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domingo, 15 de agosto de 2021

Roteiro Imaginário e Caseiro pola Vida e Obra de Uxía Casal Silva, por Susana S. Aríns

Os roteiros imaginários (ou não) são uma versão fantasiosa dos roteiros biográficos. Exigem por parte das participantes a capacidade de se deslocar a outros lugares pois o espaço em que se desenvolvem não deixa de ser uma metáfora doutros espaços.

Os roteiros imaginários (ou não) nascem da leitura atenta da obra das autoras roteiradas e não são outra cousa que uma escusa para partilharmos os seus textos.


1. BIBLIOTECA


Uxía Casal teve um tio-avô de ofício enquadernador. E ofereceu a ela e à irmã velhos exemplares amarelados do Capitán Trueno, do TBO, do Pulgarcito. E foi Uxía lendo ao tempo que escuitava velhos contos de bocas adultas a pretender que a sua boca mínima mastigasse comidas. E continuou a ler a vida toda, com os livros a acompanhá-la a cada nova casa, e venha a ler, mesmo até o ponto de provar a ser crítica literária por uns dias, e com essas leituras fertiliza os livros de seu. Hoje, gosta de percorrer coa mirada os andeis onde repousan Tintín, Spirou, Fole, Stevenson, London, Dumas, Sabatini, esse cujos 30 livros devorou num só verão, Matute, Dieste e algúns outros vellos amigos que permanecen firmes nos seus postos. Detéñense os seus ollos no luído exemplar de O Hobbit de Tolkien que tantas veces leu de mociña e nos tres tomos de O señor dos Aneis. Sorrí por dentro ao collelos e lembrar as marabillosas tardes que pasara escapando de perigos arrepiantes con Bilbo e Frodo Bolseiro1. Nunca foi fetichista com a sua biblioteca. Sempre emprestou e deixou levar, quem sabe se por medo a que alguém saltitasse adoecido de entre as páginas para se vingar do seu voraz apetito e leitor. 


2. AO PÉ de FOTOS E RECORDOS


Um dos prazeres segredos de Uxía Casal são os carros. O automobilismo em todas as suas facetas. Adora guiar por unha estrada revesgada que atravese un monte acugulado de piñeiros onde se note o rastro dos temporais na cantidade de pólas e ramallos que a salfiran. Adora que néboa, por veces, lle confira un aire fantasmal máis propio de contos e lendas á calor do lume ca da realidade. Algúns condutores locais guían por ela coma auténticos amos do mundo e métenlle algo de medo no corpo; cómprelle ir moi atenta para non sufrir ningún percance. 

Adora chegar á casa coa gorxa desfeita e os oídos asubiando coma tolos despois dunha viaxe por atallos envoltos na escuridade que só un taxista pode coñecer. Percorrer estradas de noite coa sensación estraña asemade que inquietante. Guiar por aquelas polas que non pasa un só vehículo e nas que as árbores, lambendo as beiravías, imprimen unha curiosa sensación de ameaza, ideal para imaxinar escenas dignas de Cortázar2.

A sua ânsia secreta tem sido participar no Rally de Noia, levando por copiloto ao Víctor Senra, em um Peugeot 106 tuneado. Por isso procura colocar nas suas obras referências concretas a automóveis e dar protagonismo nelas aos veículos de motor, como os decoradérrimos tráilers de Sede en Ourense, ou o Seat 127 modificado que utiliza Rosalía Pardal. Ao invês que com outros muitos elementos, nunca os meios de transporte são um perigo na obra casaliana. 


3. GALINHEIRO



As galiñas son os seres máis parvos e simples do mundo”, disse alguém alguresE se algo incomoda a Uxía Casal são os lugares comuns. As frases feitas. Os preconceitos. O branco sobre preto. E por isso gosta de rachar com essas ideias de jing e jang, de arre ou xo nas suas obras. E se para as rebentar tem que escrever de galinhas espelidas, escreve. Porque ser espelida não é ser sabida. Que pouco suporta Uxía Casal os galos de alto poleiro que acreditam o sol nascer por eles cantar. Ser espelida consiste em reconhecer a própria falta de saber e ousar saltar as relhas do capoeiro para superá-la. Gosta dessa ignorancia, non por compracerse nela, senón porque, ao recoñecela, está abrindo a porta para emendala. Sen curiosidade o gato viviría, pero non aprendería nada novo e iso sería moi triste.

