Leio De por qué es necesario un feminismo descolonial1 e saio feliz da leitura e com vontades de re-escrever a história toda da literatura galega, da língua galega, da educação na Galiza, da sociedade galega, das tradições galegas, de todo quanto dá forma à minha comunidade desde esse olhar situado que nos aprende Yunderkys Espinosa Miñoso. Sei que andam mais companheiras no trabalho de desandar2 , mas é tão potente a obra, apela com tanta intensidade à importância de pormos mãos à obra que bem quiser contar com o vagar da reflexão e o pensamento que precisa essa viagem.
A obra é uma compilação de artigos e palestras da autora, revisadas para a publicação, acompanhada de uma entrevista final de Katia Sepúlveda. Acompanhamos, desta maneira, o processo de construção por parte da autora da sua linha de pensamento, com os seus atrancos e saltos e revisões e retificações e ratificações. Permite-nos Espinosa, caminhar com ela a sua viagem intelectual, sendo ademais, a entrevista final, como um resumo e aclaração dos elementos essenciais da sua teoria. No caminho para a revisar criticamente outras teorias feministas, incorporando ideias ou conceitos das mesmas à sua mochila. Espinosa Miñoso é filósofa, pensadora. E acompanhamos no processo de elaborar uma teoria feminista de explicação e interpretação do mundo. Isto faz com que a abstração e complexidade dos capítulos varie. Há trechos mais sisudos e partes mais acessíveis, porém a leitura global resulta clarificadora.
Espinosa é dominicana, racializada, lésbica. Aprendeu-se outra no feminismo porém não foi até se instalar na Argentina para estudar que se descobriu “uma outra das outras”: as que aguardava fossem as suas companheiras na luita feminista, não aceitavam a sua procedência caribenha, pobre, escura; não tinham interesse em escuitar a sua voz. Esta incomodidade contínua no movimento feminista, na academia feminista, fez com que sempre se situasse nos feminismos contra-hegemônicos e que a sua ação de pensamento e de ativismo se centrasse na compreensão das origens dessa incomodidade: “Experimentar dentro del activismo feminista el eurocentrismo, la violencia simbólica y epistémica, el racismo, la meritocracia y outras formas de manejo y traspaso de los lugares de prestigio y de poder, de uso de la palabra y la representación, ha sido para muchas de nosotras la herida que nos marcó y nos impulsó a la búsqueda de explicaciones que nos permitieran comprender y dar cuenta de lo vivido” (Pág. 98).
O mais interessante da sua metodologia de análise é o entrelaçamento absoluto da experiência, do ativismo e do pensamento. A autora estuda e analisa as ações, campanhas e reivindicações dos feminismos latino-americanos para, a partir de aí, elaborar as suas teorias, que corrobora ou modifica revisando-as de volta na praxe.
Gosto desse “un” do título. Leio-o como numeral e percebo com ele a impossiblidade de existir o feminismo, os feminismos, se não são descoloniais, se não sacodem de si todas as opressões enjertadas na de género.
Espinosa defende o feminismo descolonial como aquele que faz uma revisão da teoria e da proposta política do feminismo, posto que considera que o mesmo incorpora um nesgo moderno, ocidental, branco e burguês (pág. 266). Considera que as bases em que assenta o feminismo devem ser desmontadas e revisadas por essa origem tão marcada que deixa fora, automaticamente, à maioria das mulheres do mundo. Para isto utiliza, precisamente, uma das achegas do próprio feminismo, chegada a nós da mão de autoras como Gayatri Spivak ou Chandra T. Mohanty: este defendeu, e demonstrou, que explicar o mundo e os acontecimentos desde o ponto de vista de quem só ocupa o lugar do privilégio proporciona um entendimento parcial e distorcido que pode ser saldado graças ao olhar e à experiência dupla de quem ocupa um lugar subalterno3. É dizer, a olhada e experiência das mulheres, vozes subalternas, completa e revisa a interpretação do mundo até agora unicamente masculina. Porém, segundo isto, a olhada do feminismo branco / mestiço é incompleta, iluminando só uma parte da trama, e só virará inteira, universal, se incorpora olhadas e experiências de mulheres subalternas, no seu caso, a voz de uma mulher proveniente de um povo desumanizado, submetido à servidão e à negação de si mesmo.
Desde aí, Espinosa4 , seguindo o trabalho de María Lugones, faz uma crítica da razão feminista eurocentrada: considera que há uma razão feminista universal, uma listagem de princípios que (quase) todos os feminismos aceitaram acriticamente que se caracterizam polo seu compromisso com a modernidade. A modernidade europeia assenta em três eixos: a construção linear e progressiva da história, a divisão natureza – cultura e a divisão colonial moderno – não moderno. O feminismo construiu-se com estes fios: a divisão sexo-género (natureza-cultura), a ideia de que as mulheres sempre estivemos pior e que avançamos para a libertação graças ao feminismo, ou a ideia de que há sociedades extra-europeias atrasadas e inferiores em tanto que a europeia é o modelo a seguir pola sua maior evolução como espécie. Porém, esta modernidade nasce de e justifica a opressão: é racista, euro-centrada, capitalista, imperialista e colonial.
