Isso cantava Xenreira há bem de anos. A nossa estória contamo-la nós, acrescentaria eu.
Era desses livros sempre colocados na pilha de pendentes, de quando tenha vagar, de como não há obriga, nem compromisso nem urgência podem aguardar. Vinha recomendado polas companheiras, mesmo foi protagonista de um dos nossos clubes de leitura, mas continuava aí, baixando a cada vez mais ao fundo da pilha sem eu botar mão dele.
E agora que fechei a última página e dei cabo dele, cega às urgências, aos compromissos e às obrigas, o único que lamento é não ler antes. O passado também é imperfeito.
Mas podo compensar apurando-vos a quem estades a ler estas linhas: lede, lede, lede.
Em Futuro Imperfecto Xulia Alonso conta a sua estória. Diz que conta para a filha, diz que conta para ela mesma lembrar quando não lembre. Porém, oferece-nos um emburulho de papel como presente e a estória faz-se história e chega a todes nós.
Futuro Imperfecto artelha-se como uma longa carta de despedida, a de Nico, parelha de Xulia. A ele se dirige e para deixa-lo ir revisa toda a sua vida juntes. Quer ser ela a narrar. Quer que sejam as suas palavras as que a filha tenha no futuro, não a de outres que não vão saber explicar. Sabe ela? A urgência marca também a escrita. A peste ronda a casa. Não a COVID, mas a peste das apestadas, das rejeitadas, das clandestinas. A SIDA. Nico falece e Xulia pode ser a seguinte. Deixar a estória para a filha, para a história.
Fiz contas. Eu era uma meninha quando a Xulia chegou a Santiago para estudar. Estava a acabar a EGB quando ela e Nico se limparam da heroína, andava no licéu quando o VIH fez aparição nas suas vidas. Tenho no meu entorno pessoas que estiveram enganchadas à heroína. Lembro uma tarde n’A Farola, café, em que uma amiga, M., desabafou e contou a sua estória de drogodependência. Lembro o silêncio com a escuitamos. Ficou gravada em mim a conversa. Sabia que a sua era uma história semelhante a de algum integrante da minha família, e atendia à procura de algo, quê. Elembro bem a polémica que houve nesses anos na que fora a minha escola. O primeiro meninho doente de SIDA (sabido) foi escolarizado nela e teve que fazer grande labor pedagógico o pessoal médico que o atendia para convencer as famílias de levar as crianças à escola, pois muitas se negavam a partilhar espaço com um sidoso.
A heroína e a SIDA, sem fazer parte do meu quotidiano, sim faziam parte da paisagem que habitava. Mas todas as achegas artísticas que conhecim não se pareciam em nada aquilo que tinha perto. Trainspotting não era A Estrada, não era Vila Garcia.
E leio Futuro Imperfecto e vejo o meu mundo, a minha paisagem. E vai narrando Xulia Alonso a sua estória e vou encontrando ligações com outras estórias que conheço, e leio o processo da doença, a clandestinidade na compra dos retrovirais na outra ponta de Vigo, não se vaia saber, e o esforço do Nico por não parecer sidoso e vêm-me à cabeça aquele dias duros na escola do Fojo para uma criança portadora do estigma.
Futuro Imperfecto contava com todas as rifas para ser um livro mau: autora/narradora/protagonista, risco de truculências em yonkilândia, história de amor além da morte, doença fatal e despedida, o luito, o medo. Começamos a leitura com um primeiro texto em que a autora justifica o relato como uma oferenda à filha. Ui, cuidado!
E não. Alonso navega por todas essas águas com a perícia de uma grande narradora e sem chegar nunca a naufragar, ainda que a ondagem bata forte na cuberta do barco. Coloca-nos em um tempo acoutado: desde o diagnóstico de toxoplasmose da parelha, Nico, com praço curto de vida, até o falecemento do mesmo. A autora vai alternando a narração da evolução da doença, da organização dos cuidados na casa, da evolução, também, na atenção médica a uma enfermidade absolutamente nova, com saltos ao passado nos que vai fazendo revisão da história dos dous, do Nico e da Xulia. Nesses saltos atrás sabemos da sua adolescência, da sua entrada nos consumos, da queda na heroína, do poço fundo, da saída e recuperação e do golpe final, a aparição da SIDA.
Futuro Imperfecto é um romance de amor. O amor grande a Nico sim. Mas não só. O amor grande da família de Xulia, disposta a sacá-la do poço, fale quem fale e diga quem diga; o amor grande da rede de amizades que constroem e que es acompanham na doença; o amor de unhes médiques noves, dispostes a acompanhar com respeito e dignidade na doença clandestina. Xulia e Nico contam com algo que muitas doentes não obtiveram nunca: acompanhamento. E o livro é também uma longa carta de agradecimento a essas pessoas, sempre com nome, sempre a partilhar pequenos momentos de felicidade, sempre a respeitar os momentos de dor.
Ainda assim, do que mais gostei de Futuro Imperfecto é o seu carácter político. Quando viaja às aldeias dos seus avôs e avós para nos narrar as suas estórias de vida, parece que nada tem que ver isso com a realidade do momento. Demora-se a autora nos antecedentes familiares, lá na Rua de Ourense, lá em Quiroga, com avôs presos por protegerem um filho fugido no monte e avós que perderam um e dous e três e quatro filhos. Faz-se necessária esta viagem para narrar uma yonki da década de 80? Pois! “Todos saiamos dunha “Casa de Bernarda Alba”, todos nos incorporabamos a non sei que loita sem moita conciencia do porqué, todos fuxiamos de algo ou alguén” (pág. 99), conta a autora. Liga estreitamente a educação e as estruturas familiares repressivas da ditadura com a atitude de uma mocidade recém chegada à liberdade se muita ideia de como usá-la. Narra uma relação conflituosa com o pai, mas tem a capacidade de perceber que o autoritarismo dele nasce do sofrimento familiar com a repressão franquista: “-Nunca sorría, nunca se lle vían os dentes” (pág. 136). A ser pai não se aprende. A ser filha tampouco. Eu eu levo esse contexto que Alonso tão bem desenha à minha família e percebo melhor. E liga a resistência da sua própria família à que ela necessita para sobreviver: “Viñeron a min imaxes dos meus devanceiros (.../…); o avó do meu pai, Xan María, que resistía os interrogatorios da Garda Civil sen soltar unha palabra sobre o paradoiro do seu neto, o Rebimba. Todos eles viñeron senque eu os convocase. Todos viñeron rescatados pola memoria, esa que miña nai me legou e que gardei celosamente sen saber canto me serviría. Todos viñeron como mostra de que a resistencia era posible, para darme un pulo desde a forza do sangue que me permitise recuperar o control sobre a miña respiración e, así, ser quen de emerxer de novo. // A memoria, o elemento fundamental para engarzar os elos que dan sentido à vida, que poder!” (págs. 221-222).
Futuro Imperfecto é um livro de poesia. A autora joga mui bem com as imagens e as descrições. Esmiuça os eventos em pormenores sensoriais de uma maneira magistral, e consegue colocar-nos no lugar em que precisa que estejamos. Deixa e recolhe imagens ao longo da narrativa estabelecendo as conexões menos aguardadas: o fluir da respiração no parto, as mudanças na respiração não agonia.
Futuro Imperfecto é narrativa para ler, traz pessoas para lembrar e apresenta uma autora a respeitar. Muito gostaríamos de que continuasse a fazer (a nossa) História(s).
Xulia Alonso: Futuro Imperfecto
Editorial Galaxia, 2010.

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