Buscar neste blog

Amosando publicacións coa etiqueta Virginia Woolf. Amosar todas as publicacións
Amosando publicacións coa etiqueta Virginia Woolf. Amosar todas as publicacións

xoves, 2 de novembro de 2023

Agnes, antes conhecida como Anne, por Susana S. Arins



Sempre me maravilhou a capacidade imaginativa das outras. A facilidade para ver a história por trás da frase rascunhada, dos restos de comida num prato, da visão da camélia na cama da casa museu que todas visitamos. 

Ficou inoculada em mim, como droga em veia, a Judith imaginada por Virginia Woolf a partir da biografia do Shakespeare. Uma irmãozinha que faz camas e remexe a colher na pota enquanto o irmão aprende latins. Uma irmãozinha que atende às ideias que lhe vêm à cabeça perante a visão dos restos de comida num prato, mas que não sabe escrever e lá vão as ideias sumidas no ar. Uma irmãozinha que quer ser atriz, mas acaba esquecida na lama porque já se sabe que as mulheres, atrizes, mesmo o que se diz atrizes, não. 

Que tantas vezes pensei na possibilidade de escrevê-las. A elas. Às irmãs dos Shakespeares, dos Valhadares, dos Pondais, aquelas que ficaram a cerzir meias e não puderam pagar papel e pluma. Mas sempre pensei, também, que me falta imaginação e me sobra raiva. 

Por isso agora fiquei estonteada, maravilhada e aturdida na leitura do Hamnet, de Maggie O’Farrell. Partindo dos dados conhecidos da vida e da família do dramaturgo famoso, recria, revive e devolve à vida os espectros que pareciam ser a irmã, a mãe, a esposa, as filhas. As elas. E numa sorte de justiça poética são elas a obterem nome e ele a receber, nunca, em todo o romance, um nome próprio. Sempre o pai, o homem, o irmão, o cunhado, o ator, o filho. 

Porém, para mim, a surpresa da proposta de O’Farrell, é converter aquilo que poderia ser uma vingança literário-feminista (e que eu acolheria bem feliz), noutra cousa. A autora constrói um texto cheio de personagens a ver o mundo, e nosoutras a acompanhá-las na olhada. A voz narradora saltita de Agnes a Eliza a Joan a Judith a Hamnet, mesmo a gatos e a cernícalas, como se duma pulga se tratasse e assim vai elaborando a comunidade, o mundo em que o artista cresceu, as pessoas com quem se relacionou, das que se apaixonou e as que engendrou. 

A protagonista do relato não é a irmã que quer ser atriz. É mais, nunca, em toda a trama, afirma desejar isso. A protagonista absoluta é Agnes, que tem de esposo um escritor ausente agora, antes feliz com ela. Agnes, a mulher especial, Agnes, a que é filha de bruxa, Agnes a que criava um falcão (cernícala) e fugia aos campos com ele (ela), Agnes a que pariu no monte, Agnes a que sanda com ervas, Agnes, a única que vê os extensos horizontes que há habitar o seu homem. É tão imensa a Agnes que imagina a autora, que eclipsa totalmente a Anne Hathaway que dizem os papeis que existiu uma vez em Stratford.

O’Farrell constrói na figura de Agnes um canto aos cuidados. Todo acontece nos quartos interiores da casa, na cozinha, nos dormitórios, nas cortes dos animais, no lagar da cerveja. Os acontecimentos pilham às protagonistas aquecendo água para a sopa, branquejando a roupa, remendando as camisas, indo ao mercado vender ovos e mercar pão. Longe dos teatros e das outras cortes, contasse-nos a vida das que nunca saem nas obras dos grandes dramaturgos e os espaços que nunca se aparecem nas suas comédias. 

O’Farrell constrói na figura de Agnes um canto elegíaco. Também. Um lamento fúnebre perante a perda de um ser querido. A perda dificilérrima: a do filho ou da filha. Hamnet, que dá nome ao livro, é o filho que leva a peste. O irmãozinho que se troca pola irmã gémea e doente para que esta sobreviva, numa homenagem (assim o quero ver eu) àquela Judith que imaginou Virginia Woolf. E a segunda parte do livro, após a morte do meninho, vira num reconto das tentativas inúteis dos seus seres queridos por continuar a vida como se Hamnet não tivesse existido, ou morrido, ou não se sabe que. 