Cuidado, que o mundo nunca é o que parece, e pode que a pita parva e simples que recolheches na rua já adulta, renarte após conhecer a habelência da raposa e da cobra, acabe por lhe comer os olhos ao teu gato doméstico, pacífico e obediente3.


4. CABIDE DA ENTRADA


Afirma Uxía Casal que estudou Geografia e História e Filologia Hispânica ao tempo que dava aulas particulares de francês e espanhol para estrangeiros. Nunca devemos ler a direito as biografias, que as carrega o demo. Nesta vida as pessoas têm o direito - e mesmo o dever- de mudar segundo as circunstâncias, e em consequência, realizar ações que nem as mais achegadas aguardariam delas4. É esta discreta gabardina o resto da sua atividade oculta: Investigadora privada. A isso dedicou esses anos a autora. O seu sequestro, consequência de uma das suas pesquisas, realizado por um suposto marido infiel que disfarçava de encontro amorosos desembarques e intercâmbios de heroína, fez que a escritora mudasse a mestra, profissão menos agradecida e perigosa, seique. 

Daquela experiência ficaram marcadas nela duas paixões: a atitude contemplativa e a afição a  observar polo miúdo detalles, persoas e animais con todo o que iso trae consigo. Unha casa con horta constitúe un escenario ideal para exercer esa capacidade de observación, pois a cantidade de bechocos que xorden día a día chega a ser innumerable. Unha araña, por exemplo, leva instalada na súa arañeira máis dunha semana, entre o piar e o teito do alpendre onde dorme o coche. En aparencia, non fai nada máis que agardar e a súa espera debe de ser frutífera, xa que está gorda e semella sa.

A esplanada de um café é o summum da arte contemplativa. Toda classe de personagens aboiam ao empedrado da praça com a autora ex-detetiva a botar mão de uma inocente Oberdorfer: a caminhadora fraca e adusta, a cozinheira que dá bons conselhos, a senhora que bebe café com o dedo estricado, o construtor amante da leitura.

A outra paixão, marcada a ferro também: o gosto polo género policial. Petra Delicado, Brunneti, Montalbano, Belbilacqua e Camacho fazem à Casal rememorar com tenrura os seus anos detetivescos na Aldeia Sagrada. E voam aos seus textos remudados em jornalistas ananas ou sexadores de polos reciclados, acompanhados sempre de polícias corruptos, polícias honestos (seique existem), ladrões com três voltas e mesmo espiões do Vaticano. 

Como no filme de Hitchcock, assomar indiscretamente à janela ou à varanda promete contemplar o mundo com os olhos da alma. Sempre com o cuidado preciso para não esvarar, abanear, trenquelear e cair passeninho desde um oitavo andar5.


5. OLIVEIRA


Mulher de grandes contradições, como qualquer pessoa que se prece, sempre se negou Uxía Casal a viver no rural, ao tempo que gozou, sempre, de ter perto a natureza. Às vezes em fotografias e textos, às vezes em testos. Esta oliveira chegou desde a Holanda até Áuria, e viajou com a autora por cada casa que habitou. Nada como as plantas para exercer a tarefa da contemplação e observar o cíclico passo do tempo. Nada como sentar numa butaca e contemplar os testos de geránios, azaleias, begónias, gardénias a espalhar o seu colorido e o seu recendo. As plantas falam das suas necessidades e dos seus desejos, explicam com frequência os sentimentos que algumas pessoas produzem nelas. Há gente que as altera muito, porém a presença doutras é-lhes mui agradável e sentem-se em paz e felices6.

