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domingo, 30 de novembro de 2025

Manses como pardais no cevadoiro por Susana S. Arins


Abasta que até aqui, como quer que se eles em alguma parte amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam como pardais de cevadoiro; e homem não lhes ousa falar de rijo por se mais não esquivarem. E tudo se passa como eles querem por os bem amansar.

Pero Vaz Caminha: Carta do achamento do Brasil



Lim Sobre la barbarie. Por una crítica incivilizada de la modernidad, de Ibai Atutxa1 e vieram à minha cabeça as leituras das narrativas coloniais que fiz há anos. Analisara daquela como os primeiros narradores dos encontros civilizacionais (violentos) estudavam as pessoas que encontravam nas viagens e as classificavam no seu imaginário para decidir que políticas acionar com elas, ou doutra maneira, para justificar as políticas que já decidiram pôr em ação. A base da classificação era decidir o nível de humanidade de cada povo, desde a animalização selvagem exterminável até a humanidade civilizada com a que negociar. Os muitos povos originários americanos desaparecidos faziam parte do primeiro grupo, a civilização japonesa, do segundo. No meio, os selvagens escravizáveis e aqueles domáveis, por mansos e adánicos.

Veio à memória porque sobre isto reflexiona Atutxa no seu ensaio. 

Sobre la barbarie é um livro breve, quase um opúsculo. Lê-se com facilidade e com vontade de continuar a aprender em cada capítulo. O autor faz um percorrido pola historia da língua basca para contar-nos como foi construída a imagem de bárbara para esta língua, em contraposição à imagem de civilizada das outras línguas em conflito (a espanhola, a francesa). E se bárbara é uma língua, bárbaras são as suas falantes. 

Atutxa recolhe quatro momentos da história da língua, da história do povo, para mostrar-nos como, chiscadela gatopardiana, a construção do bárbaro se vai modificando e adaptando aos tempos com a finalidade de que nada mude: o século XVI e o idolatra maldito, o século XIX e o europeu primitivo, a metade do século XX e a étnia colonizada e os finais do XX como o terrorista irracional. 

Vamos fazendo a leitura e não podemos deixar de relacionar. De relacionar com a história da nossa língua, do nosso povo. De relacionar com outras violências opressoras e opressivas. De relacionar com outros povos e a imagem que se constrói deles para os poder genocidar. 

Começo a ler na página 25 o informe sobre pessoas torturadas no estado espanhol desde o ano 1975 e vai o pensamento para a Palestina, e essa desumanização brutal que precisam fazer das suas outras as israelitas para justificar o genocídio. Porque isto nos explica Atutxa: o bárbaro, o selvagem, é-lhe necessário ao civilizado para existir. Sem bárbaro não há civilizado. E dá conta o autor, como ao longo da história, fomos caindo na armadilha de nos ler nesse espelho civilizador: E participamos da dicotomia quando justificamos que as nossas línguas são mais puras por mais antigas, ou que são tão civilizadas como as outras, ou que também servem para falar com milhões de pessoas. 

Vamos fazendo a leitura das quatro fases da barbarização e pensamos no galego, nas galegas e nos nossos processos. Nós não somos terroristas irracionais, ainda que está aí o perigo, no horizonte das possibilidades. Por isso essa dicotomia entre xs da kale borroka, as amigas da ETA e os do sentidinho, que assoma de quando em vez nos discursos civilizadores. Ou essa colocação no atraso fronte ao progresso e outra vez xs do não perante os do sentidinho.

E voltamos àquelas leituras coloniais e caemos na conta de que também as nações não espanholas fomos colocadas nessa escala civilizacional, onde o basco representa o selvagem torturável (exterminável), o catalão o humano civilizado com o que negociar e o galego o selvagem domável, manso e esquivo como pardal no cevadoiro.

Continuamos a leitura e agradecemos ao autor a sua olhada crítica sobre a própria história e sobre a própria sociedade, sem negar nem ocultar a participação dos bascos civilizados, daqueles que renunciam à língua e se adaptam ao sistema, nos benefícios do negócio colonial ou da exploração capitalista. 

Outro elemento de que gostamos na obra é do seu carácter translinguístico. O autor põe em relação a violência linguística com outras violências, de classe, de género, de raça, de sexualidade. Considera todas elas necessárias para a supervivência do sistema capitalista, para submeter e controlar as povoações e os territórios. Umas violências e outras se ativam de maneira interdependente, polo que só temos uma possibilidade: a aliança na rebeldia, a aliança nas luitas. 

E superarmos a dicotomia bárbaro / selvagem declarando-nos absolutamente incivilizadas. 


Ibai Atutxa: Sobre la barbarie. 

Por una crítica incivilizada de la modernidad

Txalaparta 2024. Tradução de Arrate Hidalgo. 


1Txalaparta, 2024, tradução de Arrate Hidalgo.

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