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domingo, 9 de novembro de 2025

Medeia redimida por Susana S. Arins

    Medeia é provavelmente a personagem feminina da literatura clássica grega mais revisada. Nem sequer a Penélope, tão citada. Medeia protagoniza versões teatrais e romances e óperas, onde a Penélope recebe um verso, uma frase paciente. Entra Medeia no lote de mulheres loucas, loucas de amor, de ciúme, de fúria, que castigam os homens, os pobres homens que o mundo habitam. Medeia reitera-se porque acolhe em si a pior das maldade femininas: matou as suas próprias crianças. Comete o delito que mais desnaturaliza a naturalidade feminina: renunciar violentamente à maternidade. Renunciar violentamente à maternidade como forma de vingança. 

Nas revisões feministas da cultura, da literatura, adoitamos apropriar-nos de personagens malditas para re-escrevê-las e reivindicá-las desde outros olhares, os nossos. Colocamos Circe e Penélope a enviarem-se cartas de Ítaca a Ea1, fazemos de Morgana uma defesora da cultura tradicional2, devolvemos a Helena de Tróia o nome Helena de Esparta3, damos voz às perdedoras, todas, da guerra4. Porém, quem pode defender Medeia? Quem pode justificar que assassinasse os seus dous filhos, crianças indefesas? Como muito justificamo-la na sua doença: não era bem. Isso fazem Eduardo Alonso e Manuel Guede na súa versão teatral5. A única saída digna que permitem à protagonista é o suicídio. Mas é uma defesa feble. A brutalidade do delito continua aí. E podemos deixá-la que se explique6, mas o crime eis continua.

Até chegar Dahlia de la Cerda com o seu Medea me cantó un corrido7.

A obra tem a mesma estrutura que o seu anterior volume, Perras de reserva: um conjunto de relatos que podem ser lidos como capítulos de um romance porque contam com personagens entre-cruzadas. Os relatos têm autonomia, são auto-conclusivos, porém, podem adquirir novos significados ou perspetivas uma vez lidos os outros no seu conjunto. 

No título da obra aparecem-se já as súas características: Medeia aparece-se como personagem que fala à narradora e Medeia abandona a Grécia para se instalar no México. 

Medeia comprou um vestido negro, “me fui a poner bellaka a un centro de belleza, me trenzaron el cabello, me pusieron extensiones de pestañas y me tatuaron la línea de afuera de los labios. Compré unas arracadas enormes de serpientes. Compré un carrito que tenía aerografiadas unas serpientes y me fui a la feria de Señor de las Aguas Ardientes” (pág. 100). E assim, trasladada ao século XXI, recorre Medeia as terras de Aztlán, “que es una tierra em guerra, una tierra sanguinaria, una tierra sin esperanza” (pag. 99). 

Cada relato de Medea me cantó un corrido é a estória de (não)maternidades. Paulina quer abortar, Perla quer deixar ao narco Manuel e não ter um bebé com ele, Jordán, filho, precisa morrer com calma, Antonia quer maternar com autonomia, sem homens e criar sem violência, para a paz, e Reina quer encontrar o corpo morto de Jordán, o seu filho. Medeia acompanha a todas estas pessoas para poder fazer com bem aquilo que precisam, oferece ervas, canta, acarinha cabelos, susurra contos. E nas suas estórias recorremos modelos diferentes e situações diversas: a maternidade em solitário, a depressão posparto, a perda de um filho, o desejo imperioso de ser mãe, o desapegamento das crianças, a comunidade cuidadora, o desejo imperioso de não ser mãe, a sororidade. 

Nesse processo de ajuda, partilha parte da sua estória e nós vamos chegando a ela através das protagonistas dos contos: “Medea fue la mujer del proceso de Jasón: esa mujer que apoya al hombre cuando no es nadie, lo reeduca, lo hace persona, le lava la ropa, le cocina, le limpia la casa, lo escucha, lo apoya, lo respalda, le resuelve la vida, le da terapia, le da validación para que cumpla sus sueños, para que se realice, para que sea exitoso. Y que, cuando obtiene el éxito, ¡boom!, la deja, ¿sí ubicas cómo? El papá de Medea sabía que ese cabrón no le convenía a su hija, porque los papás saben cosas. Y, aunque superó todas las pruebas, no le dio ni madres. Entonces Medea, mi preciosa, mi chiquita, toda inocente, ajá, lo llevó a la caja fuerte donde su papá tenía las escrituras y lo ayudó a robárselas. Jasón le prometió que siempre le sería fiel, que jamás la traicionaría, que se casaría con ella en la boda de sus sueños y serían felices tipo por los siglos de los siglos, amén. Y esta pendeja le creyó todo. Hicieron el delicioso y huyó con él. Sí, Medea fue la mujer del proceso. Y una vez que Jasón tuvo en sus manos las escrituras del terrenito, la dejó y se casó con otra, literal.” (págs. 32-33).

A Grécia clássica e o México atual têm em comum serem geografias da violência. As expedições de rapina e guerra gregas tiram de armas, belicismo e força bruta para se impor por mares, costas, cidades e vilas. A sociedade mexicana vive no fogo cruzado entre o narco e o exército, pagando com os mortos de um e outro bando. Ao tempo, as relações de parelha também estão marcadas, em um e outro mundo, por uma violência estrutural que faz delas seres dependentes e subordinados. Assim a Medeia se entende tão bem com as suas protegidas. E com Jordán, esse Jasão tão bem contado e também filho de alguém. A obra de Dahlia de la Cerda, ao nos mostrar as outras troianas, as outras vítimas da guerra (do narco), ao nos expor à violência, sem miramentos e com muito humor, constrói um manifesto pacifista liderado por aquela que matou as suas próprias crianças. 

Porque esta é a grande maravilha desta proposta literária: Medeia não é escusada. Medeia não é queimada na fogueira. Só no último relato, depois de conhecer o seu trabalho como cuidadora, escuitamos a sua voz, a sua versão: “A Jordán lo ayudé a bien morir. / A entender la muerte. / A superar el miedo / Murió abruptamente junto a su perrito. / Lo recibí em la tierra de los muertos. / Lo consolé. / Cuando lo abracé pude sentir a mais hijos diciéndome: No hay pedo, jefa, no estuvo chido lo que hiciste, pero nadie nace sabiendo ser madre. Te perdonamos, pero repara el daño. / Y aquí estoy, reparando el daño”. (Pág. 109). 

Dahlia de la Cerda exerce a justiça, não a vingança: oferece à que cometeu o delito a oportunidade de aceitar os feitos, admiti-los publicamente, pedir desculpa e redimir-se ajudando outras vítimas a sobreviver. 

E Medeia recuperou a voz.


1Circe ou o pracer do azul, de Begonha Caamanho, em Galaxia. 

2Também Begonha Caamanho, com Morgana en Esmelle.

3Helena de Esparta, de Loreta Minutilli, em Alianza Editorial.

4Mil naves, de Natalie Haynes, em Salamandra.

5Medea. Versión libre sobre textos de Eurípides, Séneca e Anouilh, Xerais 1988.

6Na boíssima BD de Nancy Peña e Blandine le Callet, Medea, em Tengu Ediciones.

7Sexto Piso, 2024.

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