Também é verdade que devemos suspeitar do seu viço, não vaia ser que nos aconteça como no conto

5.20.2005

A FLOR

Os efectos beneficiosos da orquídea ben se vían na súa figura: éralle moito máis doado seguir a dieta, ir amodiño diminuíndo o número de talle, facerse día a día máis esvelta. Ignoraba quen lla mandara e ningunha das súas cábalas lle dera unha resposta factible. Estrañábase de que non murchase malia levar varias semanas na casa, no púcaro branco, mesmo semellaba medrar de xeito imperceptible, aumentar a súa carnalidade a medida que ela adelgazaba (coincidencia, sen dúbida, pero ben curiosa); calquera diría que até ría. ¡Que linda se estaba poñendo!7



6. RESTOS DE FOGUEIRA / CHAMINÈ


Uxía Casal escreve desde sempre. Na sua consciência vão acompanhadas e acompassadas escrita e leitura. Só que das suas obras emergentes nada conservamos. Ou sim. Os restos em borralha, esta cinza, o rescaldo de uns diários que nunca poderemos ler. Grandes foram os esforços da mãe por salvar os cadernos da queima: o lume crescia mais e mais ao seu redor, quase os cercava. Apanhou-nos sem se decatar de que estavam a arder e teve que ceivá-los ao sentir a queimadura a proer-lhe na mão. Arrancou a bata do corpo, fez um envurulho com ela e usou-a como proteção, apreijada já por uma agitação carregada de esperança8. Deu com os cadernos, botou-nos fora da fogueira mas apagadas as chamas eram também as palavras todas a apagadas. Grisalhas as páginas, esborranchados os primeiros escritos. Para a Uxía que queria ser adulta foi uma destruição sem dó. De fénix. 

Diz-se escritora lenta. É das que  escriben sabendo o que vai acontecer; unha idea vaga axítaa e rebole durante meses, anos incluso, até que experimentaa necesidade de poñerse con ela, explorala e deixarse levar. Non carece de inconvenientes ese sistema, claro, coma cando saen personaxes mesmo de debaixo das pedras e atópase cunha morea de xente que non fai máis que armar barullo. Chegados a ese punto, vese no dilema de matar algún, borralo do panorama ou fundilo con outro. Tamén ocorre o caso contrario: un personaxe en principio cativo medra e medra até constituírse nun dos protagonistas principais.

Temas que non ía tratar métense no medio e non lle queda outra que traelos a colación, se non quere que a cousa se revire.

É certo que ás veces algunha personaxe se rebela, saca a escopeta e diríxea cara a mesa. O lector contempla o lombo do seu abrigo e adiviña os seus xestos; sabe que apreixa a arma e que pousa o dedo no percutor. Agarda que dispare. Está farto desa historia que non escolleu, farto da monotonía que non permite nin a menor variación, farto de non poder ser imprevisible. Dá a volta con lentitude; avogado e cliente fican paralizados polo desconcerto, igonoran que está a ocorrer. Escoita as súas voces queixosas, desorientadas; saben que os ten que matar e non comprenden. Achega a escopeta á súa propia cara, apunta a ese impertinente lector que contribúe a mantelo na gaiola cada vez que o le. Dispara, unha, dúas veces. Nunca máis deixará de ser dono do seu destino. Nunca máis9.



7. GRADICELA


Durante anos, Uxía Casal geriu um blogue em que expunha escritos, criações, reflexões e apontamentos do natural, que diria uma entomóloga. Pôs-lhe de nome Gradicela porque había pouco lera sobre eses animais que, amais de ter forma de estrela, posuían calidades tales como rexenerar o corpo a partir dunha soa pata e, asemade, rexenerar a pata perdida no corpo eivado. E o que máis lle chamara a atención fora que, segundo as necesidades do hábitat, podían cambiar de sexo para equilibrar a carencia do doutro. Unha auténtica marabilla, vaia, ou iso coidara ela naquel momento. Com o tempo caiu no, desánimo? Sospeita que esa é a palabra. É un pouco duro decatarse de que non, non temos forma de estrela, se perdemos un brazo quedamos sen el. 