O’Farrell constrói na figura de Agnes (e do dramaturgo, também) um canto ao encontro na dor. A perda e ao encontro. A ausência do outro, da outra, para o consolo. A falta de comunicação entre pessoas que estão a sofrer o mesmo. Ou distinto. 

E acaba-o numa epifania: sim, a literatura pode salvar-nos.


Hamnet, Maggie O’Farrell, Libros del Asteroide, 2021


mércores, 22 de xaneiro de 2014

Se as mulheres tenhem país...

Foto roubada da rede

Por Susana Sánchez Aríns

De as mulheres termos país, existiriam leis que nos protegessem, educação que nos libertasse, estimação que nos figesse felizes. Porém, vista a realidade que nos envolve, é provável que este não seja país para mulheres.

Esta é a reflexão de Mary Wollstonecraft na sua novela Maria. Cumpre com ela uma necessidade perentória: oferecer às mulheres que serão uma experiência que a ela nenguma outra lhe legou. Não porque conhecimentos coma os dela não os tenha havido ou não os houvera no seu tempo, mas porque as canles de comunicação entre mulheres estavam cegadas pola lama da dominação patriarcal.

Mary Wollstonecraft foi atacada polo mesmo vírus que tem infectado outras mulheres: a urgência de evitar-lhe a uma futurível filha a cegueira própria, exercer a sororidade antes que a maternidade.

Na novela, a protagonista homônima convida às leitoras a conhecer as circunstâncias que figeram acabar a sua vida como louca num manicómio. Porém, há uma narratária concreta: a filha sequestrada polo pãe. A autora, para estender o abano social (Maria é de classe acomodada vinda a menos) dá oportunidade a outras vozes, mulheres com as que a protagonista encontra nas suas peripécias, de elas contar as suas diversas e tão parecidas circunstâncias.

Entre uma e outras desvendam, para aquelas que hão (havemos) de vir, a realidade do mundo:
Com a escusa de proteger a moral, a sociedade, a família, a tradição, o país e mesmo as mulheres, as leis estão construídas para garantir a tirania do homem sobre a mulher, considerada ser inferior. A única maneira de Maria evitar a sua indigna situação familiar é casar; casa pensando que escapa e entra numa maior prisão, da que só pode fugir afundindo a sua honra na lama. Ai, filha, a mim ninguém me contou que o matrimónio é uma armadilha!

E, mão a mão com as leis, a mã educação. Mulheres aprendidas a não fazer nada, a calar e obedecer, a ser ignorantes e parecer bobas de ser inteligentes. Mulheres incapazes de gestionar a sua própria vida e a sua independência. Virginia Woolf leu esta novelinha quando escreveu sobre a irmã de Shakespeare. Seguro. Ai, minha meninha, não temas os teus pensamentos!

As mulheres não deixam de ser escravas submetidas a um amo, que pode ser tirano, que pode ser paternalista, que pode ser mesmo afável, mas que não deixa de ser amo. A diferência entre umas mulheres e outras é a sua escravitude ser privada (propriedade de um marido atravês do matrimónio) ou pública (prostituídas para gozo de maridos -e outros- fora do matrimónio). Ai, minha prenda, não consintas ser a leira de outro!

A violência como continuum vital para a maioria da povoação feminina. Pode ficar (?) no simple desprezo, como no caso de Maria, ou pode chegar à cousificação mais besta, como no caso de Jeminna. Mas quase todas as mulheres que transitam pola novela, recebem como pílula no seu tratamento diário, condescendência, engano, isolamento, desgabo, crueldade, maledicência, abandono. É simples, corujinha, quem bem te quer, não pode fazer-te chorar!

A maternidade como arma de opressão. Punhalada que amarra esposas a matrimónios amanhados, cuitelada na que os homens decidem se querem ou não responsabilizar-se, em que medida, e como. A serventa expulsada por prenhar após ser forçada polo senhor da casa; as filhas ilegítimas levadas para amas de cria; as apócemas abortivas ingeridas à força por meninhas assustadas. Ai, minha rosa, só a mulher pode decidir sobre o seu corpo, que ela vai suportar toda a responsabilidade!

E a loucura. Porque esquecemos muitas vezes a educação sentimental que levamos séculos a receber: a diferente é uma frígida, é uma histérica, está tola, é uma doida. Ai, minha garavança, não és louca por acreditar na tua dignidade!

