Buscar neste blog

Amosando publicacións coa etiqueta Carne de Leviatan. Amosar todas as publicacións
Amosando publicacións coa etiqueta Carne de Leviatan. Amosar todas as publicacións

mércores, 25 de setembro de 2013

Um big-bang vírico

Foto: Foshie

Por Susana Sánchez Aríns

Quando a gripe ataca, esse bechinho tão pequeno, aparece com ela a súbita consciência da matéria corporal. Atrapadas no nosso dia a dia de trabalhos, horas de carro, ansiedades vitais, lavadoras por tender, jantares e relaxing cups, concebemos o nosso ser como um tudo compacto. Um eu agigantado por uma sociedade louvadora do ego e o individualismo.

E chega a gripe e nos recorda que, ademais de sermos humanas, somos corpo. Carne, vísceras, fluídos. E ataca o bechinho e de súbito já não somos rosto mas mandíbula dorente, saliva espinhenta em amídalas inchadas, nariz pinguento, músculo orbicular a comprimir as meninhas até a dor, occipital em pleno choque tectónico contra o parietal. Viramos corpo deconstruído em cada uma das suas centas partes que também somos nós, mas nunca lembramos.

O facto de sentirmos cada parte em por si, impede, quando a gripe nos entra, que tenhamos aplicados os sentidos ao exterior. Concentradas na nossa própria matéria, toda a matéria que nos é estrangeira perde centralidade e desaparece do nosso horizonte de atenções. E de comprensão. Abismadas nos nossos sons internos, perdem significado os barulhos de fora. Lá vão os trabalhos, as horas de carro, as ansiedades vitais, as lavadoras por tender, os jantares e as relaxing cups.

E desaparece a gripe e experimentamos o alívio de voltar a sermos um tudo e a felicidade de sentir novamente a armonia entre as centas partes do nosso tudo visceral. E vemos com outras meninhas, menos comprimidas, o mundo que nos envolve. Com uma dor menor.

Como uma gripe é o novo poemário de Chus Pato.

Um bechinho pequeneiro que lemos como rebentação no meio dos olhos, como pedrada em toda a fronte, golpe seco que nos fai tomar consciência daquilo que esquecemos no dia a dia.
Lim Carne de Leviatán como sendo convidada a um big-bang vírico que devolve à matéria o protagonismo do início dos tempos e a possibilidade de participar duma nova gênese.

Primeiro foi o verbo, diz, seique, o livro dos livros. E não é certo. Primeiro foi o fonema, diz-nos Chus Pato, o golpe de voz que desenha mundos, sejam jardins, sejam desertos. A língua como poço de barrena gutural que cospe água a pressão desde as capas freáticas do pensamento. O som como um ovo cósmico de incalculável quantidade de energia que forma, ao avançar do tempo, palavras, pensamento, poesia. O mundo.

Reivindica Chus Pato o poder criador da palavra. O nome que cai na Terra como humus do que nasce a vida: Cando desaparezan todas as flores do mundo / (Hecatombe / Dioivo) / entón as palabras agromarán / como margaridas. / Digo unha flor

Lim Carne de Leviatán como quem recorre a cronologia da evolução da vida na Terra. Puidem observar, acompanhada da poeta, o passo do berro à língua como o do procarionte à borboleta, da améndoa ao gromo à árvore ao fruito.

Mas não é o caminho evolutivo uma linha recta do aqui ao horizonte do passado ao agora. Não. Porque observar não é perceber. Não é comprender. Porque o big bang inicial provoca um caos de pensamento e linguagem, uma nebulosa filosófica nas nossas mentes. E isto acompanha-o a Chus Pato com a deconstrução, nas suas centas partes, da língua poética: Non existen o que se di non existe non ten existencia. Non existen, as palabras. Mas precisamos perceber? Como com a gripe, o necessário é a expansão do cérebro no baleiro. A súbita percepção da matéria.

E quando acabamos a leitura, aliviadas, vemos com outras meninhas, menos comprimidas, o mundo que nos envolve. Com uma dor menor.

Chus Pato: Carne de Leviatán. Editorial Galaxia. Vigo 2013.