A própria e contínua regeneração, em base à vontade e à disposição para mudar, é algo que defende na sua escrita Uxía Casal. Ela, que não gosta de eufemismos, que mesmo odeia eufemismos, é surda e na surdeira vive. Ademais sofre quotidianas dores fibromiálgicas, ou reumáticas, ou artrósicas, ou quem sabe que. São dores que não esconde e nas que também não se recreia, não. Podemos saber delas nos seus espaços internáuticos. 

Pode ser que seja por isso, ou não, que gosta de fazer protagonistas das suas histórias a pessoas doridas, no físico e no psíquico, gentes que vivem no silêncio durante anos, senhores enclaustrados de por vida em cadeiras de rodas e incomunicação, moças acondroplásicas com caminhas e mesinhas e roupeirinhos adaptados, viúvos que só vem conspiração assassina no lento voo das gueivotas. 

O mesmo que Genoveva aceita a sua ignorância e peleja para superá-la, noutros casos a aceitação passa por não querer mudar: levaba vinteseis anos sendo diferente. Non me gusta que me manden, se cadra por ter nacido baixo o influxo ferozmente independente de Tauro; se cadra porque nunca me agradou que ninguén, débil ou poderoso, decida por min. Quería ser a única dona da miña vida; quería, tamén, que os demais fosen donos das súas na medida do posible. De acordo que a ananez acondroplástica non constitúe ningunha bicoca; de feito, non ousaría recomendarlla a ninguén. Pero Néstor Daponde acadara o que semellaba imposible: que Rosalía Pardal, a base de descubrirse paseniñamente, aceptase de corazón a Rosalía Pardal10.



8. DONA E MELAS


Se alguém importante há na vida de Uxía Casal esse alguém são estas duas: Dona e Melas, as cadelas que partilham com ela e com B casa e vida. No blogue Gradicela podemos fazer um seguimento das suas andanças no mundo, seguidas de perto pola câmara fotográfica e os cadernos de Uxía. Outra vez a observadora atenta e contemplativa. A aprendizagem partilhada da convivência.

Outra vez a contradição de só gostar dos animais em foto e deixar entrar na própria vida estas duas. Outra vez, quiçá, o enredo nas palavras enunciadas contra as evidências da realidade. Ou as leituras superficiais de textos transparentes: porque na obra de Uxía Casal aparecem-se continuamente, o mesmo que as plantas, os animais. Acompanham às protagonistas, são vítimas de ações humanas, viram eles mesmo protagonistas. Uxía Casal goza de passeiar polo monte da Garitaque queda moi preto da casa e a el vai acotío a pasear coas cadelas; elas dedícanse ás súas ocupacións favoritas, que consisten en osmar todo a fondo, buscar coellos e non pillalos nunca (do cal se alegra), choutar e correr con liberdade, roer piñas e paus e saudar a quen se cruzanNão é estranho encontrar ecos desses passeios nos seus livros: Non tivemos valor para deixar a Carrizo na casa. En canto aparecemos no limiar, o seu rabo iniciou un vertixinoso meneo que perseguía poñer em claro o moito que nos amaba, que agardaba ser correspondido nese amor e que, por favor, non o abandonasemos à súa sorte. Co aquel da voda ninguén lle prestara moita atención e esforzábase em amosar o soíño que se sentía. As três almas sensibles que contemplaron unha representación tan convincente cederon ao que supoñían demandas dun paseo que sabería agradecer bem cunhas boas lambetadas11.

Só que, o mesmo mesminho que as humanas almas, as vidas dos animais estão submetidas também ao azar e às veleidade de Saturno, e nada é o que parece e a ação mais inocente devém, como tantas vezes,em desgraça: O tolo do Carrizo choutaba ao meu redor, adiantábase, volvía como un remuíño de pelo que mareaba; afortunado el, que non experimentaba dificultades para expresarse. Busquei o seu miniclon para equilibrar un pouco as caricias, non ía recibir un só o lote completo. 

- Onde está o pequecho? - preguntei despois de saudalas -. Non o vexo por ningures.

- O pequecho… morreu -a voz de Pilar transformouse nun fío agudo. 

Estremecín cando me contaron os detalles. Xogaban os dous tan contentos e… o grande caeu, con moi mala pata, sobre o diminuto corpiño do outro. En fin! Supoño que máis cedo ou máis tarde había ocorrer12.



