escolhe um padrão linguístico diferente, casualmente aquele que acolhe a palavra queixalão (e não queixalán) da sua oralidade. Desbota-a mediada por uma frase: “Nós non entendemos ese galego, me dicen.” As pessoas sensíveis com a questão da língua, sabemos ler nessa frase toda a história negra da língua galega, toda a carga de auto-ódio aprendido. Sabemos que provocou os usos diglóssicos e a não alfabetização em galego de grande parte da povoação20. Porém, daí Vasallo constrói um discurso vitimizador, e epopeico ao tempo, da sua vizinhança, afirmando que o livro de Díaz Geada mesmo está escrito “contra ela”. Contra. Porque escreve com nh. Vasallo afirma isto em perfeito castelhano. Porém, em nenhum momento da escrita reflexiona sobre o feito de ela estar a escrever em uma língua que não é a das suas vizinhas. Em uma língua que elas mesmas lhe contam que lhes é alheia e que aprenderam na emigração. Porque o seu conhecimento não é situado. Porque a sua olhada é superficial. E essencialista21.
“He apendido, sin embargo, a desconfiar de mi mirada. Estoy observando un papiro egipcio em el Metropolitan Museum de Nueva York y veo un arado como los nuestros, como los que ya no usamos pero que aún quedan tirados por las cuadras, el arado que recuerdo haber visto trabajar, en activo aún. Nós pasamos do arado romano ao tractor en dez anos, se repite en Queixa. Es un salto temporal de miles de años que hemos presenciado, del que hemos formado parte, un evento histórico más importante que cualquier guerra o cualquier copa de fútbol. Mando la foto emocionada a mis primas: «Los egipcios ya usaban nuestro arado??!!», y ellas me contestan riendo: «Se no es nuestro arado, ¿no ves que tiene un palo que los nuestros no tienen?»”(Pág. 269).
Também eu aprendim a desconfiar da olhada de Vasallo22. Há mais complexidade nas 73 páginas escritas por Alba Díaz Geada que nas 296 de La fosa abierta.
Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026.
Díaz Geada, Alba: Uma historia pequena da Galiza Rural (1939-1982).
Através Editora, 2024.
1Editorial Anagrama, 2026.
2A autora cita pola edição de 1981, mas a edição original da obra de Beiras, fundamental no pensamento contemporâneo da Galiza, é do ano 1973. Porém, desde essa data, foram muitas as achegas no campo dos estudos da história agrária, muito mais específicos que o trabalho citado de Beiras e centrados muitos deles, na agência feminina. Pensava no labor do grupo HISTAGRA, por exemplo.
3Nos últimos anos fora publicadas com acessibilidade para o público não especializado, várias obras que tratam a história agrária na Galiza, em geral, e a questão dos montes em mão comum, em particular. Penso na figura de Ana Cabana e algumas das suas monografias: La derrota de lo épico, Haberlas Haylas. Campesinas en la historia de España del siglo XX; penso na obra colectiva Árbores que non arden. As mulleres na prevención de incendios forestais, da antiga Catroventos Editora (2019), penso na obra de autoría colectiva Arredor do rural. Comunidade de saberes e innovación socio-educativa, Toxosoutos 2023, penso no Cando éramos sostibles, de Lourenzo, Bestilleiro e Quiroga, editado pola Fundação RIA em 2023, penso no Terra a nossa! Discurso e identidade agrária na Galiza moderna (1875 – 1936), do Antom Santos, em Laiovento.
4Através Editora 2024
5“… Edson es traductor del italiano y su madre se ha puesto a trabajar también, animada por él. Le pregunto si puedo tomar una foto de la foto y si puedo mostrarla junto con el resto para mis movidas.” (pág. 192), ou “Al cabo de unos meses, cuando voy a incorporar esa historia a este libro escribo al grupo para preguntar quién me la contó, confirmar si le parece bien que la publique y para comprobar con qué nombre quiere aparecer en el relato” (pág. 235).
6Também para isto podia contar com bibliografia galega, pois eis está o Elas, as emigrantes. Mulheres da Terra de Soneira na Suíça. Através Editora, 2019.
7Vem-me à cabeça essa Estrada paralisada polo boicot das labregas em uma greve em protesto polos impostos para a construção da Casa Consistorial, ao ponto de desabastecer a vila de produtos alimentares básicos.
8Foi este o sistema defensivo utilizado na minha aldeia. O monte foi repartido entre as casas no modo “monte de varas”; porém o Concelho apropriou-se das terras em 1961 e não foi até 2016 que a vizinhança recuperou a titularidade do monte:https://www.farodevigo.es/pontevedra/2016/04/08/sentencia-da-titularidad-vecinos-arcos-16650765.html
9 Isto descontextualiza, deixa em ermo, as resistências atuais que sim nomeia (a luita contra a ocupação de terras para energia eólica, por exemplo). Por que agora há resistências (havendo menos população) e antes não?