Todo isto e mais reflicte Mary Wollstonecraft em Maria, escrita com a declarada intenção de denunciar a situação das mulheres na sociedade inglesa do XVIII.

Pode ser que as cousas tenham melhorado desde 1798 em que a obra foi publicada. Porém, leio a proposta de penalização do aborto, ultrajantemente titulada Ley de Protección de la Vida del Concebido y de los Derechos de la Mujer Embarazada, e como Mary Wollstonecraft há 200 anos, pergunto-me se as mulheres teremos país.

Mary Wollstonecraft: Maria. Ou os males da muller.
Tradução de Mª Fe González Fernández.
Hugin e Munin, Compostela 2013




luns, 29 de xullo de 2013

Obrigada, senhora, por me devolver Ítaca

Tear. Foto: Juantiagues

Por Susana Sánchez Aríns

Marco Denevi, autor argentino, escreveu um micro-relato de título Tradução feminina de Homero que nos faz chegar outra maneira de ver a história, o mito. Segundo ele, para Penélope, as aventuras de Ulises não são outra cousa que uma armadilha ao seu privado gozo amoroso.

Temos sorte as leitoras galegas de contar com a escrita de Begoña Caamaño, pois graças a ela podemos publicamente gozar duma grande tradução feminista de Homero. É tópica a expressão italiana traduttore traditore, porém, Circe ou o prazer do azul faz-nos ver que no caso de muitas personagens femininas a traição estava, provavelmente, na escrita original.

A traição de construir um imaginário cultural e mítico (chegado até os nossos dias) no que a única maneira de trunfar uma mulher é através da renúncia a ser ela, como faz Ateneia. A traição de construir uma história na que o lugar reservado á mulher é a da custódia da honra ou a de ser moeda de cámbio e engano em negócios familiares e políticos.

Begoña Caamaño constrói um romance no que dá voz a mulheres acaladas na mitologia: a bruxa e a fiel esposa, dous dos arquétipos femíneos próprios da tradição literária patriarcal, estabelecem um diálogo no que se conhecem e aprendem uma da outra, uma na outra, as armas que usa o poder hegemónico para mantê-las ocultas e em silêncio. Só desse aprendizado em comum pode nascer, e nasce, a liberdade.

Circe e Penélope, que seguindo o pensamento que ainda hojendia rexe a sociedade, deveram ser inimigas mortais a competir polo amor do mesmo homem, compartem as suas cuitas, queixas e protestos e conseguem, uma com a ajuda da outra, dominar a arte de velas e ventos, navegar.

Como n'A Cidade das Mulheres de Cristina de Pizán, Circe e Penélope tecem juntas um cobertor que recolhe todo um manado de deusas, ninfas e mulheres às que os seus amos só lhes deixárom o caminho da morte ou a loucura se quisseram libertar-se. E esse cobertor feito a meias será o que dê quentura e força a Penélope para decidir o seu destino.

Muitos são os pormenores que devem ser atendidos no romance de Caamaño, cheio de referências e intertextualidades que fam dele um autêntico manual de sororidade: a alcova de Penélope transformada, por arte de Virginia Woolf, num quarto de seu; Laertes como o louco do faio que não está assim tão maluco; a transformação, a nível textual, dum texto epopeico, canto do herói, num intercámbio íntimo de correspondência; a ilha de Ea, paraíso adánico para todas as lilith que no mundo sofrem; a reflexão sobre a educação das crianças, feitas inimigo interior, como cavalo troiano adentro das portas da cidade; o juíço a Ateneia como remedo do juíço de Paris; a conxura linguística contra o epíteto épico, substituído por uma cornucópia de adjectivos afectivos, por um léxico trabalhado com inteligência e sensibilidade; e essa Penélope, uma Penélope imensa que o último que deseja, em contra da tra(d)ição imposta, é a volta do amo(r) -porque não há, no mundo em que vive, amo(r) que não tiranize.
Finalmente, esses versos de Xohana Torres, aos que Circe ou o pracer do azul é acabada resposta:

existe a maxia e pode ser de todos.
A que tanto novelo e tanta historia?

EU TAMÉN NAVEGAR.

Begoña Caamaño: Circe ou o pracer do azul. Editorial Galaxia, Vigo 2009.