9. VELHA SEREIA




Se de algo gostamos as leitoras feministas de Uxía Casal é das personagens femininas que constrói. Todos os macaquinhos que nascem da sua imaginação são como não aguardamos deles, todos escondem segredos, duplas e triplas vidas, reações inesperadas por ausentes no seu quotidiano prévio, desvendado em quatro ou cinco frases. Mas reconhecemos que são elas as que mais nos divertem, por subversivas e surpreendentes. As personagens de Uxía Casal são algo semellante a parentes non moi próximos dos que sabes algo de cando en vez, cuxa vida experimenta acontecementos coma a túa que os fai cambiar e ti, espectadora privilexiada, asistes a eses cambios que che poden gustar ou non, pero que de seguro te entreteñen. A idea que tiñas dese personaxe muda, ás veces de xeito irremediable. Só ela é quem de, humoradamente, apresentar-nos uma tópica e insuportável sogra, essa quem de soltar restras de insultos, com aquel ton pousado e falsamente afable, ata a media noite13ao xenro parvo, inocentón, papabroas sem iniciativa, para a transformar no meio da trama na dirigente de uma enorme rede de contrabando, condutora de um camião para ela ser feliz e com um amante vinte anos mais novo. É claro, com a consequente confusão do parvo, inocentón e papabroas sem iniciativa do xenro. Ou de fazer de uma humilde viúva de marinheiro uma espiã ao serviço dos interesses do CESID. Ou de fazer de uma corrente limpadora, executora caníbal quando antes a fez ladra: 

A ladroa: Anunciouse no súper para facer limpezas; o corpo bolecho e rotundo non denunciaba unha ionqui, malia que a dentamia cariada facía sospeitar. Tiña que traballar. Necesitaba os cartos. Limpou ben. Agora está pendente de xuízo. Un máis do seu longo historial.

A sereia de Andersen perde a própria voz por ficar entre os humanos. A Velha Sereia de Uxía Casal aprende da vida, e nega-se a ceder autonomia e independência, e exerce, voz em rádio-frequência, o seu poder sobre os homens. 



10. SEBE DE HORTÊNSIAS


Esta é a entrada à Cova dos Mouros. Sempre gostou Uxía Casal das histórias da tradição oral. Contavam-lhas na casa quando nena, para ela bem comer, já dissemos. A avó entrava com um sorriso tranquilo, sentava numa cadeira, colher na mão, após perguntar se o caldo estava quente e completava o rito aspirando aire cunha profundidade que agoiraba o misterio; pois sabía que estaba a piques de aparecer perante os seus ollos un mundo que só ela sabía crear. Adoitaba contarlle contos em que os protagonistas, malia a sua pequenez e debilidade, acadaban recompensas marabillosas tras vencer xigantes e seres maléficos obsesionados por destruílos, coa única axuda dos seus propios medios e algún que outro empurronciño de meigas e trasnos caprichosos ou benévolos14. Os contos sobre mámoas, tesouros, castros, pitinhas de ouro, lajes mágicas, e mouras a acarinhar cabelos com pentes de ouro eram as suas preferidas. Durante anos, os seus passeios à praia enredada em cons, ou ao monte da Garita, salferido de penedos enormes, tinha como único objetivo dar com esses tesouros, com a entrada a um outro mundo divergente deste. Mesmo chegou ao ponto de pensar em estudar Geologia, se não for que daquela havia que deixar a Aldeia Sagrada para estudar na velha Vetusta. Houve de ficar em Geografia e História e em salferir de pedras mágicas, diminutas, enormes, os seus relatos. 

Feliz foi, quando, numa tarde de estudo na Biblioteca da Faculdade, consultando uma obra sobre o povo asteca, e querendo focar a vista nos pormenores de uma imagem, colleu com tanta torpeza o libro que este caeu com estrondo ao chan. As follas amarelas revoaron entolecidas durante uns intres e unhas cantas asomaron de entre as demais. Uxía acorouse toda coidando que rompera o libro, mais ao recollelo decatouse de que aquelotras páxinas eran case marróns e formaban un pequeno volume independente do principal. Tomounas coa curiosidade que nela xa era virtude e mirounas com sorpresa. Estaban unidas entre si por unha serie de coidadosas puntadas no estreito lombo, e na primeira páxina líase con claridade un título do máis prometedor: Métodos, sistemas, maneiras e outras artimañas para extraer auga das pedras15.