10Penso no Galiza, um povo sentimental?, da Helena Miguélez-Carballeira, na Através Editora ou no Um país a la gallega. Galiza no NO-DOfranquista, da Beatriz Busto, também na Através Editora -e juro que não é intencionado citar bibliografia reintegracionista-. Penso nos artigos da revista Clara Corbelle.
11Manuel Gago: Ata que os mares sequen. Unha Escocia en clave galega. Morgante Ensaio 2026.
12Eu criei-me aprendendo que o minfúndio era o Mal. O rural estava atrassado porque as terras estavam partidas em cachos tam pequenos que nem o trator entrava. Ao carão da escola o monte estava dividido em tiras de meio metro. Não podia ser ampliado o pátio porque era um cristo expropriar tanta terra tão dividida. Muita papelada e pouco rendimento. Foi com Ana Cabana que aprendim que isso não era atrasso. Era defesa inteligente contra a agressão alheia. De Federici ou Berger aprendim outras cousas.
13Na recensão da obra De por qué es necesario un feminismo descolonial, Icaria Editorial, 2022, de Yunderkys Espinosa Miñoso explicamos este conceito: “Devemos saber situar o nosso conhecimento, com as suas limitações, e renunciar a fazê-lo universal. De aí a sua segunda proposta: no lugar de procurar essencialismos etiquetadores que uniriam na sua opressão de género todas as mulheres do mundo (tarefa impossível), centremo-nos em explicar como a matriz de dominação / opressão atua nas nossas sociedades, culturas, modelos civilizacionais.” https://www.asega-critica.gal/2026/01/a-viagem-de-desandarmos-por-susana-s.html
14“Cuando nos afeáis las preguntas, cuando os quejáis porque abrimos la boca, cuando acudís orgullosas a esas magníficas cajas de resonancia que son las tertulias subvencionadas y dónde solo estáis las dóciles, las mansas, las inofensivas, graznando frases del PSC y de Pujol, ¡nada menos!, mirad si sois dóciles en vuestro graznar, vociferando que catalá és qui viu i treballa a Catalunya como si fuese un regalo ser lo vuestro, lo envenenado…” (pág. 199).
15“Le cuento: [o filme] se titula Las bestias por nosotras, por mi madre y por mí, concretamente. No, no lo dice así, pone de excusa una fiesta popular que sucede a cientos de kilómetros de nosotras en un contexto donde cada kilómetro es un mundo. Tal vez no supo usted que cuando Tom Cruise rodó unos sanfermines en Sevilla se montó la de dios. Con esto no se ha montado mucho, porque no le importa mucho a nadie más que a un par de piradas en Galicia (ni siquiera a todo el mundo) y a nadie más fuera de allí. Las campesinas ni hacen cine ni van a verlo, ni dan premios, ni escriben en los periódicos ni financian nada, así que no les importan a nadie” (pág 290).
16“Cuando llegamos a las ciudades, nos convertimos en personas analfabetas, nosotras que veníamos con nuestra cultura oral, con nuestros usos, con nuestros conocimientos, con todo lo que conforma un ser humano y una comunidad, que de repente no servían para nada en ese nuevo contexto. Nada de lo que sabíamos servía de nada o, si servía, estaba prohibido o era inmoral o sospechoso: juntarse en la calle con las vecinas, apoyarse comunitariamente, hacer trueque, trapichear, reciclar.” (pág. 100)
17A sua posição como autora de Anagrama, como inteletual com projeção estatal, etc. nunca é objeto de reflexão.
18Por certo, sei de muitas labregas que vão ao cinema.
19Vasallo, Brigitte: La fosa abierta. Anarchivo emocional de un milagro económico. Anagrama 2026. Pág. 137. sublinhado e itálicos da minha responsabilidade.
20Eu faço parte das primeiras crianças que aprenderam a ler e escrever galego no primário.
21O adjetivo “ancestral” utilizado neste parágrafo traz a nós uma imagem estática da língua, do lugar, das pessoas, que sempre foram, são e serão assim.
22A superficialidade do olhar que percebo naquilo que eu conheço (neste caso o rural galego) funciona como prevenção perante o resto da narrativa, fazendo-me duvidar da mesma. Ao tempo, a ocultação da autoria de Diaz Geada faz-me pensar em quê outras autoras foram ocultadas, silenciadas, nesta obra.

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