A autora fala da colonialidade da razão feminista para explicar que os feminismos não europeus em geral, da América Latina em particular, assumiram esta razão aparentemente universal como própria, quando o que faz é expulsá-los do campo do saber e do ser. Para isso, as feministas do Sul precisam de construir uma Outra da Outra que elas constituem. Essa Outra será conformada por todos os corpos abjetos: pretas, índias, pobres, lésbicas, ignorantes. Nomeia isto a autora como violência epistêmica: “Los feminismos hegemónicos de un lado y otro del Atlántico han contribuido en el proyecto colonial de encriptar a la «mujer del tercer mundo». Encriptamiento que se produce entre su expulsión histórica de las narrativas de conformación del ideal de la nación blanca occidental y la necesidad de su existencia como el (verdadero) Otro. Si las feministas del norte han necesitado de la figura de la «mujer del tercer mundo», las feministas (blancas / mestizas, burguesas) del sur han necesitado y han trabajado activamente para construir su Otra local para poder integrarse em las narrativas criollas de producción europeizante de los Estado-nación latinoamericanos”5.
De aqui chegamos ao conceito de matriz de opressão / dominação, no que a autora segue a Patricia Hill Collins. Considera que o feminismo hegemónico (e não só) trabalhou a opressão baseada na ideia de diferença sexual de forma separada e independente do que considera outras formas de opressão / dominação6. Porém, o feminismo descolonial entende que não se pode compartimentar a opressão já que “el sexo binario (y la relación heterosexual que alimenta), la raza y la clase se co-constituyen complejamente dentro de una matriz de opresión / dominación producida dentro del programa moderno-colonial (Lugones 2012). El desafío consiste, pues, en llevar hasta sus últimas consecuencias la idea de que la lucha contra el (hetero)patriarcado moderno no puede hacerse sino desde una apuesta antirracista, descolonial, anticapitalista7; y viceversa: que es imposible, como vienen señalando las compañeras feministas de Abya Yala, que el proceso de descolonización se lleve a cabo sin un atentado contra el patriarcado capitalista, tanto como es imposible acabar con el racismo sin luchar contra el régimen de género heterosexualista y contra el capitalismo, como lo vienen sosteniendo desde los setenta las feministas y lesbianas negras y de color en los Estados Unidos, y como lo venimos sosteniendo el movimiento de mujeres negras y el feminismo antirracista em América Latina”8.
As opressões são inseparáveis umas das outras e quem está na base não somos “as mulheres”, assim, em universal. Na base da estrutura de dominação em sociedades racializadas estão sempre comunidades negras ou indígenas e são, por tanto, as histórias, memórias, narrativas e experiências das mulheres negras e indígenas, quem melhor nos podem ajudar a compreender os mecanismos da dominação.
E qual a proposta de Yunderkis Espinosa?
O primeiro: interpela-nos às “feministas blancas que han accedido a la formación universitaria gracias a sus privilegios de clase y raza (hooks, 2004)” a repensar os nossos privilégios e escuitar a voz das nossas subalternas. Porque não é verdade que a subalterna não tenha voz, tem e usa-a, mas é possível que não queiramos escuitá-la, por fazer tremer com ela os andaimes em que sustentamos o nosso feminismo.
Devemos saber situar o nosso conhecimento, com as suas limitações, e renunciar a fazê-lo universal. De aí a sua segunda proposta: no lugar de procurar essencialismos etiquetadores que uniriam na sua opressão de género todas as mulheres do mundo (tarefa impossível), centremo-nos em explicar como a matriz de dominação / opressão atua nas nossas sociedades, culturas, modelos civilizacionais. Aí as galegas temos muito a dizer, pois a nossa situação relacional no mundo é ambígua: somos discriminadas em relação com o nosso espaço social / político / cultural imediato, a Espanha, mas não deixamos de participar da dominação em relação com as nossas outras do Sul. Esta ambiguidade, este nosso dançar na linha entre vítimas e opressoras faz com que podamos elaborar linhas de pensamento, reflexão e intervenção complexas e produtivas9.
A terceira proposta: desandar, renunciar à essa ideia de progresso dirigido ao futuro, acolher-nos a outros tempos e outros ciclos: recuperar a memória. Voltar à casa, é dizer, desandar o caminho da fugida ao moderno e acolher-nos à memória das nossas comunidades, das nossas tradições. Renunciar ao individualismo capitalista e construir comunidade, rede, coletividade. Esquecer essa ideia de progresso utópico, com a frustração que produz (passam os anos e a mesma misoginia, as mesmas mortes por violência machista, as mesmas pelejas) e acolher-nos à ideia do ciclo, de tarefa contínua e ligada com outras: o mundo agrário como referência: a sementeira, a sacha, a poda, a rega, labores combinados sem os quais o fruito não abrolha.
Espinosa Miñoso acolhe-se a um mito fundacional dominicano: a ciguapa é uma personagem feminina que se aparece no monte quando tu vás ou vens do trabalho na leira ou quando vás de um lugar a outro. A ciguapa tem os pés ao invés, de adiante para atrás; por isso, ao caminhar para adiante, também caminha para atrás. Passado e futuro fundem-se no caminhar.
E eu penso que um pouco ciguapas somos n’A Sega, que participamos de uma rede de encontros e ativismos e que chegamos a obras como esta porque as companheiras da Casa Aluandê e da Lila de Lilith recomendaram a sua leitura, e puseram ao nosso dispor, na campanha 12 comércios 12 sensibilidades.
E assim desandamos, nesta nossa viagem feminista, da mão das companheiras migrantes.
1Espinosa Miñoso; Yunderkys: De por qué es necesario un feminismo descolonial, Icaria Editorial, 2022.
3Pág. 126
4Adoramos que a casualidade lhe desse um apelido de ressonâncias filosóficas europeias.
5Págs. 68-69.
6Pág. 166.
7Negrinha da minha responsabilidade.
8Pág. 166.
9Há muito trabalho feito na Galiza neste sentido: a vinculação das labregas galegas com o movimento internacional de La Vía Campesina, por exemplo, mostra unha escolha polas redes alternativas ao poder, mas não pode ocultar a vinculação das nossas grandes empresas com o expólio doutros territórios do mundo.

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