Buscar neste blog

Amosando publicacións coa etiqueta Susana Arins. Amosar todas as publicacións
Amosando publicacións coa etiqueta Susana Arins. Amosar todas as publicacións

mércores, 24 de xullo de 2024

Nosoutras no espelho do amo; nosoutras no espelho, o amo por Susana S. Arins



Acordou-me o meu livro a noiva e o navio. Nele escrevim sobre o mundo do mar e coloquei referências e estruturas (os títulos dos capítulos) procedentes das narrativas de viagens da expansão colonial: o Vasco da Gama, o Pêro Vaz de Caminha, mesmo o Colombo assomam no texto. Acabava eu de sair das minhas pesquisas doutorandas sobre o racismo nessa narrativas, mas também é verdade que as leitoras do poemário nada tinham que saber disso. O caso é que me acordou a noiva e o navio: a que recorrer a esse imaginário? a que trazer à literatura galega do século XXI esses senhores? Foi o meu um uso transparente na sua crítica, na olhada irónica? Pudem dar a perceber, sem o pretender, admiração e respeito por essa etapa histórica, que estende os seu rajos octopusianos às injustiças do mundo atual? Fiz o correto? E outra vez, havia necessidade? Tendo possibilidade de escolha, por quê escolher esses referentes? 

Este é o convite que nos faz María Reimóndez no seu livro A casa do amo, sendo nosoutras essa casa. Um convite a reflexionarmos sobre as nossas práticas coloniais e racistas, enquanto leitoras e enquanto autoras, enquanto integrantes do sistema literário galego. 

Para isso, como é habitual na sua obra ensaística, Reimóndez achega-nos às teóricas decoloniais e antirracistas, e oferece-nos uma introdução aos princípios básicos dessas teorias. Como é habitual também, acompanha a sua narrativa com um amplo corpus bibliográfico no que podemos mergulhar se temos interesse em aprofundar o nosso conhecimento. 

É essencial este achegamento teórico para compreendermos que não há no texto um ataque gratuito a companheiras na tarefa da escrita em galego, mas esse convite à reflexão de que falamos ao começo. A autora escolhe obras significativas da literatura galega como exemplos concretos de formulações literárias e tópicos ( o exotismo, o determinismo, a olhada sobre as nossas outras, as outras como objeto ou animal…) que nos mostram uma construção do imaginário desde a branquidão e colonialidade. E não pratica o essencialismo com as autoras (“escreveste um texto que transparenta racismo ergo és racista”) pois é quem de escolher a mesma (o caso de Ana Cabaleiro) para exemplificar uma escolha inadequada e outra acertada, ampliando assim o convite: somos quem de aprender, se ousamos olhar-nos ao espelho e reflexionar. 

Afeitas como estamos ao discurso da não-hegemonia da literatura galega (sermos as discriminadas, sermos as subalternas, sermos as dependentes da olhada espanhola, sermos as colonizadas), por vezes parece impossível assumirmos o lugar que ocupamos no mapa: Europa, o ocidente, a civilização, o avanço e o progresso. E sim, podemos bem ser um povo em situação não-hegemônica com respeito à Espanha, mas ser autêntica hegemonia para com outros povos do mundo. Reimóndez faz possível o mapa. Coloca perante nosoutras um espelho, mundo e limpo, para que sejamos quem de ver até que ponto participamos dessas estruturas racistas e coloniais. 

Fora dos tópicos repetidos em toda a literatura europeia, interessou-me especialmente aquele que podemos considerar intrinsecamente galego, o da épica da emigração: a construção de um discurso sobre a emigração galega, em especial a América (na Alemanha ou na Suíça tudo era luz, progresso e branquidão) na que as galegas eram pessoas inteligentes, trabalhadoras e audazes quem de superar as barreiras ao progresso que impunham as povoações locais (negras e indígenas), invisibilizadas quando não desprezadas. 

Por outra parte, parecem-me de leitura obrigatória os trechos todos em que se faz referência à apropriação do papel de vítima por discriminações sofridas (ainda hoje) por outros povos. Como reintegracionista que sou lembro sentir-me altamente incomodada pola campanha O fim do apartheid, em 2016, que acho não cheguei a assinar. Daquela não sabia explicar, mas intuia que estava mui fora de lugar utilizar um movimento histórico com tantas mortas ao lombo para igualá-lo a uma discriminação, real, sim, mas em absoluto tão grave. Ninguém morreu de reintegracionismo e quantas de negritude. Hoje sei que foi um uso banal e racista de luitas alheias1.

María Reimóndez convida-nos a reflexionar sobre as nossas práticas literárias (escritoris, leitoris, tradutoris) para entre todes transformar a literatura galega em um espaço realmente respeitoso com todes es outres e fazer dele o gonço que conete, em aliança não-hegemonista, as luitas que no mundo são. 

A casa do amo não é uma leitura necessária: devera ser obrigada e essencial para qualquer das que fazemos parte da literatura galega. 

María Reimóndez: A casa do amo. Unha análise do discurso colonial e racista na literatura                         galega. Xerais 2024

1Nota mental: ler em Audre Lorde a diferença entre discriminação e opressão.