Cousas pequenas coma estas, de Claire Keegan constrói-se como um conto de natal. A autora coloca a ação na vila irlandesa de New Ross. A narração flui como no mais que perfeito canto de Dickens, mesmo no estilo, até o ponto de ficarmos surpresas ao saber que estamos em 1985 e não o século XIX.
O protagonista, Bill Furlong, é o amo de um armazém de lenha e carvão, com esposa e cinco filhas. Os dias transcorrem para ele com a única preocupação de que nada lhes falte às suas mulheres. E nada falta. Também não sobra, mas nada falta. São as datas prévias à noite de natal e a família pode escolher presentes, preparar sobremesas e dormir quente, cousas pequenas estas na aparência mas essenciais no contexto de crise económica brutal que atravessa o país.
Bill Furlong comenta com a mulher na noite quem lhe deve lenha, a quem não lha vai cobrar porque acaba de ficar sem trabalho, quem se foi para Londres à procura de melhoras, quem fechou o negócio, e nunca esquece agradecer a deus não ser ele e a sua família vítimas desses tempos duros.
Os dias correm em uma rotina lenta, acompanhada de frio e neve: Furlong trabalha a jornada completa, volta na noite à casa, ceia com Eileen e as meninhas, e quando estas se deitam, partilha conversa ou silêncio com a parelha. Sabemos assim que ambos, ele e ela, tem uma relação consolidada, cúmplice, em que se conhecem com profundidade.
Enquanto acompanhamos a Furlong nas cousas pequenas do dia a dia, entramos nos seus pensamentos. As enumerações e descrições minuciosas que a narradora faz de cada atividade permitem-nos acompanhar o protagonista nas suas divagações:
Mirou para Eileen, que despregaba o cable do ferro de pasar para metelo no enchufe, e para as súas fillas, sentadas à mesa cos cadernos e lapis, dispostas a escribir as súas cartas, e ao facelo lembrou com pesar a vez que sendo un neno escribira, o mellor que soubera, unha carta pedindo que viñese o seu pai ou que lle trouxesen un quebracabezas de cincocentas pezas coa imaxe dunha granxa. Aquela mañá de Nadal, ao baixar ao salón que a señora Wilson lles deixaba compartir de tanto e tanto, atopara o lume xa aceso e, baixo a árbore, tres paquetes envoltos no mesmo papel verde: no primeiro deles había un cepillo de unllas e unha pastilla de xabón; no segundo, unha bolsa de alga quente; no terceiro, de parte da señora Wilson, un exemplar do Conto de Nadal de tapas duras vermellas, sem debuxos, que cheiraba a mofo.
Saíra à corte da vaca para agochar a súa decepción e chorar. Por alí non pasaran nin Papá Noel nin o seu pai. Tampouco atopara cebracabezas ningún...1
Porque um dos orgulhos de Bill Furlong foi chegar a ter a sua própria empresa, pequena como essa que tem, sim, mas própria, sendo como era filho de solteira sem pai conhecido. Consciente da sua origem, respeitoso da memória da sua mãe, não renega da sua condição nem a oculta e sempre, sempre, faz por ajudar à vizinhança que está a passá-lo mal, porque também da sua mãe se apiedou a senhora Wilson, a dona da granja em que trabalhava quando prenhou.
Não há senhor Scrooge neste conto.
E se não há senhor Scrooge, onde o conto, onde o canto, onde o milagre?
Claire Keegan mostra-nos que os fantasmas não são precisos para nos confortar com quem somos. Não têm que vir espíritos de passados nem de futuros. Chega com atender às cousas pequenas do presente.
É que um dia Furlong recebe o encargo de levar lenha ao convento. As freiras da Madalena levam um serviço de lavandaria para toda a vila. Contam-se cousas sobre elas. Rumores. Boatos. Cousas pequenas e escondidas que podem ser ou não certas. E Furlong leva a lenha e entra em um alpendre e dá com uma rapariga a dormir nele, fechada com candeado, e que lhe suplica para a tirar dali. O espectro não pode ser mais real. Espelujada, suja, de pés espidos. Mira polo meu bebé, pede-lhe.
Uma meninha pequena como esta, uma frase pequena como esta, rebentam, entre o frio e a neve, a rotina calma em que fluía a vida do Furlong. Cousas pequenas como estas obrigam-nos cada dia a tomar partido, a decidir se queremos atender ao mundo ou continuar habitando-o como sombras.
A autora não escreve nem oitenta páginas. E nelas, sem que sobre nem falte uma coma, com uma precisão cirúrgica2, coloca perante os nossos olhos um dos escândalos maiores da igreja católica irlandesa, os lares para mães solteiras das irmãs da Madalena. A arte de Keegan é a de impactar-nos sem quase entrarmos no convento, alheio absolutamente às cousas pequenas do dia a dia de uma vila, uma das causas, provavelmente, de que perdurassem durante tanto tempo as atrocidades acontecidas muros adentro. Keegan coloca-nos a nós no lugar da escolha. Nosoutras somos Furlong, e no dia a dia das cousas pequenas, devemos assumir qual é o caminho que queremos andar.
E adoramos que ela nos anime a caminhar da mão das cousas pequenas.
Keegan, Claire: Cousas pequenas coma esta
Tradução de Isaac Xubín
Rodolfo e Priscila 2024
1Keegan, Claire: Cousas pequenas coma esta, págs 25-26. Rodolfo e Priscila 2024. Tradução de Isaac Xubín.
2Impressiona como consegue levantar ata da ruptura da confiança na parelha com só duas frases.

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