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luns, 25 de novembro de 2013

Não che tenho medo, lobo, lobo, não che tenho medo

Grabado de Gustave Doré

Por Susana Sánchez Aríns

Instruções para confeccionar uma bomba caseira disque circulam avondas pola internet. E segundo as últimas condenações da Audiência Nacional espanhola qualquer de nós somos potenciais artificieiras. Basta possuirmos uma garrafa de coca-cola ou uma pota -mães, baleirade as lacenas!-, qualquer produto com ácido clorídrico -mães, baleirade o armário do lavabo!- e um algo de papel alumínio -ai, mães, mães, e nós a acreditar-vos inofensivas cozinheiras!-.

Teresa Moure, aparente mãe e inofensiva, colheu os arquétipos dum conto tradicional, perigoso em por si, como as garrafas de coca-cola, mas associado culturalmente ao establishment do meninhas, não andar com estranhos, encheu-no com auto-afirmação feminina como acelerante e inflamou-no com a lixívia da acção violenta e sexual. E, accionada polo acto de leitura, a bomba textual explode-nos nos olhos enquanto fazemos o leve gesto de passar a primeira página.

Não confundamos, o conto tradicional reborda violência e sexualidade, ou violência sexual; o único que faz a poeta e mudar o agente dessa força e esse sexo. E cuidado, também não era o lobo que a exercia no continho, mas a comunidade: aquela que envia a menina ao monte, sabendo-o habitado por alimárias, aquela que educa às raparigas para não parar nos caminhos a apanhar flores, grande delito!, ou conversar com as gentes que cruzam na vida, aquela que aprende às moças a temer o encontro sexual, aquela que nos aprende a violação como uma morte da que não há recuperação possível.

O acto subversivo da poeta não é outro que mudar a vítima em agente violentador. Porque nisso consiste o que muitas vezes é chamado de terrorismo: em usar a violência sem permiso e contra o poder hegemônico. A atitude terrorista da autora explicita-se qual manifesto no próprio título do poemário: eu violei o lobo feroz, onde identificamos com uma vista de olhos, esse EU com a da Carapuça encarnada. Uma eu que age, que actua, que faz, que não se oculta mas procura o choque furibunda.

E o sexo. Se algo aprendem as meninhas no conto tradicional é a esconder a sua curiosidade sexual: a que pergunta, a que quer saber por que esse apêndice engrandece, morre devorada. A violadora da Carapuça procura o encontro sexual. Ela mesma se sabe puta e condenada ao ostracismo pola assembleia cívica e o tribunal da cidade. Mas não por isso deixa de querer ver a pele do lobo, e lambê-la, e chuchá-la e deixar-se entrar por ela. Exibe o seu desejo como metralha que penetra em cada poro epitelial com mais força que a dor física da mutilação. Como uma femem desafiante, que escandaliza a próprias e estranhas, usa o seu corpo para provocar o questionamento dos papeis e o róis.

E quem, o lobo? Ao modo duma velha esmorga feminista não se aparece nem se pronuncia. Preside a sala do tribunal sem que cheguemos a vê-lo nunca. Dai o desejo. E não. O lobo feroz não é o lobo do conto tradicional. Não nos deixemos enganar. Este lobo é, insistimos, a comunidade, o poder que organiza as batidas contra animais equivocados, deixando com vida a todos os humanos repressivos e repressores que nos envolvem. Aqueles que se cargam o bosque em que vivemos.

Diz a da Carapuça que os 49 poemas que escreveu e publicou em forma de livro não são poesia. Explicita-o no texto intitulado post-scriptum. Porém, pensamos que o afirma levada pola súbita subida de oxitocina e prolactina orgásmicas.

Porque nós encontramos, sim, poesia. E por que não? Que um discurso nasça da realidade invalida-o como lírico? Que seja movido pola história e a memória retira-o para o mundo documental? Deixa a literatura de urgência de ser literatura por urgente? Não, Carapuça, não.


Teresa Moure: Eu violei o lobo feroz. Através Editora, 2013

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