– chispa, chispa!
o que complica o Natal é essa coisa de Papai Noel. acho meio assustador que um velho, para quem eu nunca fui apresentada, fique me vigiando o ano inteiro para decretar se sou ou se não sou boa menina. sendo que até pouco tempo nem menina eu era, então como é que de repente ainda preciso ser boa ou ruim? e não para por aí. no fim do ano, esse velho invade a casa da Dona Lurdes atrás de mim, mas não vem falar comigo. por que alguém atravessa o mundo para chegar nesse vilarejo fantasma, mas não se dá o trabalho de me dar um oi? a história não tem pé nem cabeça. vai ver ele gosta mais da Dona Lurdes do que de mim e ela tem vergonha de me dizer que ele vem é atrás dela. ou então ele não decidiu se sou boa ou ruim e só vai falar comigo quando bater o martelo. mesmo que o Papai Noel me atrapalhe de dormir e de entender certas coisas, a primeira garfada daquele peru faz valer o medo e a espera. se o Papai Noel viesse falar comigo, quem sabe eu até oferecia a ele um pedaço.1
Ia para a beira de Fina Batám quando estava a mungir. Observava como apanhava as cacharretas da mungideira e as colocava nos tetos das vacas. Dói-lhes?, perguntava. E anotava que não, que até agradeciam porque não podiam como tanto leite a pesar-lhes no corpo. Observava e tomava notas3
Por unha parte, nas cinco corujas a aprendizaxe ten moito de silencios, mutismos selectivos ou aprender a escribir a máquina. Este é tamén un aspecto que comparte con as vacas não me olham... xa que a protagonista non ten nome porque, durante o parto, súa nai perde a voz e non pode bautizala. Neste estraño episodio, o ruxe-ruxe da aldea acaba por facer que a xente emigre por medo a supersticións ( "a bruxa da boca seca"4). Desta forma, a pequena queda soa coas vacas. Elas son as súas compañeiras: " a língua que eu aprendi a falar era a língua das vacas5" Esta situación cambia cando diversas persoas alugan a casa veciña e ela ten que aprender a vivir en sociedade:
“devia ter um manual que ensinasse a como existir direito, do mesmo jeito que se ensina a montar cadeiras dobráveis, dividido em tópicos e com ilustrações para não deixar dúvidas."6
Nomear e revelar aquilo que permanece oculto nos silencios é o centro destas dúas novelas xa que define o lugar no mundo que ocupamos no mundo e a maneira de entendelo. A procura da identidade propia e social, a comunicación, a lingua ou o desenvolvemento das cuestións de xénero transforman nelas a infancia en territorio de consciencia.
Deteñámonos un momentiño na narrativa de Freind... Como persoas lectoras facemos un acompañamento da protagonista desde o mesmo proceso de adquisición da linguaxe. Este desenvólvese cando chega Dona Lurdes á casa veciña e lle aprende a ler e a escribir. Incluso lle explica as normas gramaticais, signos de puntuación (" não encontrei nada que merecesse parênteses", Freind, 19) e ata que "o espaço em branco também é letra"7. A partir deste momento todo o proceso de aprendizaxe vai estar marcado pola linguaxe, pola comunicación e polo silencio ( "mil quilos de silêncio caindo em cima de mim", páx. 58). É, tamén, neste proceso que aprende cousas marabillosas:
ele tinha me dito que a gente assistiria um filme dos Estados Unidos. mas quando começou, eu estava entendendo tudo. comentei:
–nossa, como os americanos falam bem português...
ele riu e me explicou que aquilo chamava dublagem.
que os atores falam numa língua e a gente escuta em outra. até hoje não entendi como isso é possível. se é o nosso ouvido que é bem treinado, se é coisa daquele cinema ou se tem a ver com os atores escolhidos. ele me contou que não é só filme dos Estados Unidos que tem isso, mas filme do mundo todo. como pode o mundo ser tão inteligente?
fico me perguntando se também é possível dublar o silêncio.8
Pero tamén diferencia aquelas outras que lle fan dano ou non lle gustan:
nos filmes, as pessoas que inventam outras na barriga são sempre mulheres. vai ver é porque ninguém ia gostar de morar dentro de um homem.
eu não ia.9
Freind, D., as vacas não me olham mais na cara, editora Nós, 2026
Sanches Arins, S., cinco corujas, através editora, 2023
1Freind, páx. 28-29
2https://www.asega-critica.gal/2024/02/todas-nos-somos-curuxas.html
3Arins, páx. 15
4Freind, páx. 8
5ibidem, páx. 11
6ibidem, páx. 98
7ibidem, páx. 50
8ibidem, páx. 66
9ibidem, páx. 102
10ibidem, páx. 113


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