Acordou-me o meu livro a noiva e o navio. Nele escrevim sobre o mundo do mar e coloquei referências e estruturas (os títulos dos capítulos) procedentes das narrativas de viagens da expansão colonial: o Vasco da Gama, o Pêro Vaz de Caminha, mesmo o Colombo assomam no texto. Acabava eu de sair das minhas pesquisas doutorandas sobre o racismo nessa narrativas, mas também é verdade que as leitoras do poemário nada tinham que saber disso. O caso é que me acordou a noiva e o navio: a que recorrer a esse imaginário? a que trazer à literatura galega do século XXI esses senhores? Foi o meu um uso transparente na sua crítica, na olhada irónica? Pudem dar a perceber, sem o pretender, admiração e respeito por essa etapa histórica, que estende os seu rajos octopusianos às injustiças do mundo atual? Fiz o correto? E outra vez, havia necessidade? Tendo possibilidade de escolha, por quê escolher esses referentes?
Este é o convite que nos faz María Reimóndez no seu livro A casa do amo, sendo nosoutras essa casa. Um convite a reflexionarmos sobre as nossas práticas coloniais e racistas, enquanto leitoras e enquanto autoras, enquanto integrantes do sistema literário galego.
Para isso, como é habitual na sua obra ensaística, Reimóndez achega-nos às teóricas decoloniais e antirracistas, e oferece-nos uma introdução aos princípios básicos dessas teorias. Como é habitual também, acompanha a sua narrativa com um amplo corpus bibliográfico no que podemos mergulhar se temos interesse em aprofundar o nosso conhecimento.
É essencial este achegamento teórico para compreendermos que não há no texto um ataque gratuito a companheiras na tarefa da escrita em galego, mas esse convite à reflexão de que falamos ao começo. A autora escolhe obras significativas da literatura galega como exemplos concretos de formulações literárias e tópicos ( o exotismo, o determinismo, a olhada sobre as nossas outras, as outras como objeto ou animal…) que nos mostram uma construção do imaginário desde a branquidão e colonialidade. E não pratica o essencialismo com as autoras (“escreveste um texto que transparenta racismo ergo és racista”) pois é quem de escolher a mesma (o caso de Ana Cabaleiro) para exemplificar uma escolha inadequada e outra acertada, ampliando assim o convite: somos quem de aprender, se ousamos olhar-nos ao espelho e reflexionar.
Afeitas como estamos ao discurso da não-hegemonia da literatura galega (sermos as discriminadas, sermos as subalternas, sermos as dependentes da olhada espanhola, sermos as colonizadas), por vezes parece impossível assumirmos o lugar que ocupamos no mapa: Europa, o ocidente, a civilização, o avanço e o progresso. E sim, podemos bem ser um povo em situação não-hegemônica com respeito à Espanha, mas ser autêntica hegemonia para com outros povos do mundo. Reimóndez faz possível o mapa. Coloca perante nosoutras um espelho, mundo e limpo, para que sejamos quem de ver até que ponto participamos dessas estruturas racistas e coloniais.
Fora dos tópicos repetidos em toda a literatura europeia, interessou-me especialmente aquele que podemos considerar intrinsecamente galego, o da épica da emigração: a construção de um discurso sobre a emigração galega, em especial a América (na Alemanha ou na Suíça tudo era luz, progresso e branquidão) na que as galegas eram pessoas inteligentes, trabalhadoras e audazes quem de superar as barreiras ao progresso que impunham as povoações locais (negras e indígenas), invisibilizadas quando não desprezadas.
Por outra parte, parecem-me de leitura obrigatória os trechos todos em que se faz referência à apropriação do papel de vítima por discriminações sofridas (ainda hoje) por outros povos. Como reintegracionista que sou lembro sentir-me altamente incomodada pola campanha O fim do apartheid, em 2016, que acho não cheguei a assinar. Daquela não sabia explicar, mas intuia que estava mui fora de lugar utilizar um movimento histórico com tantas mortas ao lombo para igualá-lo a uma discriminação, real, sim, mas em absoluto tão grave. Ninguém morreu de reintegracionismo e quantas de negritude. Hoje sei que foi um uso banal e racista de luitas alheias1.
María Reimóndez convida-nos a reflexionar sobre as nossas práticas literárias (escritoris, leitoris, tradutoris) para entre todes transformar a literatura galega em um espaço realmente respeitoso com todes es outres e fazer dele o gonço que conete, em aliança não-hegemonista, as luitas que no mundo são.
A casa do amo não é uma leitura necessária: devera ser obrigada e essencial para qualquer das que fazemos parte da literatura galega.
María Reimóndez: A casa do amo. Unha análise do discurso colonial e racista na literatura galega. Xerais 2024
1Nota mental: ler em Audre Lorde a diferença entre discriminação e opressão.

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