Disso vive agora a autora, que escrever não dá. 


11. FARO DE CORRUBEDO. Bonus Track.


Enormes gaivotas planam preguiceiras e uma trás outra vão baixando ao rochedo para contemplar, todas juntas e em silêncio, o pôr-do-sol que se adivinha no horizonte. Temos a impressão, ao olhar as fileiras colocadas assim tão ordenadamente, de estar em um cinema ao ar livre do que o écram é o infinito. De quando em vez, escuta-se a voz dalguma gaivota, quiçá demasiado excitada para continuar em silêncio. Quando o sol desaparece totalmente as gaivotas reunem-se em pequenos grupos para iniciar a tertúlia. Observam, perguntam, especulam, respondem. Sempre acaba por falar a mais velha: 

- Amólame un pouco que sempre se busquen significados ao que nunca vimos antes. Non o sabemos todo; ignoramos moitas cousas da Natureza e querer entender completamente a súa linguaxe é bastante pretensioso. Estamos aquí para aprender e ver cousas novas, e moitas sempre ficarán sen explicación. Bastante sorte temos con poder seguir vendo fenómenos descoñecidos16.

Fenómeno desconhecido é que a mesma autora que faz, das odiadas gaivotas, libertárias e respeitosas filósofas seja quem ao tempo de organizá-las numa conspiração mundial para exterminar aos seres humanos e tomar o poder no planeta17.


Essa é a arte d’A NossA SenhorA dAs LetrAs, advogosa da imaginação. 



Referências:

https://www.lavozdegalicia.es/noticia/firmas/2014/03/28/momento-mais-euforico-da-creacion-e-posiblemente-inicio/0003_201403B28E1991.htm

http://ficcions.blogspot.com/

http://www.noticieirogalego.com/uxia-casal-quen-me-dera-a-min-ser-a-mestra-do-desacougo/

https://lecturafilia.com/2018/03/31/entrevista-uxia-casal-son-unha-escritora-lenta-porque-emprego-moito-tempo-buscando-as-palabras-que-me-convenzan/

http://www.crtvg.es/rg/destacados/diario-cultural-diario-cultural-do-dia-14-12-2017-3581746

https://praza.gal/cultura/uxia-casal-supono-que-nos-modernizamos-e-aceptamos-por-fin-que-a-literatura-non-ten-por-que-ser-plumbea

https://adiante.gal/unha-cousa-e-dignificar-a-lingua-e-outra-a-pedanteria/

1Adaptação livre de um fragmento d´O faro de Arealonga. Pág. 27.

2Os fragmentos lilás están extraídos do blogue Gradicela: http://gradicela.blogspot.com/

3Adaptação livre de um fragmento de Saturno tamén é deus 1ªed., pág. 43.

4Adaptação livre de um fragmento d’O faro de Arealonga, pág. 125.

5Adaptação livre de um fragmento de Saturno tamén é deus 1ªed., pág. 11.

6Adaptação livre de um fragmento de Saturno tamén é deus 1ªed., pág. 29.

7Micro-relato recolhido no blogue Delirios, propriedade de Uxía Casal: http://ficcions.blogspot.com/

8Adaptação livre de um fragmento de Sede en Ourense, pág. 119.

9Fragmento de Saturno tamén é deus 1ªed., pág. 83.

10O faro de Arealonga, 245-246.

11O faro de Arealonga, pág. 57.

12O faro de Arealonga, pág. 252.

13Adaptação livre de Sede en Ourense, pág. 20. 

14O faro de Arealonga, pág. 77.

15Sede en Ourense, pág. 16

16As ás de Xenoveva, pág. 62.

17Gaivotas no interior, relato de Saturno tamén